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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Os Amantes Passageiros



Os melodramas de Pedro Almodóvar conquistaram o mundo com temas polêmicos e atuais, sutilezas e momentos cômicos, trágicos e criativos. Da genial comédia Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos, passando pelo contundente Fale Com Ela até o seu primeiro suspense, A Pele Que Habito, a rica filmografia do espanhol fez o mundo todo pensar e sair dos cinemas refletindo - para fora de si mesmo ou para dentro. Retomando os primórdios da carreira do cineasta, Os Amantes Passageiros é uma comédia despretensiosa, que fica muito aquém de um cinema autoral de qualidade.

Em um avião em direção ao México, os comissários de bordo resolvem colocar toda a classe econômica para dormir. O motivo é que, devido a problemas técnicos, causados por uma participação especial de Penélope Cruz e Antonio Bandeiras (duas estrelas que já trabalharam com o Almodóvar anteriormente), o avião está andando em círculos, precisando pousar, impossível até que se encontre um aeroporto disponível. Cabe aos comissários entreterem a classe executiva, que logo fica a par da situação da aeronave.

O diretor "chutou o balde" nessa nova produção. Só essa expressão popular basta para descrever Amantes Passageiros, um filme demasiado tosco e superficial. Almodóvar se diverte com uma sucessão de piadas sobre sexo e sexualidade, poucas realmente engraçadas ou bem elaboradas, e parece buscar apenas o riso fácil do espectador. Embora os diálogos sejam afiados, cômicos e por vezes até provocadores, o flerte com a comédia pastelão é grande: e fazer rir com homens dançando como mulheres está mais do que pra lá de ultrapassado, ou não? E, mesmo assim, é o momento mais marcante da obra (destaque também para uma cena de estupro peculiar, um ponto alto no filme), que não tem muito de novo para oferecer.

A fotografia colorida, os temas tabus e situações cômicas pouco improváveis são características do estilo do autor que estão presentes. Entretanto, ao mesmo tempo em que apresenta o seu filme mais gay (um dos temas mais recorrentes da sua filmografia), Almódovar traz também o mais americanizado deles. O diretor avacalhou: não surpreende, não seduz e não provoca a ninguém que está acostumado com seus filmes. Cinema de autor transformado em Todo Mundo Em Panico, edição especial "nas alturas".

O título Os Amantes Passageiros é sugestivo. O "passageiros" remete diretamente à fugacidade das relações humanas - seja daquele grupo de pessoas que acabaram de se conhecer e já compartilham muitos segredos, ou das relações que cada personagem tem com seu próprio mundinho. Cada um deles conta um pouco na tela de suas vidas e todos parecem personagens muito sozinhos, desapegados, e não muito preocupados com a ideia de que poderiam morrer nesse vôo. Verdadeiros passageiros na vida e no avião. Uma pena o filme não ter explorado essa nuance, tornando-se uma obra tão fugaz quanto essas relações. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Pele Que Habito

   
Pedro Almodóvar é o principal exemplo de contracultura espanhola. Em seus filmes pouco comuns, consagrou-se com sua liberdade para tratar de temas sexuais, provocações e paixões. Desde seu primeiro filme, o caseiro e trash Pepi, Luci e Bom e Outras Garotas da Turma (1980) até este recente A Pele Que Habito ( La Piel que Habito, 2011), o cineasta misturou drama e comédia, a subgêneros como o melodrama e o cinema gay, passando pelo cinema noir, sempre com grandes personagens femininas.

Foi uma surpresa quando se anunciou que Almódovar faria um filme de suspense. Nesse, Antonio Bandeiras retorna as lentes do cineasta depois de Ata-me (1990) como um cirurgião que, abalado pela morte de sua mulher, que teve seu corpo extremamente queimado, desenvolve uma pele artificial resistente à picadas de inseto e, é claro, ao fogo. Essa pele é vestida por uma mulher muito semelhante à sua falecida esposa.

Na trama, a pele não é de tão importância quanto se parece no começo. É apenas o pretexto para se dar início a uma história que será contada em flashbacks e que trará à tona surpreendentes revelações. Com várias cenas fortes, como de característica do diretor, o filme se destaca a usar de um elemento que nunca se envelhece nos thrillers: nada é o que parece. E a maneira que o filme se desenvolve, tenso e sutilmente impactante, colabora para um clima de suspense diferente que Almodóvar conseguiu atingir nessa obra. O filme se assemelha no tema com o sueco A Centopéia Humana (não entrarei em detalhes para não entregar spoilers), mas o clima aqui proporcionado é um terror oposto. Ninguém vai morrer de medo na cadeira e sair berrando, pelo contrário, a história nos põe em transe e o suspense é apenas alimentado de modo a querer-se descobrir o quanto antes o passado dos personagens.

Assim, o diretor se superou nesse último trabalho: trouxe o seu universo polêmico de maneira surpreendente a um gênero até então não explorado por ele. Sem grandes reflexões filosóficas ou melodramas, A Pele Que Habito é uma obra-prima pura, cuja indicação ao Globo de Ouro de melhor filme não foi nada menos do que merecida.