Mostrando postagens com marcador Documentário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Documentário. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Últimas Conversas


Por Gabriel Fabri

"A gente está fazendo um filme aqui que deve dar errado", afirma Eduardo Coutinho, com bom humor, à primeira jovem que senta diante de sua câmera em "Últimas Conversas". O longa-metragem, dirigido por Coutinho e finalizado por João Moreira Salles após a trágica morte do documentarista em 2014, retrata histórias de jovens de uma escola pública de ensino médio, no Rio de Janeiro. 


Em uma rápida introdução, o falecido cineasta de "Cabra Marcado Para Morrer" comenta o próprio filme, dizendo não estar mais afim de realizá-lo. Ele preferia entrevistar crianças. Mas, de fato, seguiu com a ideia de conversar com adolescentes, para que os jovens desabafassem sobre suas vidas. 

O resultado é um rico documentário, envolvente, emocionante e muito triste. De frente para as câmeras, os personagens se abrem, revelando as suas cicatrizes mais pesadas. O drama é quebrado, ou incentivado, pelas pequenas e marcantes intervenções de Coutinho, que estimula os jovens a falarem, com frases de efeito engraçadas ("você tinha razão que adolescente é debil mental"), ou provocações que pegam de surpresa os entrevistados. 

Com muita tristeza, os jovens revelam casos de abuso, racismo, bullying e de abandono dos pais - a maioria dos entrevistados não tem contato com o pai biológico, por exemplo. Também contam um pouco de seus sonhos, que muito dizem sobre eles. "Últimas Conversas" é um retrato contundente da juventude brasileira, ou pelo menos, de uma parcela dela, mais humilde. 

O contraste entre as personalidades dos personagens, tão diferentes em alguns pontos, tão semelhantes em outros, torna a obra bastante interessante, de modo que os depoimentos não cansem. Só mais ao final, quando os jovens começam a ficar menos tempo diante das câmeras, e as histórias parecem começar a se repetir, que o filme perde um pouco de força. Mas a "Últimas Conversas" é reservado um grande final, com a única personagem feliz do filme. E é claro que se trata de uma criança.  Para pensar: curiosamente, a única de classe média alta entre os entrevistados. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Samba


Por Avana Salles


O Samba”. O nome do filme, por si só, já é auto-explicativo, mas seu diferencial está no olhar do diretor sobre o assunto, o francês Georges Gachot. Elemento tão presente na nossa cultura popular, esse estilo musical ganha nova percepção sob olhar estrangeiro. Gachot consegue transformar um tema já saturado em algo novo, produzindo um documentário alegre e rico em história.


E talvez seja essa a essência do filme, o posicionamento do estrangeiro sobre algo genuinamente brasileiro, uma óptica além do corriqueiro. A visão de quem está de fora, de quem não está acostumado com as situações e, por isso mesmo, consegue converter em novidade o que já está fielmente inserido na nossa brasilidade. 

Para nortear o enredo, Martinho da Vila guia o espectador pelas vielas, bares e ensaios de bateria na Vila Isabel - tradicional bairro da zona norte carioca, conhecido por ser um dos berços do samba no Brasil. Ao destacar a comunidade, o diretor mostra que o samba, além de um gênero musical, também é um estilo de vida e faz parte do dia a dia de seus moradores. 

Nesse aspecto, Gachot transparece um posicionamento mais sensível, o diretor valoriza mais o envolvimento das pessoas com a escola do que o próprio carnaval. Cenas do desfile e a desenvoltura da Vila na avenida são descartadas, dando espaço para os personagens da comunidade que ganham voz para falar e demonstrar sua integração com a escola. As cenas iniciais fazem jus ao trecho da melodia Renascer das Cinzas, de Martinho da Vila, “mostrando pro povo que o berço do samba é em Vila Isabel”.

O que também chama a atenção no documentário é a preocupação da produção em não cair em um denominador comum. Além de demonstrar as origens do samba, a obra preocupa-se também com mais dois fatores igualmente importantes: as transformações históricas e culturais do estilo musical e a análise da fonte de inspirações para letras, enredos e melodias.

