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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sétimo



Por Gabriel Fabri

Após estrelar o suspense "Tese Sobre Um Homicídio", que chegou aos cinemas brasileiros em 2013, Ricardo Darín retorna ao gênero em "Sétimo", dirigido por Patxi Amézcua. Nem a presença do astro do cinema argentino, porém, salva o filme de seu roteiro fraco, que não aproveita a história promissora do longa-metragem.



A trama se concentra no prédio em que mora Délia (Belén Rueda), esposa de Sebástian (Darín) à espera dos papéis de divorcio. A mulher deve se mudar com os dois filhos para Madrid, apesar das resistências do seu futuro ex-marido, um advogado que está envolvido em um caso de ampla repercussão midiática. Em um dia em que Sebástian vai levar as crianças para a escola, os meninos desaparecem, ao descerem as escadas do condomínio. Sob a suspeita de que os garotos ainda estariam no prédio, Sebástian inicia uma busca para descobrir quem os sequestrou.

"Sétimo" ganha o público com facilidade, devido às circunstâncias misteriosas do desaparecimento. Entretanto, o roteiro do filme não aproveita as possibilidades narrativas que um sequestro em um condomínio poderia gerar. Nenhum dos moradores parece minimamente suspeito, não atiçando a curiosidade do público e pouco agregando à trama; o personagem de Darín demora mais do que o plausível para suspeitar da mensagem com ameaça que recebeu justo na hora do sequestro; e o envolvimento de Sebástian com o caso polêmico, envolvendo aparentemente pessoas poderosas, fica em segundo plano. 

Assim como em "Tese Sobre Um Homicídio", aqui há também uma tentativa de reviravolta no final, para surpreender o público. Não funciona, e a "solução do caso" é tão absurda que chega a frustar, ao invés de chocar. Esta aí o maior ponto fora da curva de "Sétimo", que mostra que o cinema argentino ainda tem muito o que amadurecer em filmes de gênero, tão sofisticados na indústria norte-americana de filmes e séries. 

Se a relação entre Délia e Sebástian ainda rendesse alguma grande reflexão, "Sétimo" até poderia se salvar, mesmo com todas esses problemas. Mas, diante do resultado apresentado, melhor procurar um episódio de "Without A Trace".   

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Relatos Selvagens



Esse filme faz parte da programação da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Veja mais filmes da programação clicando aqui


Por Gabriel Fabri

Escolhido para abrir a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o representante argentino na corrida do Oscar 2015, "Relatos Selvagens", traz seis esquetes com histórias sobre pessoas que, por motivos diversos, perdem o controle diante de uma situação. Com produção de Pedro Almodóvar e de seu irmão, essa comédia de humor negro é dirigida por Damián Szifron.



A história que abre o filme é de longe a mais cativante de todas. O que era uma conversa corriqueira dentro de um avião, logo se transforma em uma situação inimaginável e muito divertida. "Relatos Selvagens" segura a atenção por mais duas histórias, uma que se passa numa lanchonete e outra em uma estrada. Com toques de melodrama, na primeira, e de suspense, na seguinte, Szifron envolve e choca o público, com uma ironia mordaz. 

Em seguida, a esquete estrelada por Ricardo Darín coloca o personagem do ator frente às frustrações do dia-a-dia, com o trabalho, a família, o trânsito, os impostos e, principalmente, o guincho. Aqui, o filme diminui o ritmo e também as doses de absurdos, em comparação com as outras histórias, mas a irônica surpresa do desfecho compensa a quebra na adrenalina proporcionada por essa esquete. Darín se destaca mais uma vez em sua atuação e o filme agrega novas camadas às principais questões da obra, como a vingança, por exemplo. É o episódio que mais se parece com o humor refinado de muitas comédias argentinas exibidas em festivais ao redor do mundo. 

A comédia dá lugar a um suspense político e policial na penúltima esquete, que destoa completamente do resto do filme, a não ser pela aproximação com o tema da vingança, aqui colocado frente a frente com o da tema da "justiça". O absurdo e o humor das outras esquetes são ausentes nesse episódio, e o choque se dá pelo realismo de toda a situação. É interessante, mas parece um peixe fora d'água. 

