Mostrando postagens com marcador Filme Político. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filme Político. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de março de 2015

118 Dias



Por Gabriel Fabri

Em 2009, após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad para a presidência do Irã, muitos jornalistas foram presos, em meio às manifestações que acusavam o governo de ter fraudado a disputa eleitoral. Entre eles, estavam o correspondente da Newsweek Maziar Bahari, que ficou refém da polícia iraniana por quase quatro meses. O filme "118 Dias" (Rosewater), dirigido por Jon Stewart, retrata o período em que o jornalista ficou preso, acusado de ser um espião.



De origem iraniana, Bahari tem na família um histórico de revolucionários: seu pai e sua irmã eram comunistas e chegaram a ser presos por regimes diferentes - o primeiro, antes mesmo da revolução de 1979. Logo, o jornalista é uma figura interessante como protagonista do filme, uma vez que sua própria história contextualiza vários episódios emblemáticos da história do Irã. Entretanto, esse é só um detalhe na trajetória do profissional que retorna ao país para entrevistar um dos líderes entre os apoiadores do governo fundamentalista de Ahmadinejad. O jornalista é interpretado por Gael García Bernal, de "No" e "Babel". 

O diretor Jon Stewart, apresentador do programa norte-americano de comédia The Daily Show, estreia aqui na direção de um longa-metragem. Sua experiência com programas de auditório, que satiriza os políticos norte-americanos, faz toda a diferença em "118 Dias": o filme é estranhamente engraçado. Não chega a ser uma comédia, entretanto a obra consegue, sem exagerar na dose, sair do lugar comum dos filmes que retratam interrogatórios e prisões políticas, usando o humor. No caso, o interrogador, que Bahari apelida de "Rosewater" ("água de rosas", em inglês), é o alvo da sátira de Stewart: a acusação absurda com a qual o jornalista foi detido, ajuda o personagem a ser sutilmente ridicularizado. É uma crítica bastante direta ao governo do Irã, e funciona.

Antes de retratar a prisão, o filme faz uma boa contextualização da situação política do Irã naquele momento, além de fazer uma boa apresentação do personagem. Isso em um ritmo bastante envolvente, em uma edição que inclui cenas reais da eleição e dos protestos. Essa parte é interessante também, pois humaniza o povo iraniano, sem estigmatizá-los todos como fundamentalistas. Afinal, sai da boca do próprio protagonista: "os EUA e o Irã tem muito mais em comum do que de diferente". Mais um ponto positivo para "118 Dias". 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Foxfire - Confissões de Uma Gangue de Garotas


Por Gabriel Fabri

Recentemente, Sofia Coppola levou aos cinemas em Bling Ring a história real de uma "gangue", composta majoritariamente por mulheres, que desafiavam a ordem por certos ideais - a fama e o poder, como uma forma de expressão, legitimação ou até emancipação em seus círculos sociais, por meio desses valores. Embora a maioria das motivações pareçam opostas às que buscam as meninas de Foxfire - Confissões de Uma Gangue de Garotas, segunda adaptação do romance de 1993 escrito por Joyce Carol Oates, elas possuem esse pequeno ponto em comum: o da libertação. Se em Bling Ring as meninas roubavam artigos de luxo que poderiam comprar, agredindo e exaltando o capitalismo ao mesmo tempo, aqui elas irão se isolar e montar uma espécie de culto socialista. É nessa "seita" na qual o longa de Laurent Cantet (Entre os Muros da Escola) irá se debruçar. 

O filme conta a história da gangue Foxfire, desde a sua formação. Ela parte de um grupo de amigas indignadas com a repressão da mulher na sociedade americana dos anos 1950, seja em suas próprias casas ou no colégio, onde uma delas é constantemente humilhada por um professor até se juntar ao grupo - e, junto com as novas colegas, tem sua vingança posta em prática. A Foxfire vai conquistando novas adeptas aos seus ideias políticos, aos poucos transformados em um estilo de vida.

São várias as questões que envolvem a obra de Cantet e que são colocadas para o espectador. O preconceito contras as mulheres e o caráter machista da sociedade são logo postos em xeque, e destruídos pela determinação e personalidade das personagens femininas, que formam um grupo bastante heterogêneo, rico em detalhes e em divergências, unidas por essa vontade de se libertar dessas opressões sociais. Depois da crítica ao capitalismo e à obsessão pelo dinheiro, o filme volta os olhos para as contradições internas do grupo, que variam sobre o modo de arrecadação monetária, o modo de atuação política, a maneira de se relacionar com os homens e até a admissão de novos membros, escancarando, em determinado episódio, o preconceito racial de uma maioria entre as integrantes em relação à uma jovem negra - a hipocrisia de lutar contra um preconceito, o preconceito dos outros, sem olhar para o próprio.

