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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Perdido em Marte


Por Gabriel Fabri

Nos últimos anos, a ficção científica ganhou força no cinema com os lançamentos de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e Interestelar, de Christopher Nolan. Outro diretor de renome do cinema norte-americano, Ridley Scott (Alien, Prometheus) assume agora uma nova aventura no espaço: o longa-metragem Perdido em Marte, baseado no livro de mesmo nome de Andy Weir.


Embora guarde muitas semelhanças com os outros dois filmes (o clímax, por exemplo, lembra uma cena de Interestelar), a obra de Scott se distingue pelo humor afiado, que mantém o clima do filme sempre "alto astral". Não há grandes momentos de tristeza, desespero, choro, ou tudo o que uma pessoa normal faria se estivesse sido abandonada sozinha em um planeta desconhecido. Intercalando a tensão na terra para resgatar o astronauta Mark Watney (Matt Damon) de Marte com as tentativas do bem-humorado personagem de sobreviver, o filme equilibra tensão e humor. O entretenimento é garantido.

Na trama, Mark é deixado pela sua equipe em Marte após uma tempestade e dado como morto. Entretanto, ele consegue sobreviver. Ciente de que levaria quatro anos para a NASA enviar uma nova missão para o planeta, e sem poder se comunicar com a Terra, o personagem faz o que pode para sobreviver com os suprimentos que restaram na unidade. Mas Mark não é um astronauta comum: sua especialidade é biologia e ele consegue dar um jeito de cultivar batatas em uma sala, que fez de estufa. Um dia, sua movimentação é percebida na NASA por imagens de satélites, e começa na Terra uma agitação para pensar uma maneira de resgatá-lo de lá, vivo. Completam o elenco Jessica Chastain (Interestelar) e Michael Peña (Homem-Formiga). 

Perdido em Marte é um filme divertido, sim, mas despretensioso. A intenção aqui é apenas a diversão, o que não é nenhum problema, pois Scott faz isso muito bem. A empatia com o personagem principal é instantânea, sendo ele o extremo oposto do personagem de Damon em Interestelar - é brincalhão e, frente à certeza de que vai morrer em breve, planta batatas e escuta Donna Summer (à contragosto, porque era a música que tinha na estação). Impossível não torcer para ele ser resgatado, ou vibrar a cada contratempo superado.

Por ser tão despretensioso, fica a sensação de que faltou algo em Perdido em Marte. Como alguém consegue passar meses sozinho em Marte mantendo sempre esse alto astral dos personagens de Os Vingadores? Há uma tentativa meio forçada aqui do filme de ser descolado demais. 

domingo, 6 de julho de 2014

O Teorema Zero


Por Gabriel Fabri

A cena inicial de "O Teorema Zero", novo filme dirigido por Terry Gilliam ("Brazil" e "12 Macacos"), revela o local onde se concentra a maior parte da ação da narrativa, a casa do protagonista, Qohen Leth (Christoph Waltz, ganhador do Oscar por "Bastardos Inglórios" e "Django Livre"). O personagem vive em uma Igreja abandonada, um lugar escuro, não fosse pela luz das velas e a que entra pelos vitrais. Estabelece-se o contraponto com o mundo colorido fora da casa (colorido em especial pela overdose de propaganda, que literalmente persegue os pedestres), e está apresentado, logo nesse início da projeção, sobre o que essa distopia futurista tem a dizer: o risco da perda da fé.


Qohen é um homem simples e solitário, apenas uma engrenagem entre muitas na Mancom, uma corporação onipresente não só em sua sociedade, mas em sua vida como um todo. O personagem e o papel dessa empresa guardam profundas semelhanças com a situação recentemente apresentada em "Uma Aventura Lego". Entretanto, ao contrário do herói alienado da animação, Qohen tem a consciência de que sua vida é miserável e desprovida de sentido. Tudo gira em torno de seu trabalho esquisito e mecânico, que mais parece uma atualização do trabalho operário de "Tempos Modernos": saem as fábricas, entram os computadores.

O personagem deseja trabalhar em casa, na esperança de receber uma misteriosa ligação. Assim, lhe é designado a missão de provar o tal Teorema Zero do título, onde "zero tem que ser igual a 100%", como o computador repete a cada vez que Qohen falha em provar o que já sabemos ser uma missão praticamente impossível. Uma missão sem sentido, logo fica claro. Por que e para quem?

