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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Joy: O Nome do Sucesso



Após duas parcerias com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, em O Lado Bom da Vida e Trapaça, o diretor David O. Russell retorna com o seu bem-sucedido time de atores em Joy: O Nome do Sucesso, um ponto fora da curva na carreira de prestígio do diretor e de seu time de estrelas, que inclui também o veterano Robert De Niro. O longa-metragem escorrega com uma quantidade imensa de personagens mal aproveitados e um enredo pobre e sem sal. 



O filme é inspirado na história de vida da empresária e inventora Joy Mangano, com foco no desenvolvimento de sua primeira invenção, o Miracle Mop ("Esfregão milagroso", em português). A criação, lançada há 25 anos, permitiu que Joy se tornasse um case de sucesso do empreendedorismo norte-americano: hoje ela possui a patente de mais de cem produtos, incluindo os cabides Huggable Hangers, o artigo de maior venda da história da HSN (canal de televisão destino a venda de produtos). 

Mas nem sempre foi assim: no longa-metragem, Joy (Lawrence) tivera que abandonar os estudos para cuidar da mãe (interpretada por Virginia Madsen), que passa o dia trancada no quarto vendo novelas, e para tocar os negócios do pai, que tem uma oficina de carros. Além disso, ela tem que lidar com a presença constante do seu ex-marido, que está hospedado no porão da casa; com os afazeres domésticos; e, ainda, precisa cuidar dos dois filhos - tudo isso, é claro, sem dinheiro. Para completar, seu pai (De Niro) resolve voltar para a casa dela, pois está sem lugar para morar após terminar outro casamento.

Os últimos dois filmes do diretor foram marcados por personagens meio loucos e extravagantes. Aqui, Lawrence não repete o papel de desequilibrada: são os pais de Joy que são meio fora dos trilhos. Talvez por isso, essa seja a atuação menos impressionante da atriz, que ganha aqui um papel menor, apesar de ser ela a principal do filme e ter sido premiada no Globo de Ouro. Os personagens de De Niro e Madsen são muito mais interessantes e o longa-metragem poderia ser muito melhor se soubesse explorá-los com mais profundidade – eles são o único alívio cômico do filme, afinal, algo muito bem trabalhado em Trapaça e O Lado Bom da Vida, mas que aqui fazem falta. Por exemplo: quantas situações o roteiro, assinado por Russell e Annie Mumolo, poderiam ser criadas apenas a partir do fato de que o personagem de De Niro e o seu ex-genro são obrigados a viver juntos no porão? No início do filme, quando Joy divide o cômodo ao meio com um rolo de papel higiênico, a situação para a comédia, para o drama ou para a tragédia entre aqueles dois antagonistas está montada. Entretanto, aquilo não resulta em nada concreto para a trama.

O roteiro não só esqueceu a situação do pai e do ex-marido de Joy no porão, como criou um monte de personagens sem sal. A vilã do filme – a meia-irmã de Joy – sequer existiu na vida real. Para o que ela serve na trama? A avó, a narradora, também parece perdida no meio de tanta gente. E o encanador, bom, também está lá perdido nessa história, assim como a novela que passa na TV, completamente desconectada da trama.

Joy: O Nome do Sucesso sofre com o excesso de personagens – o que é uma pena, pois Russell se destacou anteriormente pela direção de atores e, em O Lado Bom da Vida, mesmo com um grande time de atores disputando uma mesma cena, conseguiu um resultado excelente. Aqui, o diretor se perde, e o filme resulta tão desinteressante quanto a programação de vendas da televisão.

O descaso com os coadjuvantes tem outro efeito grave: ele torna excessivo o foco na personagem de Lawrence. Talvez tenha a ver com o fato de que uma das produtoras do filme seja a própria Joy Mangano, o que torna compreensível que o longa-metragem, quando parece que vai acabar, dá um salto desnecessário para mostrar o quão incrível foi o futuro de Joy, a grande heroína do filme. Suspeito, para dizer o mínimo. Mas vale ressaltar que o diretor considera a personagem de Lawrence uma mescla da verdadeira Joy com todas as grandes mulheres da sua vida, o que é uma perspectiva interessante de olhar a personagem. 