O livro, ambientado no auge do Macarthismo nos EUA e lançado apenas dois anos após o fim da Guerra Fria, trata a experiência das meninas como uma clara metáfora de um modelo socialista de organização social. Nem era tão necessária a associação explícita que o filme faz da personagem principal, Legs (Raven Adamson) com Fidel Castro, já no desfecho do longa. No discurso político das meninas, levado ao extremo quando a líder pixa em uma loja de vestidos de luxo a mensagem "dinheiro = morte"; ou na maneira como elas se organizam numa casa no campo e passam a viver sob um sistema de comunhão de bens; essa metáfora fica clara e críticas duras são feitas.

Logo no início, o caráter messiânico da personagem de Legs é evidente. Ela se torna o Deus das meninas - dita as regras, inventa um juramento e um ritual de entrada na Foxfire. Embora seja questionada em um certo momento - na questão envolvendo a personagem negra - , ela é o símbolo de adoração absoluta das outras personagens. O espectador que interprete como queira: uma crítica a pessoas oportunistas, à mistura de religião com política, o caráter personalistas de lideranças (como Castro, talvez?), a necessidade social de se organizar em torno de um líder.

O longa de Cantet passa longe de uma visão maniqueísta, ou panfletária, das questões políticas colocadas. Joga problemas para os dois lados e não deixa claro qual escolhe, pois nenhuma parece ser boa. Embora a experiência socialista das meninas seja passível de milhares de críticas, presentes na obra, elas são a única voz do filme a serem exaltadas. 

Todavia, a sensação no fim da experiência cinematográfica proposta por Foxfire é, a priori, de certo repúdio a tudo o que foi visto. Afinal, para se libertar de um sistema opressor, as meninas criaram um igualmente cerceador. Elas se libertam de uma sociedade machista, mas, em contrapartida, são proibidas, por exemplo, de se relacionar com homens - a menos que seja necessário roubá-los. O "socialismo" aparece como algo repressor e utópico. Mas, afinal, será que esse modelo é apenas uma chama, como o símbolo da gangue? Será que a chama da Foxfire realmente se apaga? O socialismo das meninas é um ensaio para o que viria a se tornar Cuba, no final dos anos 50? E Cuba se tornou essa experiência fracassada?

Assistir a Foxfire - Confissões de Uma Gangue de Garotas pode ser uma experiência muito rica para refletir não só sobre esses dois modelos de governo que continuam em pauta até hoje, mas também sobre preconceitos e problemas também presentes na atualidade. Um filme simples, um tanto longo, mas que pode gerar muita discussão e reflexão. E é disso que o melhor cinema é feito.  

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Juan Dos Mortos


O que uma comédia cubana sobre um apocalipse zumbi tem de diferente com relação a tantos filmes de temática semelhante, na filmografia hollywoodiana, em especial? A curiosidade por como o cinema cubano lidaria partindo de um pressuposto tão comum deve levar muitos a assistir a "Juan Dos Mortos" (Juan De Los Mortos), de Alejandro Brugués. Entretanto, o filme não escapa dos clichês e aparenta não oferecer nada muito além do que já conhecemos do cinema americano.

O Juan do título é um "zé ninguém" que ganha a vida sem fazer muita coisa. Logo, ele se vê no meio de um apocalipse, e a população de Cuba não tarda a se tornar majoritariamente zumbi. Com o inimigo para todos os lados, Juan tem uma ideia empreendedora: criar um serviço de mortes por aluguel, uma espécie de "caça-fantasmas", como no filme de 1984. Para isso, ele treina e lidera uma trupe de desajeitados.

Co-produzido por investidores da Espanha, o longa parece ter sido saído dos Estados Unidos: é como um filme B americano ambientado em Cuba - a inspiração é clara. Sangue, exageros, piadas com negros, com gordinhos tapados e com travestis, mulheres gostosas e mortes gratuitas. A sensação é de assistir a um Todo Mundo Em Panico, ou qualquer comédia escrachada de humor negro que lota salas ao redor do mundo, satirizando o terror e a ficção científica (Contágio, Invasores, A Hora Da Escuridão - enfim, exemplos não faltam). Só que, geralmente, o público ri até a barriga doer nessas comédias pastelão, coisa que não acontece em Juan dos Mortos, em momento algum.