O filme de Gilliam não falha ao construir essa atmosfera futurística pessimista, com o cínico uso de cores vibrantes para um mundo sem vida. As obsessões, os medos, os anseios e as dificuldades de Qohen em se relacionar com as pessoas ao seu redor são muito bem trabalhadas pelo roteiro e ganham corpo na atuação competente de Christoph Waltz. Esse personagem, que não tem amigos, que prefere não ser tocado, que fala em primeira pessoa do plural, que deseja descobrir o sentido da vida (do universo e tudo mais - ele não sabe que é 42?), garante a sustentação filosófica do filme, levantando questões sobre as nossas próprias obsessões, medos e alienações. 

Todo esse pessimismo no filme é reforçado pelos diálogos, que não raramente fazem provocações explícitas para tirar o público da inércia. Por exemplo, quando Qohen aponta para o computador onde ele trabalha no Teorema Zero, que mais parece um videogame, e diz "a vida aconteceu comigo". Para refletir. 

Tudo isso é apresentado sem que o "O Teorema Zero" seja um filme sobrecarregado demais com o baixo astral. Pelo contrário, a obra possui momentos de humor e várias citações de cultura pop, como os filmes "Matrix" e "Star Wars", por exemplo. Quando a propaganda fala no "Occupy Mall Street", com descontos de até 100%, é impossível não esboçar um sorriso. Os personagens coadjuvantes, Baisley (Mélanie Thierry) e Bob (Lucas Hedges), além de levantarem mais questões sobre as relações interpessoais, ajudam o ritmo do filme com as doses de descontração. Matt Damon integra o elenco como o dono da corporação para a qual Qohen trabalha.

"O Teorema Zero" discute, com sucesso, a perda do sentido da vida no nosso cotidiano, nas relações pessoais e de trabalho, e a influência da tecnologia em tudo isso. A perda da fé não é a ausência de uma religião para seguir, e sim a falta de algo no qual acreditar. Maior ironia do que uma câmera no lugar da cabeça de Jesus, em um crucifixo pendurado na residência do protagonista, não há. Em uma vida onde se precisa da tecnologia para vencer os medos, onde o computador é o único contato com a natureza e com o corpo humano, onde as experiências mais humanas são virtuais, não parece haver por quê sentir alegria. E a distopia é justamente não saber como preencher esse vazio, como viver em um mundo tão oco, sendo tão oco.   
  

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Compramos um Zoológico

 
Todo mundo que já perdeu alguém importante sabe como pode ser difícil superar a morte de um querido. Alguns passam pelo drama com mais facilidade, outros não, mas para todos é sempre complicado. Numa tentativa de seguir em frente, o jornalista britânico Benjamin Mee mudou da cidade para o campo comprando um zoológico. A "aventura", como é chamada no filme sua jornada, deu origem ao livro Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo) e à sua adaptação homônima.

Matt Damon (Invictus, trilogia Bourne) vive o jornalista, pai de uma menina de sete anos e um perturbado menino pré-adolescente. Seis meses após o morte de sua esposa, seu emprego e sua relação com o filho vão de mal a pior e ele não consegue superar o vazio em sua, deixado pela falecida. Ao tentar mudar de ares, acaba comprando um zoológico e logo percebe que administrá-lo será um grande desafio. Entretanto, ele contará com a ajuda dos empregados da fazenda, que incluem Kelly Foster, a personagem de Scarlett Johansson (Vicky Cristina Barcelona).

O filme vem de encontro com a situação do diretor, Cameron Crowe (Jerry Maguire, Quase Famosos). Ele estava afastado das câmeras desde que dirigiu Tudo Acontece em Elizabethtown, em 2005, fracasso de público e crítica. Depois de sua própria jornada de reencontro consigo mesmo, retorna a dirigir justamente uma obra alto-astral sobre superações e recomeços, sobre reinventar-se. E não falha.
   
Compramos um Zoológico é uma aventura repleta de boas intenções. A principal é, claro, incentivar a esperança da platéia. Crowe transporta para às telas os feitos de Benjamin, carregadas ora de emoção, ora de drama, dos mais simples: o cotidiano transtornado do jornalista e sua família. A doçura e ingenuidade da menina encanta e os problemas do outro filho preocupam. A relação dos três é complicada ainda mais com as dificuldades do zoológico, mas juntos eles devem ter seus vinte segundos de coragem. Damon conduz o filme com seu personagem e é nas cenas de maior drama que percebemos que ele não é um ator comum e sim um dos melhores de Hollywood.

A simplicidade do filme, aliada aos animais, aos romancezinhos, ao ambiente bucólico é o que faz a aventura ser tão grandiosa. Não chega a ser tão profundo, emocionante e motivador como em Um Novo Despertar, em que o personagem de  Mel Gibson tenta se livrar de uma profunda depressão com a ajuda de um fantoche de castor, assumindo uma segunda personalidade, mas continua valendo. Aqui Matt Damon tem um zoológico e uma nova família, os trabalhadores de lá, para seguir em frente.