Para exemplificar as mudanças sociais, nas quais demonstram a aceitação do gênero, tradicionalmente popular, para as classes mais altas – o diretor escolhe cenas de consertos de Martinho pelo Brasil, acompanhado de orquestras. Além da passagem do compositor por Paris, onde o músico grava uma canção em conjunto com uma cantora francesa. Para complementar a análise desse processo sócio-cultural, o documentário conta com depoimentos de personalidades como Nana Mouskouri, Mart’nália, Ney Matogrosso, Leci Brandão, Zeca Baleiro e Beth Carvalho.

Uma belíssima sintonia de fotografia com trilha sonora. Impossível não batucar os pés no chão, involuntariamente, por alguns instantes.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Que Estranho Chamar-se Federico!



Por Gabriel Fabri

Federico Fellini, Ettore Scola e Marcello Mastroianni, três figuras importantíssimas do cinema italiano, observam o mar e o céu azul escuro. A conversa dos três é interrompida pela mãe de Mastroianni, que aparece do nada para dar uma bronca em Scola, o diretor de "Que Estranho Chamar-se Federico!". Ela reclama que, enquanto Fellini transformou seu filho em um galã, o outro só deu papéis que o deixavam mais feio. Impossível não rir com a contraposição de imagens do ator nos filmes de um e de outro. 



São momentos assim que tornam especial o novo filme de Scola (mais conhecido aqui por "O Baile"). A obra conta a história de Federico Fellini (responsável por clássicos como "A Doce Vida" e "Oito e Meio"), a partir da visão do diretor, que o conheceu. Por meio de um narrador, que aparece em cena, traços das personalidades e aspectos biográficos dos dois cineastas são intercalados. Esse "documentário encenado" reúne cenas dos filmes de ambos, fotos e, o principal, ilustrações - um ofício que marca o início da trajetória profissional dos dois, em um jornal de sátira política.

Longe de ser um documentário tradicional, o filme é uma bela homenagem a Fellini, que é chamado por Scola de "o maestro". A personalidade do diretor de "Noites de Cabiria" ganha um retrato bastante interessante com os recursos apresentados. Enquanto acompanhamos a trajetória de Fellini de maneira mais ou menos linear, vemos, por exemplo o retrato de uma de suas manias: dar carona a desconhecidos - em cenas que o apresenta bem mais velho ao lado de Scola, caracterização que é bem discreta pela luz nessas cenas, que foca no banco de passageiros. Uma trilha sonora que remete a circo embala todo o filme, dando um tom festivo à obra. 

Quem assistir ao filme não vai ver depoimentos da família de Fellini, ou de especialistas explicando a importância de sua obra para o cinema italiano ou mundial. É um filme de um desenhista para outro; de um cineasta para outro; de um amigo para outro; de Scola para Fellini. Mas uma homenagem nada sentimental, ou convencional. Prova disso é o surpreendente final, que faz um delicioso giro pela obra de Fellini, como se "Que Estranho Chamar-se Federico!" fosse, na verdade, um estranho e divertido carrossel.

domingo, 22 de dezembro de 2013

São Silvestre




Por Gabriel Fabri

Sempre no último dia do ano, a cidade de São Paulo é palco da Corrida de São Silvestre, transmitida ao vivo pela televisão. A cineasta Lina Chaime busca agora um novo ângulo sobre o evento, um registro além da linguagem televisiva com a qual o público está acostumado. Em São Silvestre, o esporte e a cidade são representados com uma abordagem estética diferente, que promove uma imersão inusitada na corrida.

O filme não segue uma história propriamente dita. Começa com o treino para a corrida, segue com uma visão de São Paulo e termina com o evento, registrado em 2011, ano em que a chuva também foi um obstáculo. Somente na hora da competição vemos o rosto do único ator do filme, Fernando Alves Pinto.

São Silvestre apresenta um excelente trabalho de som e direção, explorando diversos caminhos para tornar a experiência do espectador mais próxima a do atleta. A tentativa de simular a sensação de correr é bem construída, misturando câmera subjetiva, closes no corredor e o som incessante dos passos. As imagens de São Paulo são particularmente interessantes, fazendo do longa uma experiência não só sensorial, mas turística. Um verdadeiro contraponto à distância com qual a corrida é exibida na televisão.