Por fim, o humor negro e as situações absurdas retornam na divertidíssima esquete final, que encerra o filme com chave de ouro. "Relatos Selvagens" tem um bom roteiro, com bons momentos de comédia, mas é uma obra um tanto irregular, principalmente por conta da penúltima esquete. Entretanto, não é sempre que vemos o cinema argentino, sempre muito cuidadoso com os diálogos e um humor sutil, com o universo hiperbólico de Almodóvar.

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terça-feira, 10 de junho de 2014

O Médico Alemão



Por Gabriel Fabri

A indústria mundial de brinquedos uniformizou, de certa forma, a produção de bonecas, com a predominância das Barbies no cenários internacional. Elas refletiam (ou refletem) o padrão estético de beleza norte-americano. Entretanto, o novo filme de Lucia Puenzo, O Médico Alemão (Wakolda), longa escolhido para representar a Argentina no Oscar 2014, não visa discutir conceitos de indústria cultural. Com um montante de bonecas fabricadas em série, por sugestão do tal doutor do título brasileiro, o filme critica metaforicamente o nazismo por tentar estabelecer um padrão social uniformizado para as pessoas, representadas nesses objetos.


A trama é bem simples: uma família resolve se mudar para Bariloche, ao norte da Argentina, para reabrir um hotel, que estava desativado. Na estrada deserta, são seguidos por um misterioso médico alemão, que teme se perder pelo caminho. Ele havia demonstrado um perigoso interesse em Lilith, menina de 12 anos que aparentava ter bem menos do que tinha, pois crescia bem abaixo do esperado. Ao chegar ao destino, o doutor resolve se hospedar no mesmo hotel com a família.

O longa se vale de recursos semelhantes aos usados por Hitchcock em A sombra de uma dúvida (1943). Numa casa de família, chega um hóspede misterioso - um tio distante, no caso desse clássico - que faz de tudo para agradar os anfitriões. Como desconfiar de alguém tão amável? Apenas o público, ciente de que o inquilino esconde algo, que "sofre" com momentos de tensão. Essa conhecida técnica visa antecipar o suspense, uma vez que a espera por algo acontecer, quando já se o antecede, é mais aterrorizante do que o acontecimento em si.

Apesar de manjada, a técnica é, quando bem utilizada, uma das melhores para se construir o suspense numa narrativa, seja ela audiovisual ou não. Todavia, em O Médico Alemão, ela não se sustenta até o final da projeção. O início do filme, ao sugerir de cara que existia algo de errado com o personagem do médico, talvez até algum impulso de pedofilia, mostra-se interessante o bastante para prender de cara a atenção do espectador. Mas logo se percebe que a história, baseado em fatos reais relatados pela própria diretora em livro, pode cair no lugar comum. E cai, falhando na construção de um clímax que poderia ser angustiante.

O Médico Alemão, se lido na chave que sugere o título original, mostra-se um longa com boas questões para serem postas em debate. Wakolda é o nome da boneca preferida de Lilith, justamente por ser a "mais esquisita". É com esse objeto, diferente dos outros, que a protagonista se identifica. O nazismo pode ter acabado, mas a tentativa de tornar todos os seres humanos padronizados continua, mesmo que de maneira involuntária. E o longa se manifesta contra isso. São as imperfeições, as diferenças, os "defeitos" que nos tornam quem somos, e isso não pode se apagar em detrimento do que os outros querem de você. E, assim como a boneca, o filme também tem lá as suas imperfeições.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Diário 37ª Mostra - Vol. 2



O diário da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo continua! Nesse volume 2, mais dicas de filmes para assistir. De clássico de Kubrick a filme argentino com Ricardo Darín, tem para todos os gostos. 

Pop with Popcorn, pelo segundo ano consecutivo, traz algumas dicas para os nossos leitores não ficarem por fora do maior evento de cinema de São Paulo. Nessa edição, teremos uma série de pequenos "diários" com os filmes vistos a cada dois ou três dias. Para acompanhar as atualizações, é só ficar de olho na nossa página no Facebook (clique aqui), ou acessar o blog com maior frequência. 

Confira o nosso 2º especial da jornada:


 
5) Dr. Fantástico

A 37ª Mostra tem na figura do diretor norte-americano Stanley Kubrick seu maior homenageado. Lançamento de livro, exposição no MIS e retrospectiva fazem parte do especial. Vergonha não assistir a pelo menos um clássico do diretor na tela grande, né?

