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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Deadpool



No começo de Deadpool, filme baseado nos quadrinhos da Marvel, o personagem que dá nome ao longa-metragem conversa com a plateia: "Você deve estar se perguntando: mas meu namorado me falou que esse era um filme de super-herói". Interpretado por Ryan Reynolds (Lanterna Verde), Deadpool está em busca de vingança, e não de justiça (ou salvar o mundo). Entretanto, apesar de tirar sarro dos filmes de super-herói, o trabalho dirigido por Tim Miller não escapa de ser um deles.


Na trama, Wade Wilson é um criminoso que atua fazendo pequenos favores: amedrontando garotos obcecados por alguma garota, por exemplo. Quando conhece a prostituta Wanessa (Morena Baccarin), os dois se apaixonam, e a relação, recheada de aventuras sexuais, é atrapalhada quando Wade é diagnosticado com um câncer terminal. Diante de uma proposta para curar a sua doença, o homem acaba parando nas mãos do mercenário Francis (Ed Skrein), interessado em mudá-lo geneticamente para torná-lo seu escravo no crime. Tudo dá errado e Wade é dado como morto - entretanto, ele está mais vivo do que nunca: com o poder de se regenerar, Wade se torna Deadpool e parte para a vingança, com o objetivo de consertar a única coisa que seu corpo não consegue - o seu rosto, que ficou completamente desfigurado. 

Tentando subverter as franquias saídas dos quadrinhos, Deadpool usa e abusa de palavrões e piadas de cunho sexual. O contato do personagem com o público, com piadas às vezes com o próprio filme (algumas muito boas, por sinal), também é frequente, e dá certo charme ao filme e ao personagem principal. As piadinhas e a autorreferência estão aí desde a abertura, quando os créditos não trazem os nomes dos envolvidos no filme e sim, digamos, "algumas verdades" - melhor deixar a piada para o filme. Além disso, a obra inclui muitas referências pop (muitas, inclusive, a outros filmes do mesmo estúdio, a 20th Century Fox, como 127 HorasBusca Implacável e a franquia X-Men).

Deadpool é um filme charmoso e engraçado. O personagem principal, um errante, cativa. Mas o longa-metragem peca um pouco pelo excesso: como é de praxe nos filmes da Marvel, há muitas cenas de ação, o que resulta em momentos um tanto tediosos. Em certo ponto, até as tiradas do personagem principal acabam cansando. E aí se percebe o quanto Deadpool, apesar de ser ousado ao ponto de colocar o seu protagonista fazendo sexo anal, por exemplo, ainda é um filme de super-herói, mesmo que o seu protagonista diga o contrário: todo o clímax se desenvolve para salvar a mocinha - e, para isso, o personagem contará com a ajuda de sua equipe, formada por dois mutantes, não muito simpáticos para o público. Mas isso o próprio filme explica, com bom humor: o estúdio não tinha dinheiro para chamar uns X-Men melhores.   

| Gabriel Fabri

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A 5ª Onda



A primeira sequência de A 5ª Onda indica um filme promissor. Escondida na floresta com uma arma, Cassie (Chloë Grace Moretz, do remake de Claire - A estranha) visita um mercado abandonado em busca de alimentos. Encontra um homem ferido - e armado - e não sabe como deve reagir. Para a surpresa do público, ela reage da pior maneira que poderia: esta aí o indício de que o longa-metragem dirigido por J Blakeson (O desaparecimento de Alice Creed) veio para fazer diferença na "onda" de distopias adolescentes. Entretanto, se essa era uma expectativa do público, ela será frustrada ao decorrer da projeção. 



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  • Baseado no primeiro livro da trilogia criada por Rick Yancey (o terceiro e último livro, The Lost Star, tem previsão de lançamento para ainda este ano), A 5ª Onda é centrado em Cassie e acompanha a personagem desde o seu último dia de vida normal: quando ela tem a sua primeira e atrapalhada conversa com Ben (Nick Robinson), um garoto pelo qual ela se sentia atraída. Na manhã seguinte, após uma estranha nave começar a sobrevoar a Terra, tudo seria diferente: a "primeira onda" cortou dos humanos toda a sua energia elétrica - o que derrubou aviões e impediu até a água encanada de funcionar. 

    À medida que acontecem as próximas "ondas", como são chamadas as etapas de destruição da raça humana, Cassie se vê sozinha, tentando se reencontrar com o seu irmão mais novo, que foi levado para uma base do exército norte-americano. No caminho, encontra-se com Evan (Alex Roe), um garoto atlético que resolve ajudá-la na busca pelo menino.

    A primeira cena do filme, sem dúvida a mais impactante da projeção, tem o propósito de mostrar que a protagonista de A 5ª Onda será o que tem de melhor e mais interessante no filme. Logo, veremos o por quê: como a própria atriz sublinhou em entrevista coletiva para a imprensa brasileira, Cassie era apenas uma garota normal, meio introvertida e preocupada com os estudos e com os garotos, muito diferente das super-heroínas das franquias Jogos Vorazes ou Divergente, por exemplo. Entretanto, logo de início, vemos ela em uma situação extrema. Narrando em primeira pessoa, recurso frequente por toda a trama, ela faz a seguinte constatação, logo após a sequência inicial: "me pergunto o que a Cassie antiga acharia da nova". O público provavelmente ficará com essa afirmação na cabeça, se já não tiver uma resposta pronta para ela. 

    Se o longa-metragem explorasse melhor esse mote - a luta não só para sobreviver ou para salvar o irmão, mas para permanecer humano (Como se destrói uma raça inteira? Tirando a sua humanidade, segundo a protagonista, em um momento de sua narração) - A 5ª Onda poderia ser melhor. Mas tudo no longa-metragem é ou batido ou infantilizado demais, e a própria Cassie parece em momentos ter se esquecido de que ela é só uma garota normal e não Katniss Everdeen (a protagonista de Jogos Vorazes). Isso pois o filme adota o tom de aventura teen, quando poderia ser muito mais intenso do que isso. Às vezes, dá até vontade de participar do fim do mundo também. 

    Para piorar, muitas coisas não convencem. O principal deles é o romance entre Cassie e Evan, que soa tão irreal quanto um conto de fadas. Trazer questões como sexualidade na adolescência, atração, sempre é um tempero a mais, se bem trabalhada. Aqui não é, e A 5ª Onda acaba lembrando um pouco A Saga Crepúsculo, o que não é um bom sinal. Para piorar, há reviravoltas óbvias, soluções fáceis demais e coadjuvantes sem sal, como a exagerada Ringer (Maika Monroe, de Corrente do Mal), incumbida de inserir um discurso feminista no filme, sem a menor sutileza (meio que sinalizando "olha como somos progressistas"), e depois sendo apagada ao longo do resto da projeção. 

    A 5ª Onda soa como uma mistura mal feita de Jogos Vorazes Maze Runner com alguns exemplos óbvios de ficção científica como Guerra dos MundosO Dia Em Que A Terra Parou, embora tenha bons momentos de humor e ação. Tudo isso, já preparando um triângulo amoroso para o próximo filme, é claro. Com certeza será um salto na carreira de Chloë Grace Moretz, mas é uma pena que o longa-metragem não agregue muito à onda de distopias adolescentes. Se depender deste filme, a onda já virou marola.   

    | Gabriel Fabri

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    *O Blogueiro assistiu ao filme a convite do site Mundo Blá

    terça-feira, 24 de novembro de 2015

    Jogos Vorazes: A Esperança - O Final



    Chega ao fim a maior franquia adolescente dos últimos anos, Jogos Vorazes, também a série com alguns dos filmes de ação mais inteligentes já feitos por Hollywood. A cada longa-metragem, a saga de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) superou as expectativas e entregou um filme melhor que o outro. Com forte conteúdo político e muita ação, a série baseada nos romances de Suzanne Collins tem o seu derradeiro desfecho em Jogos Vorazes: A Esperança - O Final, segunda parte do último capítulo da trilogia. Apesar de não ser o melhor da franquia, mostrando alguns sinais de esgotamento, o filme entrega um final digno e fora do comum para a série. A direção é novamente de Francis Lawrence, que assumiu a franquia em Em Chamas.  