Há uma crítica social embutida, que parece ser a única coisa que realmente dá algo de diferente: o povo e o regime cubano são criticados por meio de piadas, a maioria bem forçada (uma cena com as bandeiras dos EUA e Cuba é impagável, porém). Em meio a epidemia de zumbis, a mídia cubana repercute que eles são "dissidentes imperialistas" pagos pelos Estados Unidos, por exemplo. Outro: o povo cubano é taxado como preguiçoso, pretexto para várias piadinhas. E, incongruentemente, os personagens principais são mostrados como pessoas mercenárias e oportunistas, no melhor estilo capitalista. O grupo é composto pelos grandes heróis do filme, com a exceção da cena em que são salvos por - não diga! - um americano, em frente ao monumento a Che Guevara.

As críticas a Cuba são tão razas que mais parecem uma grande ironia aos críticos do país. A crítica por meio da piada, do exagero, deixa margem a essa dupla interpretação. Será que Juan dos Mortos é tão superficial quanto parece? Se pensarmos a ideia de vender a morte "dos seus entes queridos" (o slogan de Juan) como uma sátira ao capitalismo, não. Ao escrachar Cuba de maneira nítida, o filme pode ter tentado o efeito inverso. E paira a dúvida se o que vimos é uma obra pró ou contra o regime cubano ou nem um, nem outro - só se zomba o governo dos Castro, mas a crítica aos EUA parece vir nas entrelinhas. Se os idealizadores pensaram que poderia levar a esse tipo de dúvida no público internacional, que pouco conhece o país, estão de parabéns. Afinal, se Cuba é mesmo uma "ditadura" cujo noticiário - no exagero da ficção, claro - informa que os zumbis são pessoas contra o regime pagas pelos americanos, como mesmo que esse filme percorreu o mundo e foi parar nas telas do Reserva Cultural, em São Paulo, por exemplo?

O filme tem um bom ritmo, funcionando como aventura, e o enredo tem várias situações engraçadas, algumas até inteligentes, embora as piadas limitem-se ao humor negro e escatológico. É aquela velha comédia engraçadinha para quem gosta de ver sangue para todos os lados e que será logo esquecida. As críticas a Cuba não propõe nenhuma reflexão pois ficam no plano da superficialidade, mas, ao olhar o filme com mais profundidade, parece clara a critica ao capitalismo. Quem percebê-la vai conseguir ver além dos clichês. Quem não, vai achar que o longa teve dedo dos EUA, como informava a TV cubana sobre a epidemia zumbi, ou comprar a ideia de que os cubanos só não vão para Miami porque lá teriam que trabalhar.

ps: as imagens da cidade de Cuba são lindas!

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Sonho de Wadjda



Um filme que fez história. O Sonho de Wadjda é um exemplar raro de cinema, por carregar consigo toda uma importância sócio cultural: ser o primeira longa metragem dirigido por uma mulher na Arábia Saudita. A diretora Haifaa Al-Mansour desponta com a nada fácil missão de mostrar para um mundo um olhar genuinamente local sob o país. Ela aposta numa narrativa simples, mas carregada de um simbolismo forte e uma ternura surpreendentemente encantadora.

Wadjda é uma garotinha que todos querem que seja comum, que siga as regras de disciplina impostas pela sociedade, pelo alcorão e pela instituição escolar, como todas as outras meninas de sua idade ou todas as mulheres da região. Entretanto, ela possui uma rivalidade de criança com um garoto do bairro e deseja uma bicicleta para apostar corrida com ele. Se para o Ocidente esse parece ser um desejo comum, para o circulo social da garota tal desejo é indecente, pois bicicleta é apenas para garotos. Contra a vontade de todos, Wadja começa a pensar em como conseguir comprar uma, e segue numa jornada para arrecadar dinheiro para tal.

A partir da protagonista, a diretora cutuca os preceitos, o senso comum, os dogmas e os tabus de sua sociedade, por um olhar feminino, mas também infantil. Wadjda não é ingênua, pelo contrário, ela conhece a sua sociedade - e a questiona, coisa que nenhum dos poucos adultos do filme parece fazer. Por que só os meninos podem ter e andar de bicicleta? Por que ela não pode pular amarelinha na frente dos homens? Qual o sentido de se cobrir com uma burca preta no calor do Oriente Médio?