Com técnica impecável, o documentário vale como uma experiência diferente. Todavia, mesmo com a sensação de estar em frente a um filme único, a obra pode se tornar uma experiência enfadonha, apesar de desafiadora. A primeira corrida, o treino, já valia o filme. Mas a segunda, fazendo todo o trajeto da maratona, mesmo com o advento da chuva, não empolga mais, e nem o exagero na trilha sonora, composta por música clássica, aproxima o espectador da emoção de correr. Apenas da vertigem e, infelizmente, do cansaço. De qualquer forma, filmes que pretendem ser fora do comum, ou desconfortáveis, sempre merecem ser vistos, e é o caso de São Silvestre.

Curta a página do blog no Facebook: https://www.facebook.com/PopWithPopcorn 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Laura


Por Gabriel Fabri


Um bom jornalista sabe que, na singularidade de cada ser humano, é possível encontrar uma história incrível. Todos têm algo de curioso, engraçado ou interessante para contar - por isso que, mais do que saber apurar e questionar, muitos vão apontar para a capacidade de ouvir o outro como um dos requisitos mais fundamentais da profissão. Essa atitude é indispensável ao se falar de uma boa reportagem, mas também de uma boa discussão, por exemplo, em qualquer formato que ela seja, e isso inclui o cinema. O documentário Laura, de Felipe Gamarano Barbosa, encontra em uma pessoa comum uma personagem intrigante, e acerta ao deixá-la falar.

Na trama, acompanhamos a vida de uma brasileira-portenha, aspirante a atriz, que vive em Nova York em um apartamento pequeno em um hotel, onde é vizinha de uma peculiar prostituta. Laura frequenta festas da alta sociedade, como a première do filme Duplicidade (com Clive Owen e Julia Roberts), e está sendo acompanhada por dois homens que estão fazendo o documentário. A força da personalidade de Laura, em contraponto à fragilidade do seu estilo de vida, são o tema desse documentário.

Tudo em Laura é peculiar, que beira o exótico: seu estilo debochado, sua autoconfiança exagerada, seu sotaque que mistura o espanhol de Buenos Aires com o português brasileiro e o inglês, sua obsessão pela fama. A personalidade da personagem carrega nas costas o filme, dotado de situações e diálogos cômicos. Nada melhor para descrevê-la do que com uma das situações mais hilárias do documentário: Laura tem Clive Owen e Julia Roberts no filme sobre ela, mas precisa roubar o cartaz da noite de lançamento do filme para se satisfazer.

A protagonista, todavia, começa a ficar incomodada com as filmagens e começa a questionar as escolhas do diretor. Por que mostrá-la em um lugar que ela não frequenta, por exemplo? Por que simular que ela está entrando em quarto onde não é possível entrar? A personagem se recusa a ser uma personagem do filme, apenas. Ela quer ativamente fazê-lo, o que a montagem final faz questão de mostrar.

Diversas imagens de Laura são construídas: ela é a mulher que se mantém forte e autêntica apesar das dificuldades? Ela é o retrato dos brasileiros que vão tentar a vida profissional nos EUA e fracassam? Ela é uma estrela ou uma pobre coitada? Uma personagem multifacetada, enfim. 

O longa mostra quem é Laura hoje, mas não se atreve a entrar demais na subjetividade da personagem. Ao fim do filme, pouco se sabe sobre a trajetória pessoal e profissional da senhora, além do que a própria - e alguns poucos entrevistados - contaram. O filme passa longe do formato de uma "biografia", preferindo focar na rotina da personagem, que entretém o espectador facilmente durante a maior parte do filme. Assim, assemelha-se muito com Estamira, de Marcos Prado. Nele, também há uma personalidade forte e cativante, louca da sua maneira, expondo as suas rotinas e suas convicções. Há um pouco de Estamira em Laura? Olhando bem, as duas são apresentadas apenas pelo primeiro nome, como se não representassem apenas a si mesmos, mas uma parcela maior da sociedade. 



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Por Que Você Partiu?


