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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência



Por Gabriel Fabri

Dois homens ganham a vida vendendo diversão para as pessoas. É isso o que afirmam, tristes e sérios, em seus discursos, enquanto vão a todos lugares vender objetos para tornar qualquer ambiente divertido - um saco de risadas, dentes de vampiro e uma máscara bizarra. Ninguém se diverte com esses objetos, que não conseguem quebrar a seriedade, a frieza e a indiferença das pessoas. Chega a ser engraçado o quanto esses produtos não são engraçados - e está aí a essência do humor desconcertante do sueco "Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência", de Roy Andersson, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o prêmio máximo da cerimônia. Um filme com muito humor, mas tão desconcertante, que chega a ser impossível rir, como acontece com os patéticos brinquedos dos protagonistas.



A frieza da maioria das pessoas do filme aparece também na direção. A câmera estática e distante, observando tudo de longe, sem qualquer reação (como o pombo no galho), junto com a fotografia sóbria, com cores apagadas e muitos tons de bege, reforçam essa sensação de uma existência sem brilho, sem vida e sem humor. O longa-metragem não tem uma história propriamente dita. Além das cenas dos dois vendedores, são intercaladas outras situações aleatórias, com uma comicidade que beira o absurdo. Por exemplo, uma das cenas iniciais, em que um homem morre em um restaurante e a única preocupação é quem vai comer a comida que ele acabou de comprar. Ou quando a menina vai recitar o poema que dá nome ao filme e é aplaudida e imediatamente dispensada sem sequer começar a recitar a poesia.

A medida que o filme vai seguindo o seu curso, as situações vão ficando mais absurdas e mais desconcertantes, até atingir a banalidade de uma situação cotidiana, na cena final. "Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência" é, sem dúvidas, um filme difícil, que permite diversas interpretações, para quem se esforçar um pouquinho. Sexo, solidão, homossexualidade, a mesmice das rotinas, a infelicidade do dia-a-dia e, principalmente, a indiferença com o outro são os temas em que o filme toca, sempre de uma maneira negativa. Reparem bem na frase "estou feliz que você está bem" e tente encontrar alguém feliz, ou bem, nesse filme. "Um Pombo..." é, em suma, uma obra para refletir sobre a existência mesmo.

Vale ressaltar que o filme é o terceiro de uma trilogia, composta por "Songs from the second floor", exibido no Festival de Cannes em 2000, e "Vocês, os vivos", exibido em Cannes em 2007. 


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

38a Mostra Internacional de Cinema



Confira alguns filmes que estão sendo exibidos na 38a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Leia mais críticas de filmes da programação clicando aqui


  • Winter Sleep
Ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes, "Winter Sleep" desponta como um dos mais aguardados da Mostra. A expectativa pode frustar alguns dos espectadores, porém. Na trama, um homem idoso administra um hotel com a sua irmã e a sua jovem esposa. Durante o tédio do inverno congelante, as desavenças entre os três tornam o clima ainda mais desagradável para os personagens. O longa-metragem se destaca pelos diálogos afiados, que chegam a durar minutos. São eles o trunfo que torna agradáveis as mais de três horas de filme, em que praticamente nada acontece. Apesar disso, falta um tempero a mais na história, pois a narrativa é muito convencional, sem grandes surpresas.

  • Pássaro Branco na Nevasca
Estrelado pela atriz Shailene Woodley, protagonista dos filmes "A Culpa é das Estrelas" e "Divergente", "Pássaro Branco na Nevasca" é um filme adolescente com toques de mistério. A atriz, carismática, e a montagem do filme, que vai adicionando novos detalhes a cada flashback, tornam o filme envolvente. O desfecho é surpreendente, mas o clímax deixa bastante a desejar. A trama é simples: a mãe de Katrina misteriosamente abandona a família. Agora, ela e o seu pai precisam continuar com as suas vidas, sem saber ao certo o que aconteceu com Eve (Eva Green). 


  • Livre
Do mesmo diretor de "Clube de Compras Dallas", "Livre" traz Reese Whiterspoon no papel de Cheryl, uma mulher que, diante da necessidade de recomeçar a sua vida, resolve percorrer uma trilha de quase dois mil quilômetros, a Pacific Crest Trail. Além da boa atuação de Whiterspoon, o filme tem um roteiro envolvente e simpático. Não é nada imperdível, mas quem espera uma espécie de "Comer, rezar e amar" na natureza, não vai se decepcionar.

  • 3 Belezas
Longa-metragem venezuelano, "3 Belezas" mostra o cotidiano de uma família humilde, liderada por uma costureira, mãe de um garoto e duas meninas. O sonho da chefe da família é ver uma de suas filhas se tornar Miss Venezuela. O filme assusta com as atitudes e discursos dessa personagem, que oprime a infância e até a vida adulta das crianças, ensinando-as como se comportar como uma miss - aprenda a mentir; não confie em ninguém; o que importa para o sucesso da mulher é a beleza; coma o que quiser, mas vomite depois. Além da educação voltada aos valores mais superficiais em voga, o filme alfineta também dogmas religiosos. O final é uma boa e irônica sacada. 