O longa-metragem tem êxito em pelo menos uma coisa: além de ressaltar a injustiça que é designar às mulheres o papel de "dona de casa", ele mostra a importância da família para a realização pessoal do indivíduo. Afinal, embora seus familiares tenham atrapalhado mais do que ajudado, Joy não fez tudo sozinha. Poderia ter sido mais fácil com o apoio deles, mas talvez nada teria acontecido se ela não tivesse uma sala de estar abarrotada de gente para ver o seu esfregão sendo anunciado na TV.  

| Gabriel Fabri

Em tempo, no Youtube é possível ver a verdadeira Joy anunciando a sua primeira invenção:



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Grande Aposta



Títulos subprime, CDOs, derivativos e CDSs são alguns dos conceitos econômicos usados na explicação para a crise do sistema imobiliário norte-americano de 2008, que abalou a economia mundial, gerando desemprego e criando uma recessão cujos efeitos são sentidos até hoje. O excelente documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson, já tratou de explicar como a ganância dos homens de Wall Street, a desregulamentação do setor financeiro e a negligência do governo dos EUA e das agências de risco (que atribuíam risco zero - a nota máxima AAA - a títulos que não valiam nada) destruíram o sistema hipotecário nos Estados Unidos e fizeram o mundo todo pagar a conta. Em A Grande Aposta, longa-metragem dirigido por Adam McKay e indicado a cinco Oscars (incluindo Melhor Filme), a crise é explicada por meio da história real de pessoas que previram a quebra do sistema e, como bons capitalistas, resolveram lucrar com isso.



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  • Baseado no livro A Queda de Wall Street, do jornalista Michael Lewis (autor dos livros que inspiraram Um Sonho Possível e O Homem Que Mudou o Jogo), o filme traz personagens um tanto excêntricos, como Michael Burry (Christian Bale) e Steve Eisman (Steve Carell), dois homens que resolvem investir milhões no colapso do sistema imobiliário norte-americano, considerado um dos mais seguros do mundo (afinal, quem não paga as suas hipotecas?). Brad Pitt e Ryan Gosling completam o elenco. 

    O tema é confuso e complexo, mas o filme de McKay consegue aproveitar isso a seu favor: com humor, coloca a atriz Margot Robbie na banheira para explicar que toda vez que a palavra "subprime" é mencionada, ela significa "merda"; um chef famoso, comparando os títulos que os bancos vendiam a uma sopa de frango velho; ou uma participação mais que especial da cantora e atriz Selena Gomez, explicando a crise em uma metáfora do jogo de Poker. Para o mecanismo da crise e a sua perversidade ficarem claros, o longa-metragem coloca interrupções em que os personagens dialogam com o público, por exemplo. Ou frases de efeito - a mais engraçada, "a verdade é como poesia. Quase todo mundo odeia poesia", soa tão espontânea e sincera que pode arrancar gargalhadas da plateia.

    Mas o filme não é uma comédia, e apesar de se esforçar em ser didático, acaba não sendo muito, uma vez que o tema é realmente muito complexo - e o longa-metragem não é um filme sobre economia. Na essência, estão homens infelizes e gananciosos que desprezam Wall Street e, mesmo assim, agem de acordo com as regras do jogo, visando o lucro pelo lucro, comemorando que estavam certos sobre o sistema fraudulento das hipotecas e o aumento da inadimplência (falta de pagamentos das prestações hipotecárias de suas casas). Mas a obra tem um tom melancólico e político, de que algo muito injusto aconteceu (os pobres, os imigrantes e até os professores foram considerados os culpados pela bagunça dos outros), pelas mãos de muitas pessoas inconsequentes. E não havia muito o que se fazer: tudo o que está ao alcance desses personagens é lucrar com o declínio dos outros. 

    O mérito de A Grande Aposta, apesar de exagerar um pouco na caracterização de seus personagens, em especial no de Carell, é dar uma dimensão mais humana da crise, tentando focar mais em seus personagens do que no sistema: é emblemática a cena em que Eisman conversa com os homens que concediam os empréstimos às pessoas que não poderiam pagar, para ganhar os recheados bônus. Ou quando uma funcionária de uma agência de risco, a Standard & Poor's, é confrontada sobre porque os títulos subprime continuam classificados como AAA: "Se a gente não der, eles viram à esquina e vão na Moody's", afirma a personagem (nada sutilmente caracterizada com óculos escuros que a cegam), em referência à agência de classificação de risco concorrente da Standard. 