    Essa segunda parte retoma o final do terceiro longa-metragem, em que Katniss foi agredida por Peeta (Josh Hutcherson), entregue ao décimo terceiro distrito com a sua memória confusa, e apenas a certeza de que sua ex-aliada era uma ameaça. Enquanto a guerra à Capital segue em curso, com mais distritos aderindo às forças rebeldes, a presidente Coin (Julianne Moore) pede que Katniss descanse. Ela, entretanto, tem outros planos: para por um fim no sofrimento de todos, Katniss vai matar o presidente Snow (Donald Sutherland). É a última chance do público de ver em cenas inéditas o ator Philip Seymour Hoffman, que faleceu antes de terminar as filmagens.        

    Depois de três filmes, é de esperar que a série não tenha muito mais o que dizer. Após a excelente primeira parte, a expectativa para A Esperança - O Final era de muita ação. Estamos falando, é claro, de uma guerra que chega ao seu clímax e, a esse ponto, as reflexões que o filme poderia provocar sobre a sociedade midiática ou sobre autoritarismo, muitas vezes ditos em nome da "paz" ou da "segurança", parecem já ter sido aproveitadas com esperteza nos longas anteriores. Entretanto, o romance de Collins pedia um tratamento diferente - e como os filmes, todos eles, optaram pela fidelidade ao livro, o mesmo ocorre neste derradeiro capítulo. Ora, Katniss não é uma guerreira nesta guerra e, neste filme, ela não assume a posição de líder: ela anda às margens do confronto, com a sua equipe, atrás de um objetivo secreto, o assassinato do líder da Capital. 

    Assim, os discursos estimulados de "vamos nos libertar da opressão" dão lugar a dúvidas e mais dúvidas, entre alguns obstáculos que o grupo enfrenta para chegar ao coração da Capital - sim, um novo Jogos Vorazes, mas dessa vez sem a necessidade de matar os colegas, embora haja a dúvida sobre confiar ou não em Peeta, um ponto forte na narrativa desse filme. E o brilhante final criado por Collins levanta mais questões a respeito do poder, do autoritarismo e da falsidade dos discursos que prometem o novo fazendo o velho. 

    Quem pensou que veria um filme só com ação errou, pois, assim como no episódio anterior, a ação aqui é secundária. Na cena de ação mais importante do filme, a heroína não salva o mundo com o seu arco e flecha, e sim, corre sem rumo, e assiste a tudo com uma sensação de impotência. Katniss, personagem que revelou para as massas Jennifer Lawrence, uma das maiores atrizes da atualidade, é complexa, é humana. E o filme não falha nessa construção: por trás da imagem forte do Tordo, há uma pessoa como outra qualquer - ok, é uma mulher muito forte e corajosa, mas também tem os seus medos e as suas paixões. E por falar em paixões, até quem ela "escolhe", entre Peeta e Gale, é um ato político nesse filme, um detalhe que pode até passar desapercebido, mas que não deve.

    O novo Jogos Vorazes, entretanto, pode deixar uma sensação de que algo ficou faltando. Justamente por não ter ação demais (o que tem é uma repetição mais chata dos filmes anteriores), ou um grande ato heroico, esperado por quem não leu o livro. Isso é somado a detalhes como a frieza na morte de uma personagem, que explode sem qualquer emoção, câmera lenta ou música melodramática - o que não é algo ruim, pelo contrário. Afinal, os filmes da franquia nunca foram como outros filmes de ação quaisquer. E nesta guerra, travada não mais na arena de um violento Big Brother mas na vida real, o glamour das batalhas não existe mais. Por que, enquanto acompanha a saga para matar Snow, o público se pergunta se aquele caminho é o certo a se trilhar. Vibrar com Katniss Everdeen fica mais difícil porque fica mais claro que ela, apesar de toda a sua coragem e autonomia, é em todo momento uma peça no jogo de alguém, mesmo que tente fugir disso. E o público, assim como a personagem, começa a ver que nem tudo é preto ou branco, vilões ou mocinhos, como se acreditava.  

    | Gabriel Fabri          

    domingo, 8 de novembro de 2015

    Como Sobreviver a um Ataque Zumbi


    Por Gabriel Fabri

    Na cola de Zumbilândia e Meu Namorado é um Zumbi, comédias que misturam filmes de zumbi com filmes adolescentes, o longa-metragem Como Sobreviver a um Ataque Zumbi, de Christopher Landon, apresenta tudo o que se pode esperar dele: referências à cultura pop, humor negro, muita correria e sangue, em meio à chance de jovens desajustados provarem que podem ser melhores do que aparentam.



    Na trama, três amigos vão acampar no dia em que os alunos do último ano estão dando uma festa secreta. É uma data especial para Augie (Joey Morgan), em que ele deveria receber a medalha máxima entre os escoteiros. Cansados da má fama que levam por participar do grupo, Ben (Tye Sheridan) e Carter (Logan Miller) decidem abandonar o amigo na floresta e ir para a festa, o que pode ser a chance de suas vidas de iniciarem sua vida sexual (ou melhor, social). Já com as camisinhas no bolso, eles encontram, porém, um obstáculo no caminho: a cidade inteira se transformou em um cenário apocalíptico, onde boa parte das pessoas foram transformadas em zumbis. Com a ajuda da garçonete Denise (Sarah Dumont), que trabalha em um clube de strip-tease mas não é stripper (sabe-se lá o porquê desse moralismo, como se ela não pudesse ser stripper para ter a simpatia do público, o que é uma bobagem), eles precisam salvar os seus pescoços e encontrar Kendall (Halston Sage), a irmã de Carter por quem Ben está apaixonado. 

    Embora às vezes soe forçada demais, como em sua sequência inicial, a comédia garante bons momentos de humor e adrenalina, como a impagável cena do trampolim e também a que um zumbi canta "Baby One More Time", de Britney Spears. Com enredo simples e alguns truques previsíveis, o filme não impressiona, mas diverte. O ponto forte é que Como Sobreviver a um Ataque Zumbi fala abertamente sobre sexo - o que o faz parecer ousado em alguns momentos. Se essa questão, tão cara na adolescência, fosse explorada com um pouco mais de complexidade, talvez o filme conseguisse um resultado melhor - não há um pio sobre experimentar a homossexualidade e a personagem de Denise, enfim, seria bem mais interessante se o seu trabalho no clube de strip-tease, mesmo apenas como garçonete, agregasse algo à trama, além de uma sequência engraçada. No fim das contas, é um filme mediano sobre garotos que querem se firmar e "ver uns peitinhos". Muitos meninos certamente vão se identificar com os personagens. 

    quinta-feira, 1 de outubro de 2015

    Perdido em Marte


    Por Gabriel Fabri

    Nos últimos anos, a ficção científica ganhou força no cinema com os lançamentos de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e Interestelar, de Christopher Nolan. Outro diretor de renome do cinema norte-americano, Ridley Scott (Alien, Prometheus) assume agora uma nova aventura no espaço: o longa-metragem Perdido em Marte, baseado no livro de mesmo nome de Andy Weir.