Dr. Fantástico é filmado em preto e branco e conta a história do iminente fim da civilização na Terra: um general de alto escalão do exército americano ordenou um ataque nuclear à URSS, sem saber que os soviéticos haviam desenvolvido um sistema que devastaria o mundo caso eles fossem atacados. Diante dessa situação, o presidente norte-americano buscará alternativas para impedir o ataque que pode devastar toda a humanidade. A maior parte do filme se passa numa sala de reunião, onde diálogos, ora cômicos, ora sérios, dão o tom da trama.



6) O Que Os Homens Falam

O primeiro grande achado da Mostra é essa comédia argentina, do diretor Cesc Gay. São várias esquetes reunidas, todas retratando homens em crise. Adultério, separações, virilidade, casamento, impotência, problemas emocionais... Uma série de problemas do universo masculino, expostos com humor inteligente, nesse longa sustentado basicamente pelos diálogos afiados do roteiro.

O ponto fraco é o desfecho, que deixa muito a desejar. Após um desenvolvimento excelente, terminaram o filme de qualquer jeito. O que foi, talvez, o pior jeito: tentando amarrar aqueles personagens desconexos. Final chinfrim para uma comédia de alto nível.

O destaque é para esquete com Ricardo Darín, a mais hilária e criativa do longa.



7) O Garoto Que Come Alpiste

Representante da Grécia no Oscar, o filme é um retrato da crise europeia, personificada na figura de um homem que se alimenta com comida de passarinho. Não se trata de um filme de acontecimentos, com enredo, mas sim de uma experiência sensorial, repleta de closes e planos detalhes. Acompanhamos a rotina do personagem tentando sobreviver. Se ele come alpiste e não pão ou lixo parece fazer parte da escolha de retratá-lo, muitas vezes, como um animal, à beira (ou já dentro) da loucura. 

O plano final do filme traz a imagem de uma estátua sem cabeça e sem mãos, tombada. Só esse pequeno detalhe sintetiza toda a força e a crítica do filme: os gregos estão derrubados, imóveis e loucos.


8) A Garota do 14 de Julho

Uma das surpresas da Mostra, esse filme francês, que integra a competição de novos diretores, trata da crise europeia de maneira oposta à de O Garoto Que Come Alpiste: com muito humor negro, situações absurdas e referências a Kafka e Godard. Desemprego entre os jovens e recessão econômica são o plano de fundo para esse road movie divertidíssimo, que lembra muito as comédias hollywoodianas.  

Veja também: Diário da Mostra, Vol. 1

Volte em breve para conferir mais dicas da 37ª Mostra. 


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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Entrevista com Pablo Giorgelli, diretor premiado em Cannes



Na noite de quarta-feira (4), o argentino Pablo Giorgelli recebeu o Pop with Popcorn para uma entrevista exclusiva. Premiado com a Câmera de Ouro em Cannes por Las Acácias, que estreia com exclusividade no Cinesesc nessa sexta (6), Pablo acredita que sua obra é uma tentativa de entender a si mesmo. 

O filme conta a história de um caminhoneiro que transporta madeira do Paraguai para a Argentina. Nessa viagem, entretanto, ele deve levar uma mulher completamente desconhecida e o seu bebê para Buenos Aires. 

Leia abaixo os melhores momentos da conversa: 

Gabriel Fabri: O seu filme é um road movie onde dois desconhecidos viajam juntos, quase sem trocar palavras. Las Acácias é uma crítica ao perfil individualista e solitário do homem?

Pablo Giorgelli: Em algum ponto acredito que haja algo disso. Mas para mim esse é filme é sobre o vazio interior de um homem - que está sozinho, que tem dificuldade de se comunicar -, e é sobretudo sobre a paternidade. Esse é o eixo central: como este homem se reencontra consigo mesmo e com sua paternidade perdida. 

Depois, o filme tem um olhar crítico, talvez, ao mundo masculino, no sentido de que muitas vezes, nós homens não podemos conectar ou entender algumas questões mais sensíveis ou mais profundas. Muitas vezes o mundo masculino é um mundo mais prático. 