    Entretanto, a complexidade do pano de fundo do filme, a crise, pode em alguns momentos dar um nó na cabeça do espectador, que corre o risco de, tentando entender os detalhes, perder a atenção (ou o interesse) nesses personagens. O filme poderia, em algum momento, retomar explicações anteriores - afinal, fazem sete anos que a bolha imobiliária estourou, mas seu mecanismo ainda não é compreendido por todos. Não o faz. Isso não tira o mérito da obra, que exige bastante do espectador, o que é bom por outro lado.

    terça-feira, 12 de janeiro de 2016

    Carol



    Longa-metragem líder em indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA, Carol retrata um romance entre duas mulheres nos Estados Unidos da década de 1950. Ambientado em uma sociedade que considerava homossexualidade como algo "imoral", a obra constrói com delicadeza e muitas nuances o conflito interno das personagens na escolha entre ceder ao próprio desejo ou se curvar diante das exigências do conservadorismo e do machismo em voga. A direção é de Todd Haynes, responsável pela minissérie Mildred Pierce, da HBO.  



    Na trama, inspirada no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith, escrito em 1952 (época em que se passa o filme), Carol (Cate Blanchett) enfrenta um processo de divórcio, onde terá que ser decidida a custódia de sua filha pequena. Ao tentar comprar um presente de natal para a menina, a sua atenção é despertada por uma vendedora da loja, Therese Belivet (Rooney Mara). As duas começam um relacionamento que, pouco a pouco, parece se inclinar a algo maior do que uma amizade.

    A direção de Haynes acerta em construir o romance de Carol e Therese aos poucos, causando certa angústia no espectador, que sente a química entre as duas logo no primeiro encontro delas. Equilibrando ternura e tensão, Rooney Mara brilha na pele da garota tímida que nunca sequer sonhou com um relacionamento homossexual e, de repente, se vê tentada a cruzar as barreiras sociais e parar de aceitar o que lhe é imposto. Sua atuação discreta e comovente é o ponto alto do filme, que também tem outra excelente atuação de Cate Blanchett. Carol é uma personagem melancólica, que não perde a pose de mulher durona, mas que parece definhar por dentro, e Cate consegue transmitir isso, sutilmente, em seu trabalho. 

    Delicado e envolvente, Carol encontra o ritmo certo para o romance, sem deixar de lado as questões sociais. As atuações são o ponto alto, mas não é só isso que é bom. A cena final, por exemplo, é muito simples, mas chega a ser estranhamente magnífica.

    Vale a pena um adendo sobre a autora do livro, publicado no Brasil pela L&PM sob o nome Carol. Antes de The Price of Salt, ela escreveu Strangers on a Train, livro que deu origem à Pacto Sinistro, um dos melhores filmes de Alfred Hichcock. Também é autora de O Talentoso Ripley, que foi adaptado para os cinemas duas vezes, por René Clément m 1960 e por Anthony Minghella em 1999.

    | Gabriel Fabri 

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    terça-feira, 8 de dezembro de 2015

    Olhos da Justiça


    Ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, o argentino O Segredo dos Seus Olhos, longa-metragem de Juan José Campanella estrelado por Ricardo Darín, ganhou uma refilmagem hollywoodiana. Trata-se de Olhos da Justiça (que em inglês manteve o título original Secret in Their Eyes), com direção de Billy Ray, roteirista de filmes como Jogos Vorazes e Capitão Phillips. Embora remakes de filmes estrangeiros recentes tenham fama de servirem apenas para lucrar mais em torno de uma boa história no mercado norte-americano, o longa-metragem de Ray faz mudanças interessantes com relação a obra original. 



    Muitas cenas, piadas e a reviravolta do desfecho continuam as mesmas na nova versão, mas há algo substancialmente diferente no remake. A vítima do estupro seguido de assassinato não é mais a esposa de um homem comum, e sim a filha de Jess (Julia Roberts), uma colega de trabalho e grande amiga de Ray (Chiwetel Ejiofor). Os dois trabalham juntos em uma célula anti-terrorista da polícia de Los Angeles. Pelas fotos de um churrasco do departamento, Ray identifica o principal suspeito: um informante da unidade sobre as atividades de uma célula terrorista da cidade. Estamos aqui em 2002, quando o 11 de Setembro ainda era uma ferida muito aberta no cotidiano do mundo inteiro, em especial nos Estados Unidos. 