    Embora guarde muitas semelhanças com os outros dois filmes (o clímax, por exemplo, lembra uma cena de Interestelar), a obra de Scott se distingue pelo humor afiado, que mantém o clima do filme sempre "alto astral". Não há grandes momentos de tristeza, desespero, choro, ou tudo o que uma pessoa normal faria se estivesse sido abandonada sozinha em um planeta desconhecido. Intercalando a tensão na terra para resgatar o astronauta Mark Watney (Matt Damon) de Marte com as tentativas do bem-humorado personagem de sobreviver, o filme equilibra tensão e humor. O entretenimento é garantido.

    Na trama, Mark é deixado pela sua equipe em Marte após uma tempestade e dado como morto. Entretanto, ele consegue sobreviver. Ciente de que levaria quatro anos para a NASA enviar uma nova missão para o planeta, e sem poder se comunicar com a Terra, o personagem faz o que pode para sobreviver com os suprimentos que restaram na unidade. Mas Mark não é um astronauta comum: sua especialidade é biologia e ele consegue dar um jeito de cultivar batatas em uma sala, que fez de estufa. Um dia, sua movimentação é percebida na NASA por imagens de satélites, e começa na Terra uma agitação para pensar uma maneira de resgatá-lo de lá, vivo. Completam o elenco Jessica Chastain (Interestelar) e Michael Peña (Homem-Formiga). 

    Perdido em Marte é um filme divertido, sim, mas despretensioso. A intenção aqui é apenas a diversão, o que não é nenhum problema, pois Scott faz isso muito bem. A empatia com o personagem principal é instantânea, sendo ele o extremo oposto do personagem de Damon em Interestelar - é brincalhão e, frente à certeza de que vai morrer em breve, planta batatas e escuta Donna Summer (à contragosto, porque era a música que tinha na estação). Impossível não torcer para ele ser resgatado, ou vibrar a cada contratempo superado.

    Por ser tão despretensioso, fica a sensação de que faltou algo em Perdido em Marte. Como alguém consegue passar meses sozinho em Marte mantendo sempre esse alto astral dos personagens de Os Vingadores? Há uma tentativa meio forçada aqui do filme de ser descolado demais. 

    segunda-feira, 14 de setembro de 2015

    Maze Runner: Prova de Fogo


    Por Gabriel Fabri

    No primeiro filme da série Maze Runner, um grupo de jovens, cujas memórias foram totalmente apagadas, esteve preso no centro de um labirinto misterioso. Na tentativa de escapar daquela prisão a céu aberto, alguns escolhidos corriam no labirinto, que entrava em mutação todos os dias e fechava as suas portas à noite. Ninguém que ficou fora da aldeia depois do fechamento da passagem sobreviveu para contar a história. Até a chegada de Thomas (Dylan O'Brien), um garoto um tanto ousado, um tanto inconsequente, que lidera uma tentativa de abandonar de vez o centro do labirinto.



    O diretor Wes Ball retorna para Maze Runner: Prova de Fogo, o segundo filme da trilogia baseada nos livros de James Dashner. O novo longa-metragem guarda pouco do primeiro filme: os jovens não são enviados novamente para um labirinto ou para um outro teste, como sugeriu o final de Maze Runner - Correr ou Morrer. Seriam, na verdade, drenados em um laboratório, se não fosse pela tentativa de Thomas de novamente fugir. Perdidos no deserto, eles devem lidar com zumbis, enquanto fogem dos agentes da WICKED, empresa que procura uma cura para a doença que transformou em mortos-vivos toda a população da terra.

    De uma aventura adolescente distópica, que lembrava Jogos Vorazes, Prova de Fogo se aproxima mais de um filme trash de zumbis - com a diferença, é claro, de que os efeitos especiais e as cenas de ação são muito mais bem elaboradas do que as de qualquer filme de terror B. Virou um episódio menos violento de Resident Evil com rostos jovens e sonhadores. O que fica do primeiro Maze Runner é a questão da corrida: correr no deserto, em meio aos zumbis, é muito mais alucinante. E nesse quesito, os fãs do primeiro filme não sairão decepcionados, afinal, o novo longa-metragem tem muito mais ação e é adrenalina pura. 

    Ao contrário do primeiro filme, não há uma premissa criativa em Prova de Fogo. O que torna o filme acima da média é uma questão interessante que é colocada em cena pela personagem Teresa (Kaya Scodelario): se esses jovens são a chave para encontrar uma cura para a humanidade, faz mais sentindo fugir da corporação e lutar pela sua liberdade, ou é melhor ficar e aceitar a ser cobaia para salvar o mundo? Esse dilema é sutil, mas muito bem colocado no filme, e pode provocar o espectador que facilmente é levado a torcer pelo herói. É fácil torcer por Thomas e os amigos. Mas qual é o seu plano para salvar a todos? O personagem pensa apenas em seu grupo, assim como a WICKED só pensa no seu. Até que ponto eles são assim tão diferentes? Questões que o terceiro longa-metragem deve, ou não, responder. Mas o mérito aqui é mostrar que, por trás de uma dualidade maniqueísta, há sempre algo mais complexo do que os simples reducionismos.

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    quarta-feira, 5 de agosto de 2015

    Quarteto Fantástico


    Por Gabriel Fabri

    A história do Coisa, do Tocha-Humana, da Mulher Invisível e do Homem Elástico ganha uma nova adaptação nos cinemas com Quarteto Fantástico, dirigido por Josh Trank (Poder Sem Limites). Assim como em O Espetacular Homem-Aranha, a Marvel aposta em recomeçar do zero a franquia do grupo de personagens. O novo longa-metragem, entretanto, erra no clímax, mas acerta ao adotar um tom mais adulto. 
    O mais interessante do novo Quarteto é resolver um problema que acomete longa-metragens como Os Vingadores - A Era de Ultron: o excesso de ação. Ao recontar a história dos personagens, o filme de Trank desenvolve com calma cada um deles, dando tempo para o público se envolver com seus sonhos, medos e anseios. Reed, o garotinho genial cujo talento não é reconhecido por ninguém; seu único amigo Ben, que fica ao seu lado após encontrar, nos experimentos na garagem de Reed, um refúgio para a relação conturbada com o irmão; Sue, a filha perfeita, adotada por Franklin Storm, seu futuro chefe e mentor; Johnny, um garoto um pouco rebelde e filho biológico de Storm.  

    Muito barulho foi criado em torno desse novo grupo apresentado no longa-metragem de Trank, com a escalação de um ator negro para viver Tocha-Humana - nos filmes anteriores e nos quadrinhos, o personagem é branco. A mudança não faz realmente nenhuma diferença para a trama em si, na medida em que o racismo não é colocado como tema no filme, mas de qualquer forma é sempre positivo ver os negros ganhando mais espaço no cinema. Entretanto, mais importante do que tentar criar polêmica em torno dessa escalação (e daí que não é fiel aos quadrinhos?) é ver o que tem realmente de novo nesse Quarteto: agora, os quatros "fantásticos" não são mais jovenzinhos descolados, sex symbols em trajes ajustadinhos, com seus poderes incríveis, prontos para salvar o mundo. Acabou o glamour.  

    Aqui temos quatro garotos (cinco, se for contar com Victor  Domashev, o mais rebelde do grupo de cientistas) completamente desajustados. Eles são nerds, não vão a festas, não tem relacionamentos amorosos, não fazem uma faculdade tradicional como a grande maioria dos jovens. Pelo contrário, estão sempre confinados no laboratório. Os personagens do novo Quarteto se aproximam mais então de Peter Parker antes de virar o Homem-Aranha do que, por exemplo, do time de Os Vingadores. Está aí algo que pode desagradar em cheio o grande público: nesse filme, ninguém vai sonhar com os super-poderes ou sair do cinema pensando "poxa, que legal ser o Tocha-Humana". Pelo contrário. Nesse sentido, esse Quarteto Fantástico é muito mais frio que os antecessores - aliás, mais frio que qualquer filme da Marvel recente. Não há espaço para o humor dos outros filmes da série ou para romance, deixando o foco na realização e fracasso profissional de cada um deles e na necessidade de aprovação dos pais, ou do mentor. Essa problemática da família é o que parece conectar todos esses personagens - todos têm os seus problemas familiares, e o laboratório constitui a sua nova "casa", para o bem ou para o mal.