Acredito que Las Acácias é resultado de muitos anos de tentar entender a mim, de me conhecer. Essa crítica não é a outros, se não uma crítica a mim mesmo, em outra época. Fui aprendendo muito com as derrotas, perdi muito coisa no caminho por não me conectar comigo mesmo, por não saber como fazer isso. O filme é uma tentativa de explorar alguns temas que até o momento não tinha entendido, não tinha conseguido conectar. Como dizia, tem a ver com a paternidade. Com meu pai, com o pai que eu não era, e agora acabo de ser pai, é tudo a mesma coisa de algum modo. 



GF: Como o falecimento do seu pai se relaciona com o filme?

PG: Foi um pouco de uma motivação inconsciente que gerou esse filme. Ela vem daí: uma época de crise pessoal, afetiva, pela doença do meu pai, minha separação. Me passaram muitas coisas nos últimos dez anos. Todas essas crises ao mesmo tempo, resultam nesse filme, algo que eu não tinha conhecimento quando comecei a fazê-lo. Pouco a pouco fui descobrindo que ele tinha a ver com essa etapa de solidão e angústia da minha vida. 

GF: O filme aborda alguma outra crítica menos pessoal, mais social? Talvez relacionada com os países escolhidos (Paraguai e Argentina)?

PG: Num segundo plano, há um olhar sobre o aspecto social. Entra os temas da viagem, da imigração e do lugar da mulher na sociedade. A mãe e a filha aparentemente são as mais frágeis e terminam sendo as mais fortes. Elas são mais inteligentes e fazem o homem crescer durante o percurso. 

Quando apareceu a ideia da viagem, imediatamente pensei no Paraguai, um país que não conhecia muito até fazer o casting para o filme, mas pelo qual tinha um carinho enorme. Em Buenos Aires, a comunidade paraguaia é grande e nem sempre os imigrantes são bem vistos em cidades grandes, em geral. Há uma parte da população que os rejeitam, os consideram "de segunda", tem medo deles, e isso é algo que me entristece. Além disso, me comove a história de pessoas que deixam seu lugar com o sonho de buscar uma vida melhor.



GF: Há uma falta de comunicação entre os personagens que reflete algo muito presente na vida urbana...

PG: Isso é algo terrível, não? Acredito que é um dos grandes problemas da nossa sociedade moderna e das nossas famílias. A maior parte dos problemas de todas as pessoas tem a ver não com a falta de trabalho, não com o capitalismo. Tem a ver com a falta de comunicação. Muitas das coisas que nos passam, é porque não podemos nos comunicar, não sabemos como. Acreditamos que nos comunicamos, mas não o fazemos com profundidade, de maneira franca. Nos relacionamos, mas a comunicação com o outro, a conexão, acredito que acontece pouco. É necessário um esforço. 

Acredito que tenha a ver com a educação. Não nos ensinam a se comunicar com o outro. Os problemas decorrentes são enormes: pessoas frustadas, sozinhas, com medo. E volto ao tema da imigração: essa rejeição que há com os imigrantes definitivamente é medo. Mas é porque não os conhecem... Quando falamos das coisas horríveis que acontecem no mundo, a violência, a fome, a guerra, não há nenhuma justificação para isso. Tudo é o medo e a impossibilidade de se conectar com o outro. 

É preciso uma revolução de consciência, de cada um tomar consciência do que está fazendo no mundo, o que é ou não é importante. É preciso desarticular muita coisa, pois a sociedade nos põe diante de valores que não são reais, como o dinheiro e a beleza. Não há nada aí, mas todos perseguem essas coisas. Eu gostaria que de algum modo o filme estimule uma reflexão sobre tudo isso, e também à respeito da família e dos filhos.

GF: Esse é o seu primeiro filme. Como foi o processo de concepção?

PG: Foi um processo demorado, pois me tomou cinco anos, e foi sobretudo um longo processo de aperfeiçoamento. Nunca me apressei em etapa alguma. Primeiro foram dois anos escrevendo a história, só então encontrei a alma do filme. Demorei quase um ano para escolher os atores, onde tinha certeza que não poderia errar. A chave do filme é o elenco, não? A edição foi feita em conjunto com a minha mulher, em nossa casa, e durou oito meses. O mais curto foram as filmagens, só cinco semanas.

Quando aconteceu o milagre de terem convidado o filme para ser exibido em Cannes, tudo o que passou depois foi inesperado. Algo que nunca tinha imaginado. A boa repercussão internacional foi uma surpresa, eu não tinha claro, quando terminei a obra, se ela funcionava ou não, se eu gostava dela. Não sabia.