Por Gabriel Fabri

O diretor estreante Eric Belhassen tem formação em genética. Para descobrir porque saiu da França para trabalhar no Brasil, ele realizou o documentário Por Que Você Partiu?, que mergulha no cotidiano e na intimidade de seis chefs de cozinha que também vieram fazer carreira aqui - e se tornaram alguns dos mais bem sucedidos chefs franceses no país. A relação entre um homem formado em genética com os cozinheiros pode parecer aleatória (a ideia surgiu de uma conversa entre amigos), mas, embora mostre todo o refinamento e o trabalho dos cozinheiros, o longa não é sobre gastronomia. É sobre algo inerente a todos os seres humanos, de qualquer cultura ou profissão: a família.

Nesse documentário, acompanhamos as rotinas de Alain Uzan, Emmanuel Bassoleil, Erick Jacquin, Fréderic Monnier, Laurent Suaudeau e Roland Villard e as entrevistas com os seus respectivos pais. Os seis chefs deixaram suas famílias e suas vidas na França por motivos distintos. O longa registra os depoimentos tentando investigar porque os homens foram se aventurar em um país desconhecido, como os parentes reagiram a essa atitude e por quais perspectivas os envolvidos enxergam o passado e o futuro desses profissionais.

O filme tem uma estrutura um tanto simples e um pouco monótona, sem um clímax definido, já que a força da obra está em seus depoimentos. Chamam atenção, à priori, momentos engraçados com os chefs, mostrando uma briga numa cozinha porque o molho ficou uma "merda", por exemplo, o que pode satisfazer as pessoas da área que buscam um filme sobre gastronomia. A profissão, porém, é apenas o plano de fundo do longa, e as comidas são um recurso para entreter e, como um dos próprios personagens brinca no filme, fazer uma propaganda dos chefs.

O interessante da obra, evidente no recorte do diretor, é a importância da família na vida desses seis personagens. Embora Erick Jacquin tenha declarado em coletiva que parou de falar com a mãe após ver a realização do filme, um dos fatores para ele virar cozinheiro foi o cheiro da comida dela. E Por Que Você Partiu? é recheado de questões familiares. Uns se davam muito bem com os pais antes de partir, outros não, mas o longa mostra que, ao se distanciar, os personagens acabaram se aproximando deles. São histórias de aproximação, um fortalecimento dos laços familiares, por meio do distanciamento.

Os seis personagens são renomados chefs da culinária francesa no Brasil, pessoas famosas e de prestígio - fatores que são irrelevantes para a trama. No fundo, o filme mostra que eles são pessoas comuns, antes de tudo. Poderiam ser quaisquer franceses que vivem no Brasil no lugar deles (por que todos na mesma profissão? Por que todos bem sucedidos?), pois o filme fala sobre relações familiares e sobre mudar para crescer, tanto interpessoalmente quanto intra.

Pratos tão sofisticados para questões tão simples, tão cotidianas, mas, ao mesmo tempo, complexas em seu interior. Faltou um "tempero" na direção, e talvez até na concepção do filme, todavia, ao que parece,  Belhassen encontrou a resposta que buscava para a sua pergunta. Ou, pelo menos, cada um do público encontrou a sua.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

No [36a Mostra]

       
Uma das maiores afrontas à democracia da história latino-americana, o golpe de estado no Chile que derrubou o governo do socialista Salvador Allende até hoje se reflete em consequências políticas e sociais na sociedade chilena. Talvez por isso uma frase repetida várias vezes ao decorrer do longa, algo similar a "esse vídeo está inserido no contexto social atual. O Chile olha para o futuro", parece uma referência ao próprio filme e ao presente em No, de Pablo Larraín, que abriu a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Para legitimar sua ditadura, sob pressão internacional, o general Augusto Pinochet convocou um plebiscito que daria, ou não, continuidade ao seu governo. Mesmo com a convicção generalizada de que o plebiscito já estivesse pré-definido, alimentado pelo medo da população, o publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) resolve aceitar a difícil missão de elaborar um programa eleitoral para o "Não", voto de oposição ao regime. Entretanto, o caminho que decide traçar não é o de expor a necessidade de combater os horrores da ditadura, e sim o de alimentar a esperança.

Baseado numa peça intitulada El Pebliscito, do escritor chileno Antonio Skármeta, o filme recebe um tom documental pela direção simples, que utilizou câmeras da época, e imagens reais do período. Engana-se quem espera uma obra sobre o governo do ditador: No se aproxima mais de um Obrigado por Fumar do que de um A História Oficial, por exemplo. O foco é a elaboração e a execução de uma campanha política, onde há uma rivalidade fortemente polarizada.