    Os personagens serem jovens mais reservados ou o filme ser mais frio em relação a qualquer outro filme de super-herói da Marvel - e sem a densidade de um Batman, da DC Comics, por exemplo - não é um problema. Pelo contrário, é interessante ver uma história de super-herói mais "séria". O que enfraquece o novo Quarteto é o seu clímax desastroso. Tudo ia razoavelmente bem, até que começam frases de efeito como "você não pode mudar o passado, mas pode mudar o futuro" e o vilão é posto em ação. Oras, o longa-metragem poderia explorar um vilão fantástico em mãos - o governo dos Estados Unidos, que quer transformar os quatro em armas militares, que finge estar interessado em arrumar uma cura para as anomalias e que os torna ainda mais frustados, confinados sob uma porção de testes científicos e treinamentos militares. Sem amor, diversão, entretenimento ou ar puro. Mas, não, o quarteto tinha que salvar o mundo de alguma forma, e não é se rebelando como o público anseia. É lutando contra uma criatura risivelmente sem graça e pouco convincente, em outra dimensão. E um filme de ação que concentra a ação toda no clímax não pode entregar algo tão broxante, sem sal, quanto a luta final. Nunca salvar o mundo pareceu tão banal.

    Quarteto Fantástico perde a chance de ser uma fantasia sofisticada, resultando em um entretenimento passageiro, facilmente esquecível. Há ousadia em menosprezar a ação (deixando de lado o 3D, a nova galinha de ouro de Hollywood) e em trazer um protagonista negro, mas falta um vilão à altura - tinham um, mas que foi deixado de lado, para manter a questão do fantástico, talvez, e não ficar realista ou adulto demais. Uma pena, pois a reinvenção dessa franquia se apresenta de maneira promissora, mas não conclui o que promete.

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    terça-feira, 7 de julho de 2015

    Cidades de Papel


    Por Gabriel Fabri

    Muito se falou sobre A Culpa é das Estrelas, bestseller de John Green que virou um filme estrelado por Shailene Woodley e Ansel Elgort. O barulho em torno de Cidades de Papel, adaptação de outro romance de Green, não chegou - por enquanto - perto da comoção que gerou a história do casal de adolescentes com câncer, que tiveram um "para sempre em um número finito de dias". Uma pena, pois Cidades de Papel é um romance muito mais interessante. E a sua adaptação tem exito, resultando em um divertido retrato da juventude - e não só dela - nos dias de hoje.


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    • Quentin (Nat Wolff) e Margo (Cara Delevingne) são vizinhos desde criança. Eram amigos, mas se afastaram na adolescência. Ela virou a menina mais popular do colégio, ele é o típico garoto nerd, que não se dá bem com as garotas, pelo menos não sexualmente, não vai em festas e não tem um carro. Tudo parece mudar quando Margo aparece um dia de madrugada na janela de Quentin, com uma proposta: ela irá, antes do sol nascer, realizar nove tarefas, e precisa que o garoto seja o seu motorista de fuga. No dia seguinte a essa aventura, Quentin imagina que nada será como antes. Ele está certo, mas não do jeito que gostaria: Margo desapareceu. Mas, aparentemente, deixou pistas para encontrá-la. 

      Dirigido por Jake Schreier, Cidades de Papel enxuga as inquietações de Quentin e todas as suas tentativas frustadas de encontrar a vizinha, simplificando um pouco a história. Um ponto positivo para o filme, que resolve priorizar e aprofundar o momento que o livro tinha de melhor, a road trip para encontrar Margo, e a relação de Quentin com os seus dois melhores amigos: Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith). Esses dois coadjuvantes, aliás, roubam a cena em muitas sequências do filme, e trazem um alívio cômico para a história. 

      Cidades de Papel fala sobre um monte de questões, de uma maneira leve e envolvente. A principal delas é sobre aparência - como Quentin pode ser um "ninja", ou um "herói", mesmo sendo um adolescente desajeitado; como Lacey é mais que um rostinho bonito, e ninguém vê isso; como a turma dos "excluídos" pode ser descolada; e, por fim, como tantas pessoas criaram uma ideia na cabeça de uma Margo que não existia. Mas o filme ainda fala sobre coisas mais profundas como amizade e transições, como em um questionamento de Margo, logo no início da projeção, que é mais ou menos assim: "você vai se formar, casar, ter filhos e daqui a uns dez anos é que você vai ser feliz? Nunca ouvi algo tão triste". 

      Uma outra frase do filme sintetiza bem Cidades de Papel, dizendo que, no final do colégio, quando todos estão fazendo as coisas pela última vez, esses personagens estão fazendo tudo pela primeira vez. O que mostra que o longa-metragem pode até ser adolescente demais, ou convencional demais, mas isso não importa tanto, pois a história tem bastante conteúdo. O filme é bom, mudando para melhor alguns aspectos da obra original, mesmo que ainda assim tente encaixar detalhes demais do livro às vezes, que soam desnecessários. Mas, só por ter acrescentado a hilária cena envolvendo a canção de Pokemon, já deve agradar, mas também surpreender, os fãs do romance.  

      terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

      Belle e Sebastian


      Por Gabriel Fabri

      Quem procura um filme cujos personagens principais são uma criança e um animal geralmente não pode esperar encontrar nada muito além de diversão despretensiosa e vários momentos de fofura. No longa-metragem francês "Belle e Sebastian", dirigido por Nicolas Vanier, que chega apenas com cópias legendadas no Brasil, o público terá essa expectativa não só atingida como superada com uma bela história, adaptada do romance clássico de Cécile Aubry.

      A trama se passa em 1943 na região dos Alpes na França, fronteira com a Suíça. O jovem Sebastian (Félix Bossuet) vive com o avô adotivo, à espera de que sua mãe retorne da América - região que acredita estar localizada do outro lado das montanhas. Durante os seus passeios pelas redondezas, conhece "a fera" que vem amedrontando os moradores do vilarejo. Descobre, entretanto, que o animal é uma cadela dócil, e ela logo se torna a sua melhor - e na verdade a única - amiga.

      Apesar do garoto e da cadela transmitirem muita simpatia, a grande força do filme está em sua contextualização histórica, que é muito marcante e não fica em segundo plano. Isso por quê a família de Sebastian ajuda os judeus a atravessarem os Alpes para fugir do nazismo, que se mostra presente pelas constantes figuras dos soldados da SS na cidadezinha. A inocência da criança em meio à guerra acaba sensibilizando mais que os pelos brancos e radiantes de Belle ou a relação do garoto com a cadela, embora não se possa desassociar do contexto histórico o companheirismo dos dois personagens (pode-se supor que o isolamento e a solidão de Sebastian são consequências diretas da guerra).