    Só o fato do investigador estar emocionalmente envolvido com a mãe da vítima (e, por sinal, conhecer bem a menina assassinada), já é um ponto que agrega à trama e aos personagens nessa nova versão. Além disso, Jess e Ray trabalham juntos, o que torna também mais interessante as relações de Ray com a nova garota do departamento, a elegante Claire (Nicole Kidman), e toda a condução da investigação. O trio tem química e os personagens funcionam bem - Roberts, no papel da mãe abalada com a morte da filha, entrega uma excelente atuação, enquanto Kidman surpreende em uma cena que é praticamente idêntica à do longa-metragem original: o interrogatório do principal suspeito, após ela perceber que ele, nada indiscretamente, observa o decote de sua blusa. 

    Outra mudança interessante é que, no presente, Ray resolve reabrir as investigações. Ou seja, nada de breves reflexões sobre o passado para escrever um livro. Há ação também no presente, sim, com as pistas de um novo suspeito, que a intuição do protagonista indica ser o assassino que deixaram escapar 13 anos antes. Muitas feridas sendo reabertas, com Jess, a mãe da vítima, acompanhando de perto o caso. Detalhes que tornam o desfecho e a sua reviravolta ainda mais impactantes.

    Quem assistiu a O Segredo de seus Olhos pode reclamar da falta do humor argentino - que bom que não quiseram copiá-lo! - ou talvez da falta de sutileza da versão norte-americana. Afinal, o detalhe do título, os flertes, os olhares nas fotos, que no filme de Campanella são tão marcantes em alguns momentos não estão presentes aqui, assim como a cena poética do trem, da despedida. Mas tudo bem: embora tenha uns exageros estranhos (Uma stripper com quadros gigantes de peitos em sua casa? Um policial manco que se atira de uma altura ridiculamente alta para forçar algum humor?), Olhos da Justiça tem as suas qualidades. Funciona muito bem, principalmente para quem não viu o filme argentino e não sabe, ou esqueceu, a surpresa que o aguarda no final.

    | Gabriel Fabri

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    quarta-feira, 23 de setembro de 2015

    A Pele de Venus


    Por Gabriel Fabri

    Após adaptar a peça Deus da Carnificina, da francesa Yasmina Reza, no filme de mesmo nome estrelado por Kate Winslet e Jodie Foster, o cineasta polonês Roman Polanski, responsável por clássicos como O Bebê de Rosemary e Chinatown, continua debruçado no universo teatral em A Pele de Venus, o seu mais novo longa-metragem. Agora, o diretor explora os bastidores de uma audição de uma peça, inspirada no conto de 1870 Venus in Furs, de Leopold von Sacher-Masoch.



    Após um dia fracassado de testes para encontrar uma protagonista para o seu espetáculo, o diretor teatral Thomas (Mathieu Amalric) recebe uma visita inesperada de Vanda (Emmanuelle Seigner, esposa de Polanski), uma atriz atrasada para os testes. Apesar de se irritar com a persistência da mulher, ele a permite fazer a audição. Quando ela começa a sua atuação, ele se surpreende com o seu desempenho, e os dois, entre as mais diversas discussões sobre o texto e sobre as motivações de Thomas, fazem uma leitura da obra de Sacher-Masoch. Uma curiosidade: o sobrenome deste autor, por conta do conteúdo sexual de Venus in Furs, inspirou a palavra "masoquismo". 

    Repetindo o feito de Deus da Carnificina, em que uma simples sala de estar virou palco para as mais interessantes discussões, Polanski constrói uma história envolvente em cima da obra de Sacher-Masoch, ao colocar os únicos dois atores do filme para discutí-la e encená-la. Como se pode esperar, os personagens do filme e do livro se misturam. No fim das contas, o roteiro transcende o conto do autor ao abordar temas como a arte e o feminismo. 

    As diversas atuações de Emmanuelle Seigner impressionam, uma vez que sua personagem vai revelando muitas facetas ao longo da projeção. Embora às vezes a atriz pareça estar acima do tom, um tanto exagerada, isso acaba colaborando com o caráter onírico de sua personagem, que pode até não ser real. Afinal, ela tem o mesmo nome da protagonista, sabe todas as falas, sabe tanto sobre Thomas, que uma das leituras possíveis é a de que ela, na verdade, está na cabeça do protagonista. 

