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terça-feira, 10 de junho de 2014

O Médico Alemão



Por Gabriel Fabri

A indústria mundial de brinquedos uniformizou, de certa forma, a produção de bonecas, com a predominância das Barbies no cenários internacional. Elas refletiam (ou refletem) o padrão estético de beleza norte-americano. Entretanto, o novo filme de Lucia Puenzo, O Médico Alemão (Wakolda), longa escolhido para representar a Argentina no Oscar 2014, não visa discutir conceitos de indústria cultural. Com um montante de bonecas fabricadas em série, por sugestão do tal doutor do título brasileiro, o filme critica metaforicamente o nazismo por tentar estabelecer um padrão social uniformizado para as pessoas, representadas nesses objetos.


A trama é bem simples: uma família resolve se mudar para Bariloche, ao norte da Argentina, para reabrir um hotel, que estava desativado. Na estrada deserta, são seguidos por um misterioso médico alemão, que teme se perder pelo caminho. Ele havia demonstrado um perigoso interesse em Lilith, menina de 12 anos que aparentava ter bem menos do que tinha, pois crescia bem abaixo do esperado. Ao chegar ao destino, o doutor resolve se hospedar no mesmo hotel com a família.

O longa se vale de recursos semelhantes aos usados por Hitchcock em A sombra de uma dúvida (1943). Numa casa de família, chega um hóspede misterioso - um tio distante, no caso desse clássico - que faz de tudo para agradar os anfitriões. Como desconfiar de alguém tão amável? Apenas o público, ciente de que o inquilino esconde algo, que "sofre" com momentos de tensão. Essa conhecida técnica visa antecipar o suspense, uma vez que a espera por algo acontecer, quando já se o antecede, é mais aterrorizante do que o acontecimento em si.

Apesar de manjada, a técnica é, quando bem utilizada, uma das melhores para se construir o suspense numa narrativa, seja ela audiovisual ou não. Todavia, em O Médico Alemão, ela não se sustenta até o final da projeção. O início do filme, ao sugerir de cara que existia algo de errado com o personagem do médico, talvez até algum impulso de pedofilia, mostra-se interessante o bastante para prender de cara a atenção do espectador. Mas logo se percebe que a história, baseado em fatos reais relatados pela própria diretora em livro, pode cair no lugar comum. E cai, falhando na construção de um clímax que poderia ser angustiante.

O Médico Alemão, se lido na chave que sugere o título original, mostra-se um longa com boas questões para serem postas em debate. Wakolda é o nome da boneca preferida de Lilith, justamente por ser a "mais esquisita". É com esse objeto, diferente dos outros, que a protagonista se identifica. O nazismo pode ter acabado, mas a tentativa de tornar todos os seres humanos padronizados continua, mesmo que de maneira involuntária. E o longa se manifesta contra isso. São as imperfeições, as diferenças, os "defeitos" que nos tornam quem somos, e isso não pode se apagar em detrimento do que os outros querem de você. E, assim como a boneca, o filme também tem lá as suas imperfeições.

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tese Sobre Um Homicídio



Por Gabriel Fabri

A televisão americana, de uns anos para cá, vem conquistando elevado prestígio entre os cinéfilos e cineastas. Com séries inovadoras como Lost e 24 Horas, ou  refinadas como Damages e Mad Men, é difícil ignorar a relevância que esse modelo adquiriu. Entre os vários programas que tentam vingar e sobreviver à dura prova da audiência, os de investigação criminal são um dos mais bem sucedidos. CSI, Criminal Minds, NCIS, The Closer, Cold Case, Without a Trace - são apenas alguns exemplos de tantos que, semanalmente, tratam de resolver um crime diferente, sempre com o objetivo maior de trazer novamente o espectador sete dias depois. Na mesma onda de investigação criminal, chega ao cinema o argentino Tese Sobre Um Homicídio, do estreante Hernán Goldfrid.

Ricardo Darín é Roberto Bermúdez, um professor de direito criminal. Em sua nova turma de pós-graduação, ele terá como aluno Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), filho de um casal amigo. À princípio, os dois se dão bem, mas Roberto começa a suspeitar do outro quando um corpo de uma garota assassinada é descoberto no estacionamento da faculdade.

Logo no início do filme, o personagem de Darín explica que, numa investigação criminal, o juiz deve prestar atenção nos detalhes. O diretor seguirá essa premissa à risca ao marcar, repetidamente, uma série de objetos, com muitos closes. Além dessa marcação um tanto exagerada, Goldfrid aproveita para colocar os atores sob uma lupa, pois não são raros os planos detalhe, em que apenas uma parte do corpo aparece. O recurso é quase didático, escancarando os elementos que serão usados novamente no filme e, no caso dos atores, permite um maior envolvimento com a história. Uma boa sequência é a que se passa no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), onde o diretor aproveita as obras para fazer planos interessantes, criando ilusões de ótica com as obras.