Wadjda, apesar de ser apenas uma menina, é a mulher mais forte do elenco, praticamente todo feminino. Ela tem a coragem de desafiar a sociedade patriarcal em que vive, por meio de suas pequenas teimosias. Sutilmente, ela critica as imposições da sociedade à mulher, enquanto, nitidamente, ela só quer ser ela mesma: uma criança, e brincar como uma, sem restrições de gênero, sem imposições sociais nas quais não vê propósito. Ela quer o brinquedo "de menino" e não tem medo de admitir. Sua rebeldia é usar tênis all-star roxo, ao invés da sapatilha preta das outras meninas.

Com delicadeza e bom humor, a diretora conseguiu fazer um filme encantador, divertido e crítico. Uma personagem cativante (a menina está ótima em seu papel), com problemas de criança que apontam para questões muito maiores. Um filme que parece ter vindo de um cinema maduro, e não da primeira experiência feminina por trás das câmeras da Arábia Saudita, a ponto de a única cena triste ser tão emblemática, com fogos de artifício em segundo plano. 

domingo, 14 de abril de 2013

Depois de Maio



A polícia proíbe uma manifestação de jovens. Anarquistas, com vigor revolucionário, eles partem para o protesto com coragem. Resultado? Aconteceu o que é comum até hoje: foram reprimidos com chutes, cassetete, gás lacrimogênio, etc. Esse é o início de Depois de Maio (Après Mai), longa de Oliver Assayas, que trata sobre um grupo de jovens que querem mudar o mundo, mas acabam mudando (apenas?) a si mesmos.

No meio da confusão da cena inicial está Gilles, personagem no qual a história, um projeto autobiográfico do diretor, é centrada. Quando um de seus colegas é descoberto, após picharem a universidade de madrugada, os membros do grupo precisam viajar e atenuar suas ações. Aos poucos, vão se descolando da euforia revolucionária, embora permaneçam imersos na contracultura, em especial no movimento hippie.

A sequência do prédio sendo pichado é ótima e exemplifica como o começo do longa é empolgante. A cena do início já é cheia de informações, e, complementando com essa, tornam o início do filme vibrante. Entretanto, o impacto do início se esvai. Quando os personagens seguem seus próprios caminhos, o longa se segura um pouco, mas não tarda a se tornar insosso e arrastado. Vira um filme parado com personagens que o espectador fica cada vez menos envolvido, embora algumas situações sejam interessantes.

Talvez o tédio seja proposital: a medida que os personagens vão crescendo, eles vão perdendo aquela disposição e alegria pós-maio de 1968 e se tornando pessoas normais, sem graça. Mesmo que ainda estejam no movimento hippie e façam coisas que a sociedade até hoje não permite, eles não cativam mais. Principalmente o personagem principal, o que mais deixa de ser interessante ao longo do filme. A direção e o roteiro precisavam ser mais ágios.

O longa tenta levantar algumas questões importantes, como o tema do aborto, e toca numa realmente interessante: a estética cinematográfica. Em algumas situações, discute-se cinema. Um filme revolucionário deve obrigatoriamente ter uma estética própria (ou isso seria um individualismo burguês, que não convém com os ideais anarquistas?) ou deve mostrar suas posições através da linguagem clássica, para a mensagem atingir o seu público? É necessário algo mais artístico e restrito ou mais comercial e popular?

Embora trate de questões pertinentes, Depois de Maio é superficial e arrastado. É um longa que promete muito, mas vai decepcionando à medida que avança. Talvez isso tenha algo a ver com a juventude...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Argo



Em 16 de janeiro de 1980, um anúncio de página inteira do filme Argo foi publicado no Hollywood Reporter e no Daily Variety. Apesar de nunca ter sido lançado, o longa foi um sucesso. Ele fazia parte de uma bem elaborada e arriscada operação da CIA de exfiltração em pleno Irã revolucionário. O resgate serviu como base para o novo filme de Ben Affleck, homônimo ao bem-sucedido plano. Entretanto, subestimando um pouco a avalanche de prêmios que o longa vem recebendo até aqui, não se pode falar o mesmo da obra, indicada a sete Oscars, incluindo Melhor Filme (categoria em que tem gigantescas chances de sair vitorioso).