    Mas essa é apenas uma leitura de tantas que A Pele de Venus traz, um filme complexo, que exige uma reflexão mais apurada sobre o que é apresentado. O que deve provocar mais discussões é a grande sacada do filme, que inverte os papéis do homem e da mulher, como descritos por Sacher-Masoch, abrindo o leque de interpretações para o longa-metragem. Alguns poderão identificar uma atitude feminista do diretor, ao aparentemente endossar a tese de Vanda de que a história de Sacher-Masoch é machista e sexista. Por outro lado, o que Polanski parece estar fazendo aqui, e que é endossado pelo discurso de Thomas, é uma crítica a essas leituras sociais dos filmes. Ao colocar o homem como o submisso da história, o diretor surpreende. E ao mesmo tempo em que mostra que no conto de Sacher-Masoch, que representa uma espécie de fetiche de Thomas, a mulher no fim das contas era vista como dependente ou submissa do homem, ao inverter os papéis, o diretor mostra não ver problema algum com isso. Na vida real, essas relações de dominação/submissão, tiradas do contexto do sadomasoquismo em que isso é um fetiche, são ridículas. Mas um filme é só um filme e não existem regras para as narrativas, ou pelo menos, não deveriam existir. 

    Em suma, Polanski entrega uma narrativa em que o homem é fraco, submisso, dependente, diante de uma mulher determinada, manipuladora e misteriosa. É uma total e positiva inversão de papéis, de fato. O mais curioso de pensar em A Pele de Vênus é que: qual o problema de se ter um personagem homem com essas características? Nenhum. Logo, porque o contrário seria um problema também? Mais do que uma problematização política, A Pele de Vênus aparece mais como uma defesa da arte e da liberdade artística, frente ao politicamente correto em voga hoje, do que um tentativa de "moralizar" uma obra do século XIX, apontando os seus "...ismos".

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    quinta-feira, 10 de setembro de 2015

    Nocaute


    Por Gabriel Fabri

    Filmes sobre boxe costumam render performances "oscarizáveis" e bons dramas. Vide os premiados Menina de Ouro e Foxcatcher, longas-metragens de altíssimo nível, em todos os sentidos. Dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), Nocaute não tem uma trama lá tão criativa, mas pode figurar facilmente no hall dos grandes filmes que tem como pano de fundo esse violento esporte. 



    O mérito de Fuqua é que desde a primeira cena até o terceiro ato do filme, Noucaute prende a atenção com muita facilidade. O grande Billy Hope (Jake Gyllenhaal, de O Abutre), campeão invicto, ameaça amargar a sua primeira derrota, em um conflito violento no ringue. A narração do comentarista e os olhares aflitos de sua esposa Maureen (Rachel McAdams) contribuem com o suspense e, logo na primeira cena, o público está ganho, pois, além da sequência ser emocionante, fica claro que daquele momento em diante o personagem irá ladeira abaixo. E isso não tarda a acontecer. Fora do ringue, Hope é nocauteado sem dó pelos acontecimentos da vida.

    O sobrenome do protagonista, Hope, quer dizer em português "esperança". Não é a toa que temos aqui uma história em que o personagem chega ao fundo do poço e tenta dar a volta por cima. Se a esperança é a última que morre, essa é a essência do filme. O arco narrativo mostra a destruição rápida do boxeador, e a sua lenta recuperação - ou, tentativa de.

    Com atuação excelente de Gyllenhaal, e o bom reforço da atriz Clare Foley, no papel de sua filha, o filme acerta a mão e convence, trabalhando bem a história e os personagens. A melhor cena do longa-metragem é, justamente, uma briga entre os dois - alias, a tentativa de reconquistar a filha é o que torna Billy um personagem tão carismático diante do público. Um filme sobre família, portanto. A falsa família, representada pelo personagem do 50 Cent, e a família real, aquela que vale a pena lutar. 

    Não há nada muito de inovador nessa trama, principalmente ao colocar como clímax uma luta (a do início foi muito mais emocionante, embora a atuação de Foley nessa cena, assistindo a luta, dê um tempero a mais), mas Nocaute impressiona. Poderia também ter trabalhado melhor a questão da vingança, que fica em segundo plano, mas nada que atrapalhe o filme. 