Num ano em que o ditador recebeu homenagens (que sofreram vários protestos), talvez seja muito importante mesmo mostrar que o Pinochet caiu pela vontade soberana do povo. Entretanto, não é só por isso que No é um filme interessante: as cenas das propagandas políticas para o paulistano que acaba de decidir uma eleição são bem semelhantes as que São Paulo viu em 2012. De um lado, o candidato que quer perpetuar seu poder apresenta-se como o competente, com apoio da mídia, também impondo certo medo do adversário, o "comunista". Do outro lado, o desconhecido, que traz esperança, que vem com alegria e promete mudança. Isso mostra o quanto o filme é atual, não só por causa da memória do ditador sendo constantemente relembrada (para o bem ou para o mal), mas também por mostrar o jogo de marketing eleitoral que continua até hoje.

O uso de câmeras antigas é um ponto alto do filme, mas as semelhanças e discussões que No pode trazer já valem o ingresso. Entretanto, não traz nada muito surpreendente - o resultado do plebiscito é conhecido por todos e as estratégias de marketing também, o que não anula como a obra é um bom ponto de partida para relembrar o passado e pensar o futuro.
           

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Elena [36ª Mostra]

          
Ao apresentar Elena numa sessão lotada de uma tarde de segunda feira, durante a 36ª Mostra Internacional de Cinema, a estreante Petra Costa dedicou o seu filme a uma amiga na plateia, a primeira pessoa a quem expressou seu desejo de realizá-lo. Não se pode negar que foi preciso muita coragem para tirar a ideia do papel - a obra não é uma realização comum. É uma imersão nos sentimentos da própria diretora, antes de tudo.

O documentário se consiste numa visita ao passado de Petra por meio da figura de sua irmã, Elena, que morreu em 1990, quando a diretora tinha apenas sete anos - suficientes para marcá-la para sempre. Elena queria ser atriz de cinema e, por essa razão, tentou ganhar a vida em Nova York, cidade onde viria a falecer. O filme reconstrói a trajetória da personagem da infância até a morte por meio da narração em off de Petra e do uso de vídeos caseiros e gravações, entre outros recursos estilísticos.
       
Longe de ser um arrematado de registros das duas irmãs, Elena une bem o material disponível e lida com a falta de usando cenas de uma recente viagem de Petra a Nova York, por onde ela perambula por lugares que a atriz certamente passou enquanto era viva, numa estratégia que resulta na união de Petra e Elena, também ressaltada na narração - a diretora considera que sua irmã vive dentro dela, e logo as duas se confundem na tela em alguns momentos. Essas imagens, muitas com o fundo borrado e somente a personagem nítida, oferecem uma beleza estética grande ao resultado final e funcionam como suporte da narração que conduz a história. Os registros de Elena começam quando ela tem treze anos e sua irmãzinha acaba de nascer, e quando não há nenhum, Petra supre a necessidade com sua "atuação".
         
O exito do documentário é emocionar a audiência não só com a história de Elena, mas com o amor que sua irmã transmite ao realizar essa nobre homenagem. Com recursos visuais interessantes, narração simples e metafórica e uma ótima montagem, Elena se torna um filme envolvente, que funciona como homenagem a uma personagem e uma pequena autobiografia de outra. 

Essa crítica foi republicada no site oficial do filme Elena: http://www.elenafilme.com/blog/elena-um-filme-envolvente/
          