GF: E você gostou do seu filme?

PG: Em um primeiro momento, não sabia. Estava nervoso. Logo, teve um período em que eu gostava. Hoje, há coisas que não gosto muito, que não me convencem. Mas sinto que o filme tem uma alma que termina superando todas as suas imperfeições. Superadas pelo coração que tem o filme. O sucesso tem a ver com essa alma e com as reflexões que o filme propõe, à respeito de temas universais.



GF: Pensando no cine argentino como um todo, como você enxerga Las Acácias na filmografia?

PG: Não sei o que dizer... É muito difícil olhar para seu próprio filme num contexto. Nunca me fizeram essa pergunta e nunca pensei nisso. É um filme clássico e convencional, nada original, não estou inventando o cinema ou algo parecido. E dentro do cinema argentino, eu gosto das histórias. Mas o cinema argentino é muito diversificado hoje. São feitos muitos filmes, de diferentes estilos, o meu é só um a mais.

GF: Você tem algum projeto novo em mente?

PG: Tenho algo que estou escrevendo muito lentamente. Estou num momento de angustia, pois não o vejo ainda. Não o encontro. Tenho a ideia, a trabalho, mas não consigo vê-lo. É um momento de incerteza angustiante. Não gosto de nada, um dia acho que tenho algo, no outro não. Estou no começo de um processo, ao longo dos anos irei encontrando o filme. Acabo de ser pai de uma filha, então estou escrevendo pouco e aprendendo a ser pai.

GF: Quais temas você quer debater nos próximos longas?

PG: Meus filmes, pelo menos os próximos, e não sei se todos os meus próximos, serão sempre sobre o mesmo: sobre a família, sobre as relações entre pais e filhos, sobre as pessoas. Esses são os temas que me interessam hoje, quase exclusivamente. Me chegaram alguma propostas para fazer outros filmes, mas não senti que era o momento para fazer outra coisa que não seja mais pessoal.



GF: O que você conhece do cinema brasileiro?

PG: Não pude ver muitos filmes brasileiros, pelo mesmo motivo que acontece por aqui: não chegam tantos filmes argentinos ao Brasil, muito poucos, por isso estou muito contente que o meu trabalho finalmente está estreiando por aqui. Em Buenos Aires, não chegam muitos longas brasileiros, e isso se passa em toda América Latina. Só vi alguns em festivais, e os que eu vi me pareceram muito bons. 

Há uma geração de diretores novos, que estão fazendo trabalhos lindos, e acredito que esse seja um movimento em toda a América Latina. Sinto que há uma força de ter histórias para contar, algo a dizer, que não há mais em outros países. Há algumas filmografias que me parecem um pouco mais conservadoras e esgotadas. Na América Latina, sinto uma energia nova de renovação. Brasil, Argentina, Uruguai e o Chile estão fazendo filmes incríveis. Os poucas que vi do Brasil - Histórias que só existem quando são lembradas, O Céu de Suelly, O Som ao Redor, Trabalhar Cansa, entre outros - me encantaram. Quero ver mais. 


Las Acácias estreia hoje (6 de setembro), no Cinesesc, em São Paulo.

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tese Sobre Um Homicídio



Por Gabriel Fabri

A televisão americana, de uns anos para cá, vem conquistando elevado prestígio entre os cinéfilos e cineastas. Com séries inovadoras como Lost e 24 Horas, ou  refinadas como Damages e Mad Men, é difícil ignorar a relevância que esse modelo adquiriu. Entre os vários programas que tentam vingar e sobreviver à dura prova da audiência, os de investigação criminal são um dos mais bem sucedidos. CSI, Criminal Minds, NCIS, The Closer, Cold Case, Without a Trace - são apenas alguns exemplos de tantos que, semanalmente, tratam de resolver um crime diferente, sempre com o objetivo maior de trazer novamente o espectador sete dias depois. Na mesma onda de investigação criminal, chega ao cinema o argentino Tese Sobre Um Homicídio, do estreante Hernán Goldfrid.

Ricardo Darín é Roberto Bermúdez, um professor de direito criminal. Em sua nova turma de pós-graduação, ele terá como aluno Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), filho de um casal amigo. À princípio, os dois se dão bem, mas Roberto começa a suspeitar do outro quando um corpo de uma garota assassinada é descoberto no estacionamento da faculdade.