      "Belle e Sebastian" tem também uma fotografia marcante, repleta de planos abertos, que parecem estar aí para impressionar mesmo, mas que cumprem a função de realçar a dimensão de "aventura" do filme. Ao mesmo tempo, entretanto, nos lembra o quanto essa história traz apenas alguns pequenos exemplos do mal causado na II Guerra.            

      domingo, 18 de janeiro de 2015

      Em DVD: Maze Runner - Correr ou Morrer


      Por Gabriel Fabri

      Na onda das adaptações de romances infanto-juvenis para o cinema, Hollywood parece ter encontrado a sua galinha dos ovos de ouro nas distopias adolescentes. Depois da bem sucedida franquia de "Jogos Vorazes", que chega ao seu derradeiro capítulo em 2015, juntou-se ao hall das divertidas franquias a série "Divergente", estrelada por Shailene Woodley e Ansel Elgort, o casal de "A Culpa é das Estrelas". Agora, "Maze Runner - Correr ou Morrer", que chega em DVD no Brasil nesse mês de janeiro, inaugura uma nova trilogia cinematográfica, com direito a muita ação e correria.

      A premissa é bem simples: Thomas (Dylan O'Brien, da série "Teen Wolf") acorda em um campo cercado por muros altos - ele está no centro de um labirinto, cujas portas se fecham toda a noite. Ninguém que foi trancado do lado de fora dos muros sobreviveu para contar a história. Preso nesse centro com uma porção de jovens que chegaram ali como ele, sem lembrar nada além do próprio nome, Thomas assume a liderança de uma fuga, após ser o primeiro sobrevivente de um ataque das criaturas que vivem no labirinto.

      Sem a trama política ou a crítica cultural que envolve "Jogos Vorazes", por ora "Maze Runner" se limita ao mero entretenimento. Com a franquia estrelada por Jennifer Lawrence, se aproxima justamente pelas cenas de ação: a arena dos jogos e o labirinto funcionam de maneira semelhante nas duas narrativas, trazendo perigos monstruosos e criando um ambiente de horror propício para muitas lutas - inclusive entre os personagens.

      Com direção do estreante Wes Ball, "Maze Runner" cumpre o que promete, apesar dos conflitos com o personagem Gally (Will Poulter) parecerem um tanto exagerados, assim como a atuação de O'Brien no papel principal, com um heroísmo exacerbado pouco convincente - um herói perfeitinho demais, e, por isso mesmo, sem sal. Quem se destaca mesmo é um coadjuvante, Chuck (Blake Cooper), que ofusca todos os protagonistas - inclusive a misteriosa Teresa (Kaya Scodelario, da série "Skins"), muito mal aproveitada nesse primeiro filme. Mesmo assim, o longa-metragem prende bastante a atenção, cria bons momentos de ação e consegue tornar (e manter) a trama interessante ao longo de seus 110 minutos. O gancho para a continuação também é bom, e como o filme traz mais mistérios do que esclarecimentos, pode-se esperar mais de seu sucessor. 

      sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

      Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba



      Por Gabriel Fabri

      Falecido em agosto de 2014, o ator Robin Williams vive um dos seus últimos momentos nas telas do cinema no filme "Uma Noite no Museu 3: O Segredo da Tumba". Ele interpreta pela terceira vez a estátua do ex-Presidente dos Estados Unidos Roosevelt, que ganha vida no Museu de História Natural de Nova York quando o sol se põe, assim como todos os outros objetos em exposição. Todas essas criaturas, entretanto, correm o risco de perder para sempre a magia que as transforma em seres animados.

      Ben Stiller retorna no papel de Larry, o vigia noturno do museu. Nessa nova aventura, ele descobre que a magia que dá vida aos objetos provem de uma placa de ouro egípcia, que está se deteriorando. Para salvar os seus amigos, ele irá levar a placa para um museu na Inglaterra. Só um Faraó, cuja tumba está exposta nesse museu, pode ter a solução para o problema. Porém, ao chegar em um museu desconhecido com a placa, ela dará vida também para todas os objetos do local, que despertam pela primeira vez.

      Ao transportar os personagens conhecidos como o de Robin Williams e o Owen Wilson para um museu diferente, com novas criaturas que Larry não conhece, "Uma Noite do Museu 3" faz com que a história de artefatos históricos ganhando vida tenha um ar de novidade que não se perde durante a maior parte do filme. Com bom humor, que brinca mais com as novidades tecnológicas e as suas manias do que os fatos históricos, o longa-metragem conquista rapidamente a simpatia do público, embora algumas piadas soem forçadas. Quem se destaca, roubando a cena do filme, é Lancelot, o personagem de Dan Stevens, que protagoniza o melhor momento do filme junto com Hugh Jackman, em uma participação especial como ele mesmo. 

      O resultado é uma comédia leve e divertida. Uma boa pedida para as férias de janeiro. 

      quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

      Em DVD: Planeta dos Macacos: O Confronto



      Por Gabriel Fabri

      Na tentativa de descobrir a cura para o Alzheimer, cientistas desenvolveram no laboratório um vírus que acabou varrendo a maior parte da vida humana na Terra. Transmitida a partir dos macacos que eram cobaias nos laboratórios, a Gripe Símia mudou a cara do planeta. Dez anos após a tragédia, há pouco sinal de pessoas vivas, sendo os macacos, evoluídos, a espécie dominante. É esse o ponto de partida de "Planeta dos Macacos: O Confronto", dirigido por Matt Reeves. 

      Vivendo presos em uma pequena cidade, como se estivessem "enjaulados", os humanos começam a explorar o redor de São Francisco em busca de uma fonte alternativa de energia. Um grupo de pessoas, lideradas por Malcolm (Jason Clarke), sai numa expedição a uma antiga hidroelétrica. No caminho, entretanto, encontram uma comunidade de macacos que falam inglês e cavalgam, organizados em torno da figura de seu líder, César (protagonista de "Planeta dos Macacos: A Origem", de 2011). Para conseguir a energia necessária e se conectar novamente com o mundo, os humanos não tem outra opção, a não ser tentar fazer com que os macacos cooperem para que a hidroelétrica seja consertada. 

      Um acerto da franquia "Planeta dos Macacos", desde o filme original de 1968, é humanizar os animais, fazendo com que o público se identifique com esses personagens. Não é diferente nesse novo filme, que mais uma vez borra a linha que separa macacos de humanos. A obra discute o erro de achar que a sua raça é superior à outra, ao mesmo tempo em que põe em xeque a capacidade do ser humano de lidar com as diferenças, em prol de um bem comum. E tudo isso é visto na rivalidade dos macacos César e Koba, em que gira a maior parte do filme. Esse segundo "Planeta dos Macacos" foge da armadilha de colocar os animais em oposição aos humanos, escapando de um maniqueísmo em que facilmente poderia cair.

      Se a ideia de nos colocar não mais como a raça dominante no planeta, mas como seres em desvantagem com relação aos macacos, nunca deixa de ser interessante e rica de possibilidades narrativas, o novo "Planeta dos Macacos" também prende a atenção pela qualidade técnica - os efeitos são impecáveis e o plano sequência no tanque de guerra, um dos truques mais inesperados e mais legais vistos nos filmes de ação recentemente - e pelo desenvolvimento do filme, que cumpre a função de entreter sem se tornar apressado ou forçado demais.

      sábado, 6 de setembro de 2014

      Em DVD: O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro



      Por Gabriel Fabri

      Quando a Sony Pictures anunciou que iria reinventar a bem-sucedida franquia “Homem-Aranha”, a decisão gerou muita curiosidade, mas também a dúvida de que o reboot conseguiria superar os filmes anteriores e agradar tanto novas audiências, quanto aquelas que lotaram os cinemas na trilogia de Sam Raimi. Dirigido por Marc Webb, conhecido pela comédia romântica "(500) Dias com Ela", o primeiro "O Espetacular Homem-Aranha" acabou com as dúvidas de que o aracnídeo conseguiria uma nova vida nos cinemas. Agora, com o "O Espetacular Homem-Aranha 2 - A Ameaça de Electro", que acaba de chegar ao Brasil em DVD/Blu-ray/Blu-ray 3D, a franquia tem a chance de mostrar a que veio.