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Katy Perry - Part of Me

          
        Quando foi anunciado que o maior fenômeno pop da atualidade, a norte-americana Katy Perry, lançaria um documentário sobre sua vida e sua carreira, todo mundo já podia imaginar como seria esse filme: vídeos de infância, cenas dos shows, depoimentos, bastidores sobre como chegar no topo era difícil e se manter também. Katy Perry - Part of Me não é diferente do esperado, entretanto é válido como um grande presente para os fãs - e uma experiência muito boa para quem quer conhecer um pedacinho da cantora.
         Katy era cantora gospel, despontou com o single nada comportado I Kissed a Girl, chamou a atenção de Madonna com a música UR So Gay (antes de Katy virar O fenômeno) e não tardou para seu segundo álbum igualar o recorde de Michael Jackson com cinco músicas em primeiro lugar no mais importante chart musical do mundo, o Hot 100 da Billboard. Essa é a história que todo mundo sabe - e Part of Me vai acrescentar mais alguns detalhes enquanto acompanha Katy durante a California Dreams Tour.
         Para qualquer katycat, qualquer oportunidade de conhecer mais do íntimo da cantora e ainda de sua história é válida. Por isso, Part of Me já era um filme que tinha tudo para dar certo. A montagem é funcional: trechos de várias apresentações são intercalados em ordem não-linear para dar o tom do documentário, que tenta dar conta da personalidade da Katy, dos desafios da turnê e de sua biografia. O resultado é positivo e resulta numa obra animada e interessante.
       Quem leu o texto sobre o show em São Paulo, publicado no Pop with Popcorn (não deixe de ler!), deve ter percebido o quanto um show de Katy Perry, sua simpatia e presença de palco causam num público apaixonado. A euforia dos shows, inclusive do de São Paulo (que, por sinal, é o clímax do filme), também está presente no longa. Em Part of Me, Perry se auto afirma como uma cantora de fãs muito calorosos, que se importa com e que responde a esse carisma. Agora o público daquele show do dia 25 de setembro sabe que Katy entrou com um sorriso falso no rosto, com o maior profissionalismo para conseguir alegrar seus fãs brasileiros, mas, com certeza, saiu de lá com uma alegria sincera num momento em que ser feliz parecia incabível para ela. 
        E, assim, pode-se dizer que Katy Perry - Part of Me cumpre seus três maiores objetivos. Mostra como Katy é fantástica e, ao mesmo tempo, presta uma homenagem aos fãs, que com certeza adoraram passar um tempinho com ela, com trechos dos shows em 3D e tudo. Por fim, ainda repete a mensagem da música Firework: há uma faísca em você - ignite the light and let it shine!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Pina

       
         A morte de Pina Bausch, uma das coreografas e dançarinas de maior prestígio internacional, em 2009, não abalou a produção do documentário Pina (homônimo, 2011). Apenas mudou os planos do diretor, amigo da coreografa, que se viu sem a principal peça do seu projeto, e acrescentou um caráter de maior importância à obra. Sempre de olho no cinema americano, Wim Wenders, cineasta consagrado do Novo Cinema Alemão, trouxe a tecnologia 3D para ser usada pela primeira vez num filme de arte e num documentário. Mais relevante que o uso inusitado desse recurso é a maneira que Wenders junta o que tem à disposição para fazer uma homenagem aos pés do grande trabalho de Bausch.
         O filme é uma viagem ao universo pessoal e profissional de Pina, por meio de suas coreografias, realizadas pelos seus alunos. Não espere uma construção linear sobre sua vida: a obra de Wenders é muito diferente de uma biografia. Em meio às apresentações de dança, intercalam-se depoimentos dos dançarinos que desnudam Bausch contando experiências pessoais suas com ela, fruto de convivência, e alguma ocasião em que ela lhes deu uma lição importante. Para isso, usa-se um recurso interessante: ao invés dos depoimentos serem filmados, o rosto de quem fala aparece e depois o aluno que falou se apresenta. Aliás, nada melhor do que quem dança as criações de Pina, e conviveu com ela por muito tempo, para atribuir-lhe reconhecimento além do visto nos palcos, a esse ícone. Se juntam à montagem cenas de arquivo, como num documentário comum, inclusive algumas de Pina dançando em Café Müller, que se intercalam com a gravação em 3D para o longa.
          Wenders já havia dirigido documentários antes, como o consagrado Buena Vista Social Clube e o simples Quarto 666, e também captado a leveza de movimentos, como o da trapezista em seu mais importante trabalho, Asas do Desejo. Em Pina, o diretor conseguiu juntar os dois e ir além: não se limitou em procurar material, realizar entrevistas e filmar algumas perfomances. Pelo contrário, deu novo uso à tecnologia tridimensional e transpôs a obra de Bausch de uma maneira incrível, que difere de qualquer filmagem de um espetáculo de dança. Toda a emoção, os movimentos que as coreografias envolvem, todo o sentimento da homenageada está presente de uma maneira bela, quase mágica. O 3D aproxima o espectador da dança e não a torna mais real, e sim surreal. O filme transcende a obra de Pina, elevando-a a um outro patamar quase hipnótico e a direção capta o dinamismo das performances com maestria.
          Por fim, longe de ser apenas um documentário, um filme de dança, um musical, uma homenagem, um depoimento ou um filme de arte comum, Pina é tudo isso com extrema qualidade. Tarefa difícil seria estragar a obra de Bausch com um longa ruim, mas fazer dele uma obra de arte não só pelas coreografias em si é para poucos. E a mensagem que fica não poderia ser outra: "dance, dance".
        