Logo no início do filme, o personagem de Darín explica que, numa investigação criminal, o juiz deve prestar atenção nos detalhes. O diretor seguirá essa premissa à risca ao marcar, repetidamente, uma série de objetos, com muitos closes. Além dessa marcação um tanto exagerada, Goldfrid aproveita para colocar os atores sob uma lupa, pois não são raros os planos detalhe, em que apenas uma parte do corpo aparece. O recurso é quase didático, escancarando os elementos que serão usados novamente no filme e, no caso dos atores, permite um maior envolvimento com a história. Uma boa sequência é a que se passa no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), onde o diretor aproveita as obras para fazer planos interessantes, criando ilusões de ótica com as obras.

Longe de ser um O Segredo dos Seus Olhos, filme de investigação com Darín que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Tese tem uma trama bem simples e um ritmo de blockbuster hollywoodiano. A técnica hitchcockiana de antecipação do suspense, crucial numa cena lá pela metade da projeção, e a trilha sonora para acentuar esse clima são apenas alguns exemplos do que torna o longa ágil. Num crime onde a polícia não consegue encontrar suspeitos, acompanhamos a jornada de Roberto para provar que o seu aluno é culpado. O roteiro funciona muito bem para tornar a obsessão do personagem plausível e interessante, enquanto o uso dos closes colabora para que o espectador fique do lado de Darín e encaixe as peças do quebra-cabeça da mesma maneira que o personagem.

Darín e Ammann estão impecáveis em seus papéis. O primeiro conduz todo o filme e não titubeia quando a câmera chega perto, para pegar um olhar ou alguma expressão. O outro mantém a dubiedade de parecer ser o assassino e uma pessoa inocente ao mesmo tempo, quase indecifrável. Calu Riveiro, que faz a irmã da vítima, também se destaca.

Mas o clímax do filme é problemático. Pouco empolgante, é o momento em que o espectador começa a questionar toda a investigação feita até então, mais por uma sutil incongruência à respeito de um objeto do que por mérito do roteiro ou da direção. Na tentativa de criar uma reviravolta, o diretor perde um pouco a mão, embora o desfecho seja crucial para que Tese não caia na vala comum dos filmes de investigação.

Tese Sobre Um Homicídio revela uma faceta mais comercial do cinema argentino. Ele não provoca o espectador ao longo da projeção, apenas o vai guiando conforme as teorias e descobertas do protagonista. Só no seu final, em aberto, que o longa lembra que não saiu de uma série de TV e, assim, questiona sutilmente tudo o que foi mostrado anteriormente. Questionamentos que já estavam lá antes, mas o diretor não pois a câmera bem em cima deles para esclarecer.  

Leia sobre cinema argentina na reportagem escrita por Gabriel Fabri, diretamente de Buenos Aires, clicando aqui

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cinema Argentino: "Faltam Mais Vedetes"



Em virtude dessa reportagem ter completado um ano de publicação ontem e do lançamento do filme Tese Sobre Um Homicídio, no dia 26, republico-a aqui. Ela foi realizada diretamente de Buenos Aires, Argentina, para o programa Jornalismo Sem Fronteiras 2012.



Nos festivais de todo o mundo, o cinema argentino se destaca em relação aos concorrentes sul-americanos. Enquanto o Brasil nunca levou um Oscar, a Argentina tem entre suas produções dois grandes ganhadores: A História Oficial, de Luis Puenzo, e O Segredo de seus olhos, de Juan José Campanella. Como Cynara Menezes, da CartaCapital, bem colocou em seu texto, "Os viralatas de celulóide", os brasileiros invejam o cinema dos hermanos – “sentimos vergonha, rimos de nós mesmos”, escreveu a jornalista. No Brasil, cinema argentino é sinônimo de qualidade, boas histórias e, sobretudo, de obra intelectual. Quais seriam as razões do sucesso do cinema argentino? E como os portenhos se relacionam com a sua produção nacional?

UCINE Buenos Aires

Em Buenos Aires, ao redor da Universad del Cine, uma faculdade exclusivamente de cinema, encontra-se um ambiente jovem que contrasta com a arquitetura antiga e parisiense da cidade. Lá, todos tem algo em comum: apreço pela sétima arte. Na livraria especializada, uma estudante de cinema de outra universidade afirmou gostar da produção de seu país. Outro jovem, aluno da Universidad del Cine e fã de David Lynch e Sam Raimi, revelou o que, para ele, é o panorama da produção argentina: uma série de filmes feitos de maneira a arrecadar o máximo gastando o mínimo – desses pouco são “aproveitáveis” artisticamente. Sucesso? Para ele, o cinema argentino está mitificado.