      Peter Parker (Andrew Garfield) e sua namorada, Gwen Stacy (Emma Stone), acabam de se formar no colegial. Com a perspectiva de uma nova vida pela frente, os dois terminam o namoro. Mas Peter não vai conseguir pular de prédio em prédio sem pensar em sua amada, que segue constantemente. Enquanto isso, o engenheiro elétrico Max (Jamie Foxx), um homem solitário entre tantos homens invisíveis na sociedade, sofre um acidente que o transforma em uma criatura que se alimenta de energia elétrica, o Electro; e o novo presidente da Oscorp, Harry Osborn (Dane DeHaan), antigo amigo de Peter, descobre que está morrendo e acredita que o sangue do Homem-Aranha é a única coisa que pode salvá-lo. Se tudo isso não são problemas o bastante, Peter ainda deve se confrontar com as lembranças de seu falecido pai. Sally Field (da série “Brothers & Sisters”), repete o papel da tia May.   

      O novo filme acerta em focar a trama em torno de Gwen Stacy. É clara a intenção de Webb, que retoma a direção nessa sequência, de priorizar os conflitos pessoais dos personagens em detrimento das cenas de ação, de forma que essas estão mais concentradas no final. E o papel que Stacy exerce no fim da trama reforça a importância dessa personagem. Os vilões do filme, também, demoram muito tempo para se tornarem vilões de fato: são, antes, tidos como pessoas normais, com problemas corriqueiros (a solidão e uma doença, por exemplo). Não que isso não estivesse presente nas franquias de Raimi, mas é nessa construção dos personagens que está a força desse novo longa-metragem.

      Outra marca dessa nova franquia é o uso do humor, sempre presente e muito bem-vindo. Todavia, ele está concentrado nas falas e atitudes do Peter, que é idealizado demais nesse filme. Desafio os leitores a encontrar um defeito em Peter Parker. Não há. Talvez essa seja a fraqueza do filme: existe um adolescente perfeito? Aqui existe. É um detalhe que enfraquece o filme, mas não deve tirar a diversão de "O Espetacular Homem-Aranha 2". 

      O Blu-ray inclui um longo making off e 13 cenas inéditas, incluindo um final alternativo, “Peter encontra o seu pai”, que por pouco não entrou na edição final. Em todas as mídias, o lançamento incluiu o clipe da canção “It’s On Again”, da cantora Alicia Keys, com participação do rapper Kendrick Lamar e do produtor Pharrell Williams. Assista abaixo:



      terça-feira, 17 de junho de 2014

      Como Treinar o Seu Dragão 2


      Por Gabriel Fabri

      O Fúria da Noite era o dragão mais temido de um vilarejo vicking, cuja dinâmica social era organizada em torno da proteção à ameaça representada pelas criaturas voadoras. Soluço, o filho do líder da comunidade, não tem nenhuma das qualidades esperadas pelo seu pai, até que captura o tal dragão e decide cuidar dele, ao invés de matá-lo, causando uma verdadeira mudança de percepção entre os humanos. Essa é a história de "Como Treinar O Seu Dragão", uma animação sobre o medo do que é diferente e as maneiras de lidar com isso. A sequência, "Como Treinar o Seu Dragão 2", continua com a mesma mensagem, e resulta também em um filme de boa qualidade. 


      Cinco anos após o desfecho do primeiro longa-metragem, o vilarejo de Soluço vive em perfeita harmonia com os dragões, que foram acolhidos pela comunidade. A tranquilidade pode acabar devido à ameaça de Drago, que planeja extinguir os dragões controlando um exército dessas criaturas. Soluço terá a ajuda de sua namorada, Astrid, e também de uma personagem inesperada. Gerard Butler, Cate Blanchett e America Ferrera são alguns dos dubladores na versão em inglês. 

      A sequência sabe aproveitar os personagens bem construídos do primeiro filme, criando simpatia no público e sempre dando alguma função para os coadjuvantes. A variedade não prejudica o ritmo da obra, pelo contrário, ajuda com momentos de humor. O mais interessante é que a maioria desses personagens não são mais crianças em treinamento, e sim adolescentes que querem mostrar o seu valor. Saem as brincadeiras com os dragões e entram os conflitos dessa faixa etária. O destaque é um "triângulo amoroso" que já estava presente no primeiro filme, mas que agora ganha mais espaço na trama. 

      A idealização do personagem principal parece um tanto exagerada. Soluço é romantizado demais. Entretanto, isso não chega a prejudicar a obra, que se mantém verossímil (levando em conta que se trata de uma fantasia com dragões, claro) e envolvente do começo ao fim. Se o primeiro longa-metragem teve a ousadia de terminar com Soluço mutilado, faltou explorar um pouco esse aspecto, que é bastante negligenciado. Entretanto, a dose de ousadia aqui existe, e está na arrebatadora reviravolta do clímax, que deve provocar algumas lágrimas na plateia.

      Incomoda um pouco que um filme sobre aceitação tenha que disfarçar a homossexualidade de um personagem de modo que apenas os adultos entendam. Mas isso é apenas um detalhe. "Como Treinar o Seu Dragão 2" é uma ótima animação, muito acima da média e que deve encantar a todos. Até por que é impossível resistir ao sorriso do Banguela, o dragão fofo de Soluço, aqui ainda mais encantador.

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      domingo, 18 de maio de 2014

      X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido




      Por Gabriel Fabri

      Muita expectativa cerca o novo filme dos mutantes da Marvel. Trata-se, afinal, da união do elenco principal com os atores jovens de "Primeira Classe" - tendo, na linha de frente, o personagem Wolverine (Hugh Jackman), que já ganhou dois longa-metragens próprios. Fazer essa mistura ser convincente não é tarefa fácil, mas "necessária" para o mercado de cinema. É a união das duas maiores estrelas da série, Jackman e Jennifer Lawrence (de "Trapaça"). Felizmente, o que resulta de "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido", de Bryan Singer, é o mais empolgante longa-metragem da série.


      Na trama, o planeta Terra foi transformado em um cenário apocalíptico. A guerra entre mutantes e humanos chegava ao ponto de quase extinção dos X-Men, devido à criação de robôs muito mais poderosos. Em meio a esse caos, a única solução foi enviar Wolverine através do tempo, para o ano de 1973. 50 anos no passado, o mutante deve convencer as versões mais novas de Charles Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) a impedir Mística (Jennifer Lawrence) de assassinar o criador das máquinas que desencadearão o fim do mundo como conhecemos. 

      Embora surja com ares de novidade - a destopia futurista consolidada, a união de todos os mutantes e a viagem no tempo -, o novo X-Men continua apostando na fórmula que o consagrou: boas dozes de humor, muitas cenas de ação e um discurso muito positivo sobre, em suma, tolerância com os outros e aceitação de si mesmo. Esse é o "segredo" do sucesso da série. Elementos que aqui se apresentam de maneira ágil e envolvente.Um ponto alto é a divertidíssima sequência durante uma fuga no Pentágono, que acontece dentro de uma cozinha, logo no começo do filme. Uma fuga que, aliás, garante outros momentos hilários - sete filmes depois e os roteiristas ainda conseguem extrair algo de cômico dos super-poderes dos personagens.

      A mistura dos elencos traz problemas, mas também é parte da solução. O acerto foi trazer ao passado apenas Wolverine, o mais "descolado" dos mutantes, tendo bastante química com os personagens mais jovens. O sarcasmo está presente até para tirar sarro da ideia de volta no tempo, que rende alguns bons diálogos. Wolverine, além do público, é o único que conhece como os personagens com quem dialoga estão mudados, no futuro.