sábado, 11 de junho de 2011

Quebrando o Tabu

            Um documentário sobre a descriminalização do usuário de drogas e a legalização da maconha pode gerar muita polêmica. No entanto, esse não é o objetivo de 'Quebrando o Tabu', que mostra um ponto de vista diferente sobre o combate as drogas no intuito de gerar discussões sobre o assunto e provar que essa medida que parece extremamente estúpida para muitos faz sentido e pode ser o caminho certo a ser tomado.
            Tocando num assunto delicado como esse, o filme só conseguiu ser realizado por causa do apoio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos responsáveis pelo argumento do filme. FHC viajou o mundo todo com o diretor para a construção do documentário, ouvindo especialistas nos mais diversos tipos de cargos, desde Bill Clinton até pessoas que trabalham somente com coisas relacionadas ao assunto. Assim, o filme é composto por depoimentos dessas pessoas, principalmente do ex-presidente brasileiro, e tenta, a cada cena, mostrar os fatos que levam todas essas pessoas acreditar que descriminalizar (ou legalizar, para alguns) é a solução.
            O filme começa mostrando que 'nunca existiu um mundo sem drogas', que talvez seja o único argumento ruim do trabalho final, mas que sustenta todos os outros, já que é dito que não devemos tentar acabar com elas e sim amenizar os danos cada vez mais. Logo, é mostrado a história da Guerra Contra As Drogas e os fatos: o combate não está funcionando e só piorou as coisas, com aumento de consumo e o crime organizado, entre outros problemas. Que as coisas não estão dando certo, todo mundo sabe, mas o que fazer pra melhorar?
            Nesse caso, o filme serve como uma ponta de discussão para a resposta dessa pergunta, já que preocupa-se em mostrar os fatos, as explicações, o que tem que mudar e ser feito, mas como tudo isso deve ser realizado. Ao longo do documentário, vários argumentos sobre vários pontos do tema são apresentados, de forma muito amarrada e corriqueira. Isso é ótimo de um lado, pois mantém os espectadores intrigados e ainda não deixa brechas para as pessoas pensarem muito em contra-argumentos, já que os mais previsíveis são incrivelmente bem explicados logo em seguida de poderem surgir.
            Além do ex-presidente brasileiro, tem presença importantíssima o doutor Dráuzio Varela, que contribui muito para convencer o público de que a legalização e a descriminalização são o caminho certo a ser seguido. O autor Paulo Coelho também aparece entre quem é a favor. E contra mesmo, só o presidente que declarou Guerra As Drogas em 1970 e o George Bush falando sobre o assunto, o que serve também como recurso para convencer quem assiste, já que a credibilidade do americano está baixa no mundo todo.
           Em suma, o documentário se esforça com coragem para mostrar um ponto de vista super reprimido pela sociedade. Mas o que nem a pessoa mais conservadora pode negar é que o argumento deles faz muito sentido e pode ser uma saída interessante para o problema das drogas. Até mesmo quem é extremamente contra a legalização irá repensar seus conceitos e quem sabe, mudar de opinião, e que fique claro que em momento algum é feita apologia ou incentivo ao uso dessas substancias. Assim, o filme pode ser considerado um trabalho de sucesso e pode vir a ser marco importante na história das drogas na sociedade. Mas o maior problema de tudo o que dizem no filme é que a maioria é pura especulação e realmente, as mudanças seriam bem difícies de serem realizados. Entretanto, difícil não é impossível e o filme é o ponto de partida para o progresso desse assunto. Você sendo contra ou a favor, conhecer um ponto de vista nunca é perda de tempo, e o filme se torna essencial para ser visto e revisto.