Longe de ser um O Segredo dos Seus Olhos, filme de investigação com Darín que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Tese tem uma trama bem simples e um ritmo de blockbuster hollywoodiano. A técnica hitchcockiana de antecipação do suspense, crucial numa cena lá pela metade da projeção, e a trilha sonora para acentuar esse clima são apenas alguns exemplos do que torna o longa ágil. Num crime onde a polícia não consegue encontrar suspeitos, acompanhamos a jornada de Roberto para provar que o seu aluno é culpado. O roteiro funciona muito bem para tornar a obsessão do personagem plausível e interessante, enquanto o uso dos closes colabora para que o espectador fique do lado de Darín e encaixe as peças do quebra-cabeça da mesma maneira que o personagem.

Darín e Ammann estão impecáveis em seus papéis. O primeiro conduz todo o filme e não titubeia quando a câmera chega perto, para pegar um olhar ou alguma expressão. O outro mantém a dubiedade de parecer ser o assassino e uma pessoa inocente ao mesmo tempo, quase indecifrável. Calu Riveiro, que faz a irmã da vítima, também se destaca.

Mas o clímax do filme é problemático. Pouco empolgante, é o momento em que o espectador começa a questionar toda a investigação feita até então, mais por uma sutil incongruência à respeito de um objeto do que por mérito do roteiro ou da direção. Na tentativa de criar uma reviravolta, o diretor perde um pouco a mão, embora o desfecho seja crucial para que Tese não caia na vala comum dos filmes de investigação.

Tese Sobre Um Homicídio revela uma faceta mais comercial do cinema argentino. Ele não provoca o espectador ao longo da projeção, apenas o vai guiando conforme as teorias e descobertas do protagonista. Só no seu final, em aberto, que o longa lembra que não saiu de uma série de TV e, assim, questiona sutilmente tudo o que foi mostrado anteriormente. Questionamentos que já estavam lá antes, mas o diretor não pois a câmera bem em cima deles para esclarecer.  

Leia sobre cinema argentina na reportagem escrita por Gabriel Fabri, diretamente de Buenos Aires, clicando aqui. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cinema Argentino: "Faltam Mais Vedetes"



Em virtude dessa reportagem ter completado um ano de publicação ontem e do lançamento do filme Tese Sobre Um Homicídio, no dia 26, republico-a aqui. Ela foi realizada diretamente de Buenos Aires, Argentina, para o programa Jornalismo Sem Fronteiras 2012.



Nos festivais de todo o mundo, o cinema argentino se destaca em relação aos concorrentes sul-americanos. Enquanto o Brasil nunca levou um Oscar, a Argentina tem entre suas produções dois grandes ganhadores: A História Oficial, de Luis Puenzo, e O Segredo de seus olhos, de Juan José Campanella. Como Cynara Menezes, da CartaCapital, bem colocou em seu texto, "Os viralatas de celulóide", os brasileiros invejam o cinema dos hermanos – “sentimos vergonha, rimos de nós mesmos”, escreveu a jornalista. No Brasil, cinema argentino é sinônimo de qualidade, boas histórias e, sobretudo, de obra intelectual. Quais seriam as razões do sucesso do cinema argentino? E como os portenhos se relacionam com a sua produção nacional?

UCINE Buenos Aires

Em Buenos Aires, ao redor da Universad del Cine, uma faculdade exclusivamente de cinema, encontra-se um ambiente jovem que contrasta com a arquitetura antiga e parisiense da cidade. Lá, todos tem algo em comum: apreço pela sétima arte. Na livraria especializada, uma estudante de cinema de outra universidade afirmou gostar da produção de seu país. Outro jovem, aluno da Universidad del Cine e fã de David Lynch e Sam Raimi, revelou o que, para ele, é o panorama da produção argentina: uma série de filmes feitos de maneira a arrecadar o máximo gastando o mínimo – desses pouco são “aproveitáveis” artisticamente. Sucesso? Para ele, o cinema argentino está mitificado.

“Você acha que o cinema argentino faz sucesso?”, respondeu ironicamente o diretor dauniversidade, Bebe Kamin, também cineasta, ao ser questionado sobre o tema. Ele explicou que apenas 8% do tempo de exibição das salas argentinas é ocupado com produções do país. Dos filmes produzidos por ano, que alega ser cerca de 100, pouquíssimos tem alguma repercussão comercial ou artística. Só os muito bons, com propostas que interessam e sejam comprometidas com a sociedade, fazem sucesso, o que é muito mais significativo no resto do mundo, do que em seu país de origem. Entre esses filmes estão os de Lucrecia Martel e Pablo Trapero, exemplificou o acadêmico.