      O clímax é, talvez, o grande problema do filme. No passado, é realmente o momento mais empolgante do longa-metragem, decisivo. No futuro, soa desproposital - afinal, não é alí que se dará a solução do conflito. E o pior: tirando a mais que desnecessária participação especial de Hale Berry, a maioria dos mutantes desse futuro são desconhecidos do público, que não desenvolve por eles a menor simpatia - só conhecemos os seus poderes, apresentados no início do filme. Ou seja: "Dias de Um Futuro Esquecido" monta paralelamente o clímax de duas histórias, uma de longe menos importante que a outra. A ideia de um "24 Horas" com meio século de diferença até ajuda a aumentar a tensão, mas atrapalha o desenvolvimento desse final. Até por quê a ação do futuro não tem nada de empolgante ou de novo, ao contrário das cenas com o elenco jovem. Afinal, quem se importa com quem vai morrer no futuro, se o que acontece no passado vai mudar isso, inevitavelmente?

      Apesar dos problemas, "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" é o mais empolgante e divertido filme da série. Deve agradar em cheio aos fãs. Estes terão que esperar por mais um longa-metragem, porém, para alguém explicar por que o Professor Xavier ainda está vivo em 2023, quando sabemos que o personagem foi morto e enterrado em "X-Men: O Confronto Final"... Está aí um possível pretexto para uma continuação.  

      domingo, 24 de novembro de 2013

      Jogos Vorazes: Em Chamas



      Por Gabriel Fabri

      No início de 2013, a doutora pela USP Silvia Viana lançou, pela Boitempo Editorial, o livro "Rituais de Sofrimento", em que analisa produtos culturais, em especial os reality shows, como verdadeiros espetáculos de horrores, transformados em entretenimento. São, como o nome da obra deixa claro, rituais onde os participantes se submetem a sofrimentos, acompanhados por uma grande audiência. A nítida crítica de Jogos Vorazes a esse tipo de programa de televisão ressalta o caráter perverso e alienador dessa cultura, ao associá-lo com a manutenção de uma ditadura e elevar esses sacrifícios às próprias vidas dos participantes, tornando o vencedor não o único vitorioso, mas o sobrevivente. No segundo filme da franquia, Jogos Vorazes: Em Chamas, de Francis Lawrence, as cenas de ação se tornam mais empolgantes, mas nem por isso a crítica social e cultural é deixada de lado.

      Na nova trama, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar por O Lado Bom da Vida) está de volta ao 12º distrito, aonde aguarda o início de uma turnê com o colega Peeta (Josh Hutcherson), em que percorrerá todos os distritos de Panem, uma versão distópica de um Estados Unidos no futuro. A sua vitória na última edição dos jogos, marcada por provocações à ditadura em vigor, mudou o clima nas regiões mais pobres, e a ameaça de revolução torna Katniss uma figura perigosa, um símbolo de resistência que incomodará - e muito - os poderosos.

      Agora, a espetaculização do sofrimento não é mais o foco principal, embora os indícios de uma mídia cínica e manipuladora, e a necessidade dos participantes de construírem versões falsas de si próprios para sobreviverem nela, estejam em forte evidência. A máscara da ditadura da Capital caiu, e a pior face dela é revelada: a repressão, a exorbitante desigualdade social, o caráter alienador dos jogos e o glamour sem sentido, até desconcertante, em torno dos vencedores. Curiosamente, coisas que vemos, em graus menores, na atualidade, no mundo inteiro.

      Só todas essas questões envolvidas, que estão muito bem articuladas, já podem fazer o público pensar mais que em muitos filmes franceses ou iranianos, por exemplo. Todavia, é claro que grande parte delas devem ser creditas à autora do livro no qual o filme homônimo se baseia, Suzanne Collins. Mas as questões estão presentes, traduzidas de maneira clara, sem ser panfletária ou massante, para a linguagem cinematográfica. Em Chamas choca e entretém nos momentos certos, constrói uma trama complexa e envolvente e cria boas sequências de ação para nenhum outro blockbuster hollywoodiano botar defeito.

      Interessante também pensar no caráter metalinguístico dos dois filmes. Ao mesmo tempo em que se critica a cultura dos reality shows, o próprio público do filme assiste aos rituais de sofrimento dos personagens, vibrando com a ''eliminação'' dos concorrentes de Katniss, atento a cada reviravolta. A diferença parece está em um fator que o próprio Em Chamas explica: a esperança, representada na personagem principal. 

      Em tempo: recomendo essa música linda que faz parte da trilha do filme. Infelizmente, não toca nem nos filmes e nem nos créditos. Então, dê o play em "We Remain", da Christina Aguilera, abaixo:


      terça-feira, 5 de novembro de 2013

      Amor Bandido


      Por Gabriel Fabri

      O começo de Amor Bandido (Mud) anuncia um filme de aventura. Dois garotos, Ellis e Neckbone, fogem de suas rotinas, mas com hora para voltar, ao atravessar um rio com destino a uma ilha deserta, próxima de suas casas. Lá, invadem um barco no alto de uma árvore, supostamente abandonado. Pegos em flagrante pelo morador, o simpático Mud, os dois logo se envolvem em uma missão para que o homem se reencontre com o amor de sua vida, antes que a polícia o alcance. Com ritmo bastante ágil e breves momentos de tensão, o longa discute o amor em suas variadas formas e ganha força em suas nuances.

      Dirigido por Jeff Nichols, diretor do premiado em Cannes O Abrigo, o filme faz diversos paralelos entre seus personagens. O mais evidente são os relacionamentos de três casais, diretamente ligados a Ellis (Tye Sheridan): seus pais, o próprio garoto com sua primeira "namorada" e o romance entre Mud (Matthew McConaughey) e Juniper (Reese Witherspoon), no qual o roteiro é centrado. Existe diferença no amor entre dois pais de família, dois adolescentes e dois personagens "errantes"?

      Sempre pela ótica de Ellis, Amor Bandido provoca questões em torno desse tema, enquanto acompanha a aventura dos garotos para ajudar Mud em sua busca. Tal jornada é envolvida por certa ingenuidade do protagonista, que é constantemente quebrada pelos outros personagens. Por que ele ajuda Mud, sabendo que ele é um criminoso, sabendo que a polícia está à sua procura? Por que ele se preocupa com o romance de um desconhecido quando o casamento de seus pais está em crise?

      O roteiro de Nichols constrói personagens densos, na medida em que sutilmente desconfiamos de todos. Juniper, Mud e o velho do outro lado do rio são dúbios, ao mesmo tempo misteriosos e tão confortantes. E o próprio Ellis também aparenta não estar sendo sincero, pelo menos consigo mesmo. Seu relacionamento com a garota é fantasioso, uma fixação superficial, enquanto os verdadeiros laços que cria é com Mud. Será que os amores dos outros personagens também são superficiais? Se há dúvidas de que eles são o que aparentam ser, o filme questiona se o amor também não é o que aparenta.

      E mais, até que ponto o amor justifica atos?

      Em Amor Bandido, esse sentimento se manifesta de maneira diversas. Na vingança, na solidão, na esperança, na ingenuidade, na superficialidade, na amizade, na família, no casamento, numa relação conturbada ou numa que só existe na cabeça de um dos envolvidos. De um lado do rio, o amor é uma lembrança, personificada em um velho solitário; de outro, é a confusão e a esperança da juventude. E numa ilha não muito longe dali, resgatar um velho amor é uma forma de recomeçar (ou apenas manter-se no mesmo lugar, enquanto tudo muda?).  Essas diversas camadas presentes nos personagens e nas situações tornam a obra rica em nuances, combinação perfeita para um drama bastante envolvente.


      segunda-feira, 23 de julho de 2012

      O Espetacular Homem-Aranha


      Apenas dez anos após a estreia de Homem Aranha (2002), a Sony Pictures apresenta uma obra questionável. Enquanto o primeiro filme ainda segue forte no imaginário das pessoas, resolveram apresentar o Aranha de novo para o público. Faz sentido? Pouco. Entretanto, O Espetacular Homem Aranha é o melhor da franquia - mesmo que a sensação de "eu já vi esse filme" seja uma inevitável constante.