“Você acha que o cinema argentino faz sucesso?”, respondeu ironicamente o diretor dauniversidade, Bebe Kamin, também cineasta, ao ser questionado sobre o tema. Ele explicou que apenas 8% do tempo de exibição das salas argentinas é ocupado com produções do país. Dos filmes produzidos por ano, que alega ser cerca de 100, pouquíssimos tem alguma repercussão comercial ou artística. Só os muito bons, com propostas que interessam e sejam comprometidas com a sociedade, fazem sucesso, o que é muito mais significativo no resto do mundo, do que em seu país de origem. Entre esses filmes estão os de Lucrecia Martel e Pablo Trapero, exemplificou o acadêmico.

A reflexão de Kamin sobre a produção argentina mostra que a situação desse cinema não é tão diferente da brasileira. Há pouco espaço nas salas, influência do filme americano comercial e uma grande quantidade de filmes irrelevantes. Nesse cenário, uma pequena minoria que se destaca pela qualidade ou por construir uma identidade de maneira ousada, assim como no Brasil, onde um exemplo recente é "A Febre do Rato", de Claudio Assis, sem contar os diretores já consagrados, como Walter Salles e Fernando Meirelles, reconhecidos internacionalmente.

Kamin acha que se deve melhorar a política cinematográfica na Argentina. Incentivar a produção não é suficiente: é preciso hierarquizar os projetos, facilitando a produção dos “mais valiosos”. Para Rodrigo Moreno, diretor premiado no festival de Sundance e de Berlim, o maior problema do cinema argentino é também sua maior virtude: não há tradição – os cineastas não têm base sólida para se apoiar. O que resulta em obras que partem de uma realidade que, em sua opinião, não passa de falsa interpretação. Moreno não gosta do cinema argentino em geral e não se inspira nele em suas obras.

Questionado sobre o, assim chamado, “sucesso” internacional dos longas, ele explica que esses filmes pertencem ao ciclo do cinema urbano e de classe média na América Latina, o que chama atenção pois quebra o estigma do cinema latino-americano que só retrata problemas sociais. Sobre a recepção argentina a essas obras, ele pensa que o público é cético em relação a elas, devido ao “espírito argentino individual e crítico”.

Jovens amantes de cinema, como Fabio Fontana, que trabalha num bar na rua da Universidad del Cine, têm opiniões diferentes. Enquanto conversava sobre cinema latino com sua colega uruguaia Andrea Silva, mostrou-se muito mais otimista com a cinegrafia de seu país. Acha que melhorou na última década, mas não por influencia da crise de 2001, e sim porque foi se aperfeiçoando. Ele vê influências do cinema americano, que também evoluiu com o passar dos anos, com “finais abertos, melhor trabalho de personagens e histórias mínimas”. Para ele, o papel determinante para a produção nacional são os festivais estrangeiros – os filmes precisam fazer sucesso fora para impulsionar o público argentino. Enquanto Moreno considera que nessas produções mostra-se uma falsa realidade, Fabio acredita que trazem ensinamentos sobre a vida, por meio dos personagens.



O que falta nas produções argentinas é, para Fontana, mais mulheres ou, em suas palavras, “vedetes”. Ele também quer ver efeitos especiais sendo usados, não em produções megalomaníacas como as hollywoodianas, mas em obras com teor mais artístico, como "O Labirinto do Fauno", do mexicano Guillermo Del Toro. Já a professora brasileira formada em cinema na Universidade de La Plata, Livia Stevaux, acha uma grande falha não se produzirem filmes de ação.

Em entrevista, Stevaux afirmou apreciar muito a produção local, por causa principalmente dos roteiros, cujos diálogos são uma virtude e os personagens são fortes e complexos. Ela aponta para a facilidade em construir histórias que vem da “grande tradição literária e de estudos de narração”. Considera que o cinema argentino faz sucesso pela qualidade desses roteiros, mas admite que é tudo muito relativo: já escutou muitas vezes comentários do tipo “não existe” ou “o cinema nacional é horrível”; entretanto, acredita que a rejeição às produções locais é menor do que no Brasil.