A reflexão de Kamin sobre a produção argentina mostra que a situação desse cinema não é tão diferente da brasileira. Há pouco espaço nas salas, influência do filme americano comercial e uma grande quantidade de filmes irrelevantes. Nesse cenário, uma pequena minoria que se destaca pela qualidade ou por construir uma identidade de maneira ousada, assim como no Brasil, onde um exemplo recente é "A Febre do Rato", de Claudio Assis, sem contar os diretores já consagrados, como Walter Salles e Fernando Meirelles, reconhecidos internacionalmente.

Kamin acha que se deve melhorar a política cinematográfica na Argentina. Incentivar a produção não é suficiente: é preciso hierarquizar os projetos, facilitando a produção dos “mais valiosos”. Para Rodrigo Moreno, diretor premiado no festival de Sundance e de Berlim, o maior problema do cinema argentino é também sua maior virtude: não há tradição – os cineastas não têm base sólida para se apoiar. O que resulta em obras que partem de uma realidade que, em sua opinião, não passa de falsa interpretação. Moreno não gosta do cinema argentino em geral e não se inspira nele em suas obras.

Questionado sobre o, assim chamado, “sucesso” internacional dos longas, ele explica que esses filmes pertencem ao ciclo do cinema urbano e de classe média na América Latina, o que chama atenção pois quebra o estigma do cinema latino-americano que só retrata problemas sociais. Sobre a recepção argentina a essas obras, ele pensa que o público é cético em relação a elas, devido ao “espírito argentino individual e crítico”.

Jovens amantes de cinema, como Fabio Fontana, que trabalha num bar na rua da Universidad del Cine, têm opiniões diferentes. Enquanto conversava sobre cinema latino com sua colega uruguaia Andrea Silva, mostrou-se muito mais otimista com a cinegrafia de seu país. Acha que melhorou na última década, mas não por influencia da crise de 2001, e sim porque foi se aperfeiçoando. Ele vê influências do cinema americano, que também evoluiu com o passar dos anos, com “finais abertos, melhor trabalho de personagens e histórias mínimas”. Para ele, o papel determinante para a produção nacional são os festivais estrangeiros – os filmes precisam fazer sucesso fora para impulsionar o público argentino. Enquanto Moreno considera que nessas produções mostra-se uma falsa realidade, Fabio acredita que trazem ensinamentos sobre a vida, por meio dos personagens.



O que falta nas produções argentinas é, para Fontana, mais mulheres ou, em suas palavras, “vedetes”. Ele também quer ver efeitos especiais sendo usados, não em produções megalomaníacas como as hollywoodianas, mas em obras com teor mais artístico, como "O Labirinto do Fauno", do mexicano Guillermo Del Toro. Já a professora brasileira formada em cinema na Universidade de La Plata, Livia Stevaux, acha uma grande falha não se produzirem filmes de ação.

Em entrevista, Stevaux afirmou apreciar muito a produção local, por causa principalmente dos roteiros, cujos diálogos são uma virtude e os personagens são fortes e complexos. Ela aponta para a facilidade em construir histórias que vem da “grande tradição literária e de estudos de narração”. Considera que o cinema argentino faz sucesso pela qualidade desses roteiros, mas admite que é tudo muito relativo: já escutou muitas vezes comentários do tipo “não existe” ou “o cinema nacional é horrível”; entretanto, acredita que a rejeição às produções locais é menor do que no Brasil.

Por fim, é necessário ressaltar os números oficiais : segundo a publicação Haciendo Cine, edição de junho, nos primeiros cinco meses de 2012, estrearam 42 filmes argentinos. Desses, apenas cinco foram exibidos em mais de quarenta salas. Entretanto, isso pode mudar muito em breve: o governo Kirchner, por meio do secretário de comércio Guillermo Moreno, aprovou uma lei que une as grandes distribuidoras cinematográficas e os produtores locais à força – elas serão obrigadas a parar de negligenciar a produção nacional e se comprometerem a dar um novo fôlego para a distribuição do cinema local. Isso tudo pode ser o primeiro passo para a política cinematográfica que Bebe Kamin tanto acha importante.

Conclui-se que, apesar de maior prestígio internacional e nacional, o cinema argentino também passa por problemas semelhantes ao brasileiro. Se esse prestígio pode ser considerado um “sucesso”, a verdade é que há muita divergência a respeito desse tema. Ao estudar esse panorama com os cinéfilos da Argentina, percebe-se que a opinião sobre a produção nacional e seu sucesso não é unanime entre os portenhos.