      Sai Sam Raimi e entra Marc Webb, reconhecido mundialmente por 500 dias com ela, comédia romântica jovem e fofa que chamou a atenção do estúdio. Tirando a falta de experiência com filmes de ação, Webb pareceu a pessoa certa para esse reboot, para trazer algo mais novo e refinado para um projeto que poderia dar muito, muito errado: o jovem Peter Parker (Andrew Garfield), nerd socialmente excluído e vítima de bullying escolar, mora com seus tios e vive uma vida normal até ser picado por uma aranha e se tornar um super heroi. Para reiniciar a franquia, era necessário (será que era?) mostrar tudo isso de novo.

      E o longa de Webb realmente repete tudo - com várias mudanças, claro, e com muita paciência - até decolar sozinho numa trama muito diferente do primeiro da franquia anterior. Sai Mary Jane (Kirsten Dunst) e entra Gwen Stacy (Emma Stone), que só apareceu no terceiro filme na pele de Brice Dallas Howard (Histórias Cruzadas, em que contracenou com Stone). O vilão também mudou e agora a trama é mais envolvida com o íntimo de Peter, relacionada com o passado de seus pais.

      O diretor sabe muito bem conduzir os atores e a trama, que apesar de meio batida, continua divertida e envolvente. Como já era de se esperar, o ponto alto agora não são mais as cenas de ação (não que elas sejam ruins, pelo contrário), mas sim os diálogos e a química entre os personagens. Ponto para o roteiro, simples e eficiente, que dá um charme a mais para o filme e se torna seu grande diferencial.

      Enfim, O Espetacular Homem-Aranha é um ótimo recomeço, que supera seu "original". Mas fica o protesto de ter sido produzido praticamente o mesmo filme que em 2002. Se a falta de criatividade acabar para o próximo longa do aracnídeo e Marc Webb continuar no comando, com certeza teremos uma nova e excelente franquia por vir.    

      terça-feira, 26 de junho de 2012

      Branca de Neve e o Caçador

                
      Os clássicos infantis, ou pelo menos grande parte deles, não eram originalmente histórias para crianças e, ao longo dos anos, receberam diferentes versões, de acordo com a cultura de cada povo que as contava. Muitos desses contos tem origem nas classes camponesas de muito séculos atrás e foram objetos de estudo do historiador Robert Darnton, autor de O Grande Massacre de Gatos, livro que reúne estudos sobre esse tema. Branca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman) não é o primeiro filme hollywoodiano a reinventar um clássico infantil - ano passado tivemos Amanda Seyfried em A Garota da Capa Vermelha - e provavelmente não será o último, já que ele já tem uma continuação planejada. Será que a moda pegou?

      Nessa nova versão de Branca de Neve e os Setes Anões, um rei resgata numa batalha uma prisioneira do exército inimigo, interpretada pela bela Charlize Theron (Jovens Adultos). Eles rapidamente se casam e ela não perde tempo para matá-lo e dominar seu reino trazendo as trevas para ele. Assim, ela se torna a Rainha Má e a bela Branca de Neve, cujo papel é  de Kristen Stewart (Na Estrada, Corações Perdidos), fica órfã. Quando a personagem de Charlize se olha no espelho e descobre necessitar de Branca para manter sua beleza para sempre, a adolescente aproveita para fugir. A Rainha Má mandará então um caçador viúvo (Chris Hermsworth) para trazê-la de volta ao reino.

      Não foi dessa vez que um conto infantil ganhou sua versão digna das plateias adultas ou de suas versões originais. Se A Garota da Capa Vermelha era claramente um filme teen, com triangulo amoroso meio bobo (estilo Crepúsculo) mas interessante e uma trama de mistério apropriada, a nova versão de Branca de Neve continua moralista e infantil como a animação da Disney, embora o clima de guerra, obsessão e traição se instale. Ficou mais violento, mais divertido, mas a essência permanece.

      Falta ousadia em Branca de Neve e o Caçador. Às vezes ele faz um bom uso de alguns pontos da versão mais conhecida, mas o filme é previsível e cheio de clichês. É uma versão Senhor dos Anéis do conto: parece uma mistura de Robin Wood com Harry Potter (alias, muita coisa lembra essa série nesse longa). É divertido, mas nada surpreendente. Bom mesmo são as atuações: Theron está diva como a Rainha Má e Kristen mais uma vez se destaca. A fotografia do filme e as empolgantes cenas de ação também resultam positivamente.

      Em suma, falta um diretor com menos vista para os lucros e mais vontade de inovar para fazer um filme realmente novo baseado num conto. O melhor de Branca de Neve e o Caçador são as duas atrizes e a fotografia - se o filme tivesse mais criatividade valeria bem mais a pena. Dica para a música Breath of Life, da banda Florence and the Machine, logo no início dos créditos finais.

      terça-feira, 10 de janeiro de 2012

      Cavalo de Guerra

         
      As relações de pessoas com animais são apenas um tema de Cavalo de Guerra (War Horse), novo filme de Steven Spielberg. O diretor responsável pelos quatro filmes do Indiana Jones, entre outros clássicos como E.T. e A Cor Púrpura, retorna a mais um filme de guerra. Depois da II em Resgate do Soldado Ryan, agora é a I Guerra que é abordada, com o maior perfeccionismo.

      A trama é baseada no livro infantil de Michael Morpurgo, que chamou atenção de Spielberg quando foi encenado no teatro em Londres, com marionetes dos cavalos em tamanho natural, movimentadas por homens visíveis à platéia. Para ser mais realista, sem deixar de ser emocionante, foram usados cavalos de verdade (exceto em algumas cenas perigosas para eles). No filme, o cavalo Joey é criado por um menino cuja família encontra-se com preocupações financeiras, que são solucionadas com a venda do animal. Esse é enviado à guerra e tentará sobreviver em meio às desastrosas batalhas que marcaram o choque de imperialismos que deu fim à Belle Époque.

      Acompanhamos o cavalo assumindo como personagem principal do filme. Suas emoções, seus desafios e suas relações são percorridas como se ele fosse um humano. De fato, salvo alguns coadjuvantes, torcemos pelo cavalo e não pela nossa própria espécie ao decorrer dos fatos. Isso porque Spielberg ambienta a trama na pior obra da humanidade (até então) e expõe o horror dos conflitos, desde um ataque surpresa trágico até os momentos mais tensos nas trincheiras. Em meio a tudo isso, vemos, pela maneira como o cavalo é tratado por alguns, um traço de humanidade que os homens parecem perder nas batalhas.

      Anos de experiência dão ao diretor controle total sobre a longa trama e sob os espectadores. Mesmo no começo do filme, onde muitos diretores costumam se arrastar, o tempo passa rápido, até demais. É uma prova de que ele sabe fisgar o público. A segunda é o resultado final: belo, emocionante e terno. Assim, o cavalo é uma metáfora para o que há de melhor em nós e a guerra para o que há de pior. Mas os significados da obra não se limitam aí: o amor, a coragem, a perseverança, a família, tanto nos humanos quanto no animal são um feixe de esperança em meio ao caos, deixando uma bela mensagem.