Por fim, é necessário ressaltar os números oficiais : segundo a publicação Haciendo Cine, edição de junho, nos primeiros cinco meses de 2012, estrearam 42 filmes argentinos. Desses, apenas cinco foram exibidos em mais de quarenta salas. Entretanto, isso pode mudar muito em breve: o governo Kirchner, por meio do secretário de comércio Guillermo Moreno, aprovou uma lei que une as grandes distribuidoras cinematográficas e os produtores locais à força – elas serão obrigadas a parar de negligenciar a produção nacional e se comprometerem a dar um novo fôlego para a distribuição do cinema local. Isso tudo pode ser o primeiro passo para a política cinematográfica que Bebe Kamin tanto acha importante.

Conclui-se que, apesar de maior prestígio internacional e nacional, o cinema argentino também passa por problemas semelhantes ao brasileiro. Se esse prestígio pode ser considerado um “sucesso”, a verdade é que há muita divergência a respeito desse tema. Ao estudar esse panorama com os cinéfilos da Argentina, percebe-se que a opinião sobre a produção nacional e seu sucesso não é unanime entre os portenhos.

Gabriel Fabri

Reportagem originalmente publicada nos sites Plano Crítico e Link Consultoria e na revista "Enviado Especial", número 1.

(Em Breve: Tese sobre um Homicídio)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Elefante Branco

     
Em julho de 2012, tive uma oportunidade de viajar a Buenos Aires, Argentina, pesquisar um pouco do cinema local e sua recepção. O resultado de conversas com professores, cinéfilos e cineastas foi uma grande matéria publicada no Plano Crítico (clique para acessar), que conclui que a diferença do cinema brasileiro e argentino não é lá tão abismal quanto a recepção mundial dos dois aponta. Numa das entrevistas realizadas, o cineasta e diretor da Universidad del Cine na cidade portenha, Bebe Kamin, na época apontou Pablo Trapero (Abutres) como um dos grandes nomes da cinegrafia local. O novo filme de Trapero, Elefante Branco (Elefante Blanco), mostra uma outra semelhança entre os dois países, no aspecto social: as favelas.

Na trama, Ricardo Darín (O Segredo dos Seus Olhos) é Julian, um padre que há anos presta serviço social numa gigantesca (e violenta) favela. Preocupado com sua saúde, recruta o francês Gerónimo (Jérémie Renier) para trabalhar com ele e ajudá-lo a levar paz e tranquilidade para o que estima serem 30 mil moradores. Contarão com a ajuda da assistente social Luciana (Martina Gusman).

Filmes que mostram um pouco da rotina das favelas já são conhecidos, como Cidade de Deus e Quem quer ser um milionário?. Tendo em vista isso, a trama é focada nos dramas dos três personagens que dedicam sua vida ao trabalho social nesse ambiente e se sentem frustados com o que conseguem. Trapero abre os olhos do espectador para aqueles que estão nesse ambiente por escolha, com um objetivo difícil de ser alcançado, e mostra os obstáculos na construção de uma obra tocada pelos protagonistas, em meio a conflitos internos e com a polícia, com o governo, com os operários, os moradores e a própria igreja.

A direção é fria, há um grande distanciamento entre o público e os moradores da favela. Isso evidência o caráter rotineiro dos problemas intrínsecos ao ambiente e permite o foco no drama dos personagens principais, mas sem apelar para fortes emoções no relacionamento entre os três. Há uma boa construção de situações envolvendo os protagonistas e o meio em que atuam, entretanto o final, totalmente inesperado, é o que ficará marcado na cabeça dos espectadores. E como todo bom filme, dará uma razoável margem para reflexão.

Elefante Branco traz uma nova abordagem ao tema das favelas. Entretanto, um tema tão próximo da sociedade urbana fica parecendo muito distante, apesar da aproximação do espectador com os personagens principais. Talvez pela falta de mobilização social como a dos personagens, que não conseguem se realizar ao tentar amenizar um problema tão grande. O filme é, em suma, um aviso de quantas partes estão envolvidas nesse problema e precisam mudar de atitude. E no fundo o espectador sabe que é o cidadão, não o da favela mas o de fora, que precisa reivindicar essa mudança.