Gabriel Fabri

Reportagem originalmente publicada nos sites Plano Crítico e Link Consultoria e na revista "Enviado Especial", número 1.

(Em Breve: Tese sobre um Homicídio)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Juan Dos Mortos


O que uma comédia cubana sobre um apocalipse zumbi tem de diferente com relação a tantos filmes de temática semelhante, na filmografia hollywoodiana, em especial? A curiosidade por como o cinema cubano lidaria partindo de um pressuposto tão comum deve levar muitos a assistir a "Juan Dos Mortos" (Juan De Los Mortos), de Alejandro Brugués. Entretanto, o filme não escapa dos clichês e aparenta não oferecer nada muito além do que já conhecemos do cinema americano.

O Juan do título é um "zé ninguém" que ganha a vida sem fazer muita coisa. Logo, ele se vê no meio de um apocalipse, e a população de Cuba não tarda a se tornar majoritariamente zumbi. Com o inimigo para todos os lados, Juan tem uma ideia empreendedora: criar um serviço de mortes por aluguel, uma espécie de "caça-fantasmas", como no filme de 1984. Para isso, ele treina e lidera uma trupe de desajeitados.

Co-produzido por investidores da Espanha, o longa parece ter sido saído dos Estados Unidos: é como um filme B americano ambientado em Cuba - a inspiração é clara. Sangue, exageros, piadas com negros, com gordinhos tapados e com travestis, mulheres gostosas e mortes gratuitas. A sensação é de assistir a um Todo Mundo Em Panico, ou qualquer comédia escrachada de humor negro que lota salas ao redor do mundo, satirizando o terror e a ficção científica (Contágio, Invasores, A Hora Da Escuridão - enfim, exemplos não faltam). Só que, geralmente, o público ri até a barriga doer nessas comédias pastelão, coisa que não acontece em Juan dos Mortos, em momento algum.

Há uma crítica social embutida, que parece ser a única coisa que realmente dá algo de diferente: o povo e o regime cubano são criticados por meio de piadas, a maioria bem forçada (uma cena com as bandeiras dos EUA e Cuba é impagável, porém). Em meio a epidemia de zumbis, a mídia cubana repercute que eles são "dissidentes imperialistas" pagos pelos Estados Unidos, por exemplo. Outro: o povo cubano é taxado como preguiçoso, pretexto para várias piadinhas. E, incongruentemente, os personagens principais são mostrados como pessoas mercenárias e oportunistas, no melhor estilo capitalista. O grupo é composto pelos grandes heróis do filme, com a exceção da cena em que são salvos por - não diga! - um americano, em frente ao monumento a Che Guevara.

As críticas a Cuba são tão razas que mais parecem uma grande ironia aos críticos do país. A crítica por meio da piada, do exagero, deixa margem a essa dupla interpretação. Será que Juan dos Mortos é tão superficial quanto parece? Se pensarmos a ideia de vender a morte "dos seus entes queridos" (o slogan de Juan) como uma sátira ao capitalismo, não. Ao escrachar Cuba de maneira nítida, o filme pode ter tentado o efeito inverso. E paira a dúvida se o que vimos é uma obra pró ou contra o regime cubano ou nem um, nem outro - só se zomba o governo dos Castro, mas a crítica aos EUA parece vir nas entrelinhas. Se os idealizadores pensaram que poderia levar a esse tipo de dúvida no público internacional, que pouco conhece o país, estão de parabéns. Afinal, se Cuba é mesmo uma "ditadura" cujo noticiário - no exagero da ficção, claro - informa que os zumbis são pessoas contra o regime pagas pelos americanos, como mesmo que esse filme percorreu o mundo e foi parar nas telas do Reserva Cultural, em São Paulo, por exemplo?

O filme tem um bom ritmo, funcionando como aventura, e o enredo tem várias situações engraçadas, algumas até inteligentes, embora as piadas limitem-se ao humor negro e escatológico. É aquela velha comédia engraçadinha para quem gosta de ver sangue para todos os lados e que será logo esquecida. As críticas a Cuba não propõe nenhuma reflexão pois ficam no plano da superficialidade, mas, ao olhar o filme com mais profundidade, parece clara a critica ao capitalismo. Quem percebê-la vai conseguir ver além dos clichês. Quem não, vai achar que o longa teve dedo dos EUA, como informava a TV cubana sobre a epidemia zumbi, ou comprar a ideia de que os cubanos só não vão para Miami porque lá teriam que trabalhar.

ps: as imagens da cidade de Cuba são lindas!