No ano da revolução iraniana, 1979, a embaixada dos Estados Unidos no Irã foi invadida por parte da população com a exigência de que o governo americano mandasse de volta o xá, que era mantido sob asilo político nos EUA - ele havia governado o país com "mão de ferro" por 25 anos, segundo o próprio protagonista de Argo, Antonio Mendez, em seu livro sobre a operação - e agora os iranianos queriam a cabeça do governante. Por 444 dias, a embaixada esteve sob domínio dos irrequietos revolucionários, que tinham respaldo do governo provisório do Khomeini e mantinham como reféns diplomatas americanos. Durante a invasão, seis americanos conseguiram escapar e encontraram refúgio na casa de autoridades canadenses. A CIA, diante da incapacidade de se chegar a uma solução para os reféns, elaborou um plano para resgatar os seis hóspedes fugitivos. A operação, elaborada por Mendez (Affleck, no filme), precisou da ajuda de Hollywood para se concretizar.

Argo mistura realidade com ficção na tentativa de construir um filme mais ágil e dinâmico. Nos cinemas, a maneira como a operação aconteceu talvez não transparecesse tão incrível - a exfiltração foi feita sem uma gota de sangue derramado (por isso também é tão importante), resultado de uma ideia ousada de procedimento que ia contra regras de todos já feitos anteriormente, como a máxima de ''não chamar atenção'' invertida ao contrário. Affleck preferiu o caminho fácil, tornando o filme mais hollywoodiano. Na operação, os seis foram disfarçados e embarcaram sem problemas - a emoção da história estava em todo o caminho percorrido pra chegar nesse resultado, tanto pela CIA como pelos fugitivos - enquanto no filme, apela-se para a tentativa de aproximar Argo de um blockbuster comum, mais palatável para grandes audiências.

Para que o longa funcionasse melhor, os fugitivos teriam que ter sido mais explorados. A tensão de poderem ser descobertos a qualquer momento, o drama da demora por um resgate, a sensação de esquecimento que eles sentiam foram negligenciados. Porque não mostrar um pouco da fuga deles da embaixada, no início do filme? Os atores que interpretam os fugitivos só tem o devido destaque em uma cena, quando discutem se vão aceitar ou não a ajuda da CIA. No fundo, o único personagem com quem há um certo envolvimento é o protagonista. E também o executivo de Hollywood, interpretado por Alan Arkin, que está ótimo em seu papel.

O filme entretém e diverte, como qualquer um de ação que a indústria americana faz tão bem. Também tem seus exageros, como a inventada sequência de ação envolvendo o avião, que mais pareceu uma solução de última hora para tornar o final mais interessante. Um ponto positivo é que Affleck joga limpo em um aspecto: logo no início, explica um pouco sobre a política iraniana antes da revolução, exaltando o envolvimento dos Estados Unidos e a influência desse país na política do Irã. Mostra que o que aconteceu na embaixada e o borbulhante ódio antiamericano é uma reação ao passado político iraniano, e que os EUA tem muita sujeira nessa história, usando seu poder pensando em seus próprios interesses. O Irã era um aliado estratégico não só pelo petróleo, mas também por sua proximidade geográfica com a URSS.

Argo é um filme mediano e poderia ser ainda melhor se não caísse em soluções fáceis para uma trama tão cheia de nuances e significados. Uma boa definição seria que a obra do Affleck é um "Bourne político" - no fundo, é um entretenimento que tenta não parecer raso. Entretanto, O Ultimato Bourne, por exemplo, bem mais inteligente e elaborado, não teve esse reconhecimento todo da Academia. O que tornou Argo especial? A homenagem a Hollywood (presente também no ganhador do ano passado, O Artista), a conotação política da situação delicada do Irã com os EUA que continua até hoje ou a necessidade de afirmar e exaltar que os americanos realizaram um dos mais improváveis resgates da história? Ou todos esse fatores juntos? Por fim, algo mais para pensar: o Irã prometeu levar aos cinemas sua versão dessa história. Depois de ver Argo, quantos vão se interessar pelo o que eles têm a dizer? Não será difícil para eles tocar em questões mais profundas ou espinhosas do que a obra de Affleck.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Lincoln


Ano passado uma obra de Steven Spielberg era indicada ao Oscar por envolver e emocionar o mundo com a jornada de um animal. Cavalo de Guerra é longo, mas nas mãos desse veterano do cinema, resultou num filme terno e de alta qualidade. Indicado em 2013 como Melhor Diretor, Spielberg desponta com Lincoln, favorito para ganhar o prêmio principal e também o recordista de indicações, em 12 categorias. Uma pena que o resultado não é nada além de um arrastado e monótono exemplar de patriotismo.

O Presidente Lincoln pode ser considerado o maior responsável por abolir a escravidão nos Estados Unidos. A trama do filme mostra os bastidores da campanha pela aprovação da 13ª emenda, que proibiu a prática que foi motim da sangrenta guerra civil que dividiu norte e sul de 1861 a 1865. Como já era de se esperar, a figura de Lincoln é exaltada, o que parece ser o único objetivo da obra. 