  • Hermosa Juventud
A grave crise na Espanha varreu as oportunidades de emprego do país, principalmente para os mais jovens. "Hermosa Juventud" faz um retrato atual das dificuldades de um casal de namorados em arrumar um emprego, para ajudar no sustento das famílias. A situação piora quando a moça engravida. Essa produção de baixo orçamento é bem intencionada e consegue retratar uma juventude sem rumo, sem perspectivas de vida e sem o que fazer. Entretanto, seu enredo é pobre e superficial e o roteiro é de testar a paciência do espectador. Recursos como as conversas de Whatsapp na tela, por exemplo, também cansam. Se a questão do pornô, como uma única saída rentável nos tempos atuais, fosse melhor aproveitada, o resultado poderia ser diferente.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Acima das Nuvens



Esse filme faz parte da programação da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Veja mais filmes da programação clicando aqui

Por Gabriel Fabri

Dirigido por Olivier Assayas ("Depois de Maio"), "Acima das Nuvens" transporta o espectador para a região de Sils Maria, na Suíça, carinhosamente apelidada de "o canto mais famoso da terra" por Nietzsche. Na viagem de trem para receber um prêmio, a atriz Maria Enders (Juliette Binoche) recebe a notícia de que o seu amigo de longa data, um dramaturgo renomado, faleceu durante uma caminhada nos Alpes. No jantar de entrega do prêmio, recebe uma proposta: reencenar uma peça do falecido que trata sobre um romance entre uma mulher adulta e uma adolescente. Vinte anos depois de ter se consagrado interpretando a personagem mais nova, ela agora deve assumir a personagem mais velha, com a qual não se identifica. 



A obra trabalha a questão do tempo e as tentativas de uma atriz que já teve os seus dias de glória e que agora reluta com sua perda de prestígio por ser considerada "velha". Enquanto o próprio dramaturgo falecido havia trazido às suas últimas peças um tom mais sombrio e melancólico, ela começa a sentir na pele, aos poucos, o peso de sua idade, e essa mesma melancolia.

A dualidade entre juventude e amadurecimento está presente na peça que Maria deve reencenar, e esse texto fictício acaba se misturando com a realidade da personagem. É na segunda parte, quando o inverno cessa e o branco dos alpes é substituído pela vegetação, que a personagem de certa forma renasce, curiosamente no mesmo período em que essa dualidade está mais presente. É quando a atriz ensaia os calorosos diálogos da peça com a jovem Valentine (Kristen Stewart), sua assistente pessoal, e o público percebe o quanto o texto teatral diz sobre essas duas personagens. Os ensaios se confundem com a realidade, e os personagens da peça se confundem com os do filme. Mesmo que Maria alegue não ser homossexual, a pulsão entre as duas se acentua, diante da atração entre o velho e o novo, o adulto e o jovem. Na primeira parte do filme, Maria é uma atriz amargurada; na segunda, é a hora em que ela se dá conta disso, com o reencontro com o texto que marcou o seu passado e com a aproximação que tem com Valentine. O filme acompanha essa mudança de tom, com a mudança da paisagem e a inserção de trilha sonora.

Com uma excelente performance de Juliette Binoche,  "Acima das Nuvens" funciona bem até o seu epílogo, quando o filme resolve focar na relação de Maria com Jo-Ann (Chloë Grace Moretz), a atriz que assumiu o papel que há vinte anos era o dela. Apesar de amarrar algumas pontas e deixar uma mensagem mais clara no final, o longa-metragem perde um pouco de sua força, cujo ápice, no final da segunda parte, traz a tal "Serpente de Maloja", um fenômeno com as nuvens da região, e um desfecho mais aberto.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Relatos Selvagens



Esse filme faz parte da programação da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Veja mais filmes da programação clicando aqui


Por Gabriel Fabri

Escolhido para abrir a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o representante argentino na corrida do Oscar 2015, "Relatos Selvagens", traz seis esquetes com histórias sobre pessoas que, por motivos diversos, perdem o controle diante de uma situação. Com produção de Pedro Almodóvar e de seu irmão, essa comédia de humor negro é dirigida por Damián Szifron.



A história que abre o filme é de longe a mais cativante de todas. O que era uma conversa corriqueira dentro de um avião, logo se transforma em uma situação inimaginável e muito divertida. "Relatos Selvagens" segura a atenção por mais duas histórias, uma que se passa numa lanchonete e outra em uma estrada. Com toques de melodrama, na primeira, e de suspense, na seguinte, Szifron envolve e choca o público, com uma ironia mordaz. 

Em seguida, a esquete estrelada por Ricardo Darín coloca o personagem do ator frente às frustrações do dia-a-dia, com o trabalho, a família, o trânsito, os impostos e, principalmente, o guincho. Aqui, o filme diminui o ritmo e também as doses de absurdos, em comparação com as outras histórias, mas a irônica surpresa do desfecho compensa a quebra na adrenalina proporcionada por essa esquete. Darín se destaca mais uma vez em sua atuação e o filme agrega novas camadas às principais questões da obra, como a vingança, por exemplo. É o episódio que mais se parece com o humor refinado de muitas comédias argentinas exibidas em festivais ao redor do mundo. 

A comédia dá lugar a um suspense político e policial na penúltima esquete, que destoa completamente do resto do filme, a não ser pela aproximação com o tema da vingança, aqui colocado frente a frente com o da tema da "justiça". O absurdo e o humor das outras esquetes são ausentes nesse episódio, e o choque se dá pelo realismo de toda a situação. É interessante, mas parece um peixe fora d'água. 

Por fim, o humor negro e as situações absurdas retornam na divertidíssima esquete final, que encerra o filme com chave de ouro. "Relatos Selvagens" tem um bom roteiro, com bons momentos de comédia, mas é uma obra um tanto irregular, principalmente por conta da penúltima esquete. Entretanto, não é sempre que vemos o cinema argentino, sempre muito cuidadoso com os diálogos e um humor sutil, com o universo hiperbólico de Almodóvar.

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