Enquanto outro forte concorrente da premiação esse ano, Django Livre, quebra paradigmas e ousa ao abordar o tema da escravidão, Spielberg se limita a fazer sua panfletagem disfarçada de filme de época. A política é um tema pertinente, principalmente por Lincoln ter aprovado a emenda por meio de corrupção, o que (ainda bem!) fica evidente para qualquer espectador. Entretanto, ao invés de provocar reflexões pertinentes, o longa se arrasta. Se quem assiste não nutre um sentimento forte pelo político, nem mesmo um interesse pela discussão da "realpolitik" salva.

O único momento realmente bom do filme é o seu clímax, durante a votação da emenda. É quando finalmente a história prende atenção. De resto, Sally Field (vencedora do Oscar por Norma Rae e protagonista do seriado Brothers & Sisters) salva nos momentos em que aparece e rouba a cena, sendo o maior destaque nas atuações, no papel de esposa do Lincoln. Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) também está bom em seu papel, mas seu favoritismo ao Oscar parece exagerado (assim como no caso do longa). Leonardo Di Caprio, por exemplo, no papel de escravocrata em Django Livre, merece muito mais (infelizmente, nem foi indicado).

Lincoln é um filme, na melhor das avaliações, mediano. Entretanto, ele possibilita algumas discussões interessantes, além da sobre corrupção. Por exemplo, é inevitável comparar a postura dos dois maiores partidos dos Estados Unidos na época e agora. Lincoln, com seu discurso abolicionista, era republicano - e os segregadores eram, em sua maioria, democratas. Hoje esse último partido tem um negro na presidência e o outro se identifica, ou, pelo menos, flerta, com o discurso preconceituoso do Tea Party. E não é que Lincoln era influenciado por Karl Marx? O mundo dá voltas.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

No [36a Mostra]

       
Uma das maiores afrontas à democracia da história latino-americana, o golpe de estado no Chile que derrubou o governo do socialista Salvador Allende até hoje se reflete em consequências políticas e sociais na sociedade chilena. Talvez por isso uma frase repetida várias vezes ao decorrer do longa, algo similar a "esse vídeo está inserido no contexto social atual. O Chile olha para o futuro", parece uma referência ao próprio filme e ao presente em No, de Pablo Larraín, que abriu a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Para legitimar sua ditadura, sob pressão internacional, o general Augusto Pinochet convocou um plebiscito que daria, ou não, continuidade ao seu governo. Mesmo com a convicção generalizada de que o plebiscito já estivesse pré-definido, alimentado pelo medo da população, o publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) resolve aceitar a difícil missão de elaborar um programa eleitoral para o "Não", voto de oposição ao regime. Entretanto, o caminho que decide traçar não é o de expor a necessidade de combater os horrores da ditadura, e sim o de alimentar a esperança.

Baseado numa peça intitulada El Pebliscito, do escritor chileno Antonio Skármeta, o filme recebe um tom documental pela direção simples, que utilizou câmeras da época, e imagens reais do período. Engana-se quem espera uma obra sobre o governo do ditador: No se aproxima mais de um Obrigado por Fumar do que de um A História Oficial, por exemplo. O foco é a elaboração e a execução de uma campanha política, onde há uma rivalidade fortemente polarizada.

Num ano em que o ditador recebeu homenagens (que sofreram vários protestos), talvez seja muito importante mesmo mostrar que o Pinochet caiu pela vontade soberana do povo. Entretanto, não é só por isso que No é um filme interessante: as cenas das propagandas políticas para o paulistano que acaba de decidir uma eleição são bem semelhantes as que São Paulo viu em 2012. De um lado, o candidato que quer perpetuar seu poder apresenta-se como o competente, com apoio da mídia, também impondo certo medo do adversário, o "comunista". Do outro lado, o desconhecido, que traz esperança, que vem com alegria e promete mudança. Isso mostra o quanto o filme é atual, não só por causa da memória do ditador sendo constantemente relembrada (para o bem ou para o mal), mas também por mostrar o jogo de marketing eleitoral que continua até hoje.

O uso de câmeras antigas é um ponto alto do filme, mas as semelhanças e discussões que No pode trazer já valem o ingresso. Entretanto, não traz nada muito surpreendente - o resultado do plebiscito é conhecido por todos e as estratégias de marketing também, o que não anula como a obra é um bom ponto de partida para relembrar o passado e pensar o futuro.