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    quarta-feira, 19 de agosto de 2015

    O Julgamento de Viviane Amsalem


    Por Gabriel Fabri

    Assistir a O Julgamento de Viviane Amsalem é um choque cultural logo na primeira cena. É apresentado o início de um julgamento, em um tribunal israelense, onde uma mulher entra com o pedido de divórcio, que não é aceito pelo marido. A revoltante sequência inicial dá a prévia do que veremos ao longo de toda a projeção: um retrato de uma sociedade machista, em uma corte totalmente subordinada aos preceitos e preconceitos religiosos. 


    O longa-metragem é totalmente ambientado nessa corte e o público acompanha todas as cenas de um julgamento que dura mais de anos. É um caso nada complicado: Viviane (Ronit Elkabetz) quer apenas se divorciar, pois está infeliz no casamento. Nem sequer mora mais com Elisha (Simon Abkarian), seu marido. O homem simplesmente não quer deixá-la ir embora e, para piorar, os juízes fazem de tudo para dificultar a emancipação da mulher. 

    Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o longa-metragem expõe o desrespeito pelo qual a mulher é tratada, com base na religião. O filme provoca no público uma vontade de bater em todos os personagens masculinos, com exceção de Carmel (Menashe Noy), o advogado de Viviane. Mas a plateia não pode gritar e dar chilique, devendo acompanhar todo o lento processo de julgamento que, sob a direção da atriz principal e Shlomi Elkabetz, mantém o público vidrado com os argumentos dos dois lados e dos juízes. Além, é claro, dos interrogatórios das testemunhas, que enriquecem bastante o filme.

    Além de falar sobre a condição da mulher, O Julgamento de Viviane Amsalem também é um alerta sobre os perigos da mistura entre Estado e religião. Um julgamento justo teria encerrado a questão rapidamente. Mas não, e Viviane passa por todo o tipo de humilhação naquela salinha. Para piorar, os juízes são tão tontos que conseguem até cair em um truque dos mais baixos do advogado de Elisha, que tenta insinuar uma relação adulterá entre Viviane e Carmel, em uma das milhares de tentativas de desviar o foco da discussão. É um filme duro, mas necessário. 

    segunda-feira, 20 de julho de 2015

    Jogada de Mestre


    Por Gabriel Fabri

    O sequestro que, até então, pediu o maior valor para um resgate já pago. O dinheiro, 35 milhões de dólares, que hoje, mais de trinta anos depois, ainda não foi recuperado por inteiro. Isso não significou que o crime, realizado por um grupo de cinco amigos, todos amadores se tratando de sequestros, tenha sido bem sucedido ou, tampouco, uma "Jogada de Mestre" ("Kidnapping Mr. Heineken"), como afirma o irônico título nacional do filme dirigido por Daniel Alfredson, diretor dos últimos dois filmes da trilogia sueca "Millennium". 


    O longa-metragem conta a história do sequestro do presidente da marca de cerveja Heineken, ocorrido em Amsterdam no ano de 1982. Um grupo de jovens se dá conta de que não possuem mais nada de valor na vida do que a sua liberdade e resolve apostá-la nesse sequestro - uma aposta bastante alta para um bando de principiantes no mundo do crime. Logo, eles descobrem que o mais difícil não era roubar um banco ou sequestrar um dos homens mais ricos do mundo - e sim, o que fazer quando não há mais volta, com o milionário, interpretado por Anthony Hopkins, em cativeiro. 

    "Jogada de Mestre" tem um desempenho satisfatório na condução da história, que consegue segurar a atenção do espectador, mesmo com o roteiro e personagens fracos. Os conflitos entre os sequestradores parecem batidos, não empolgam muito, principalmente pois fica difícil criar alguma empatia com eles - são muitos personagens, todos parecidos e pouco interessantes. O personagem mais marcante ali é mesmo a vítima do sequestro, mas mesmo com um ator experiente como Hopkins, a melhor cena dele são alguns instigantes flashes na abertura. O filme diverte, mas, ao final, o envolvimento é tanto que pouco importa quem vai se safar ou não desse crime mirabolante.  Faltou um tempero.

    Um diferencial, entretanto, é que em "Jogada de Mestre" o público não acompanha a investigação da polícia sobre o caso. Enxerga tudo, portanto, da perspectiva dos criminosos. Por isso, seria tão importante que os sequestradores fossem melhor trabalhados nesse longa-metragem. Criar confusão por causa de uma folha de papel em uma copiadora, por exemplo, é fraco demais para um filme "de mestre". 

    terça-feira, 14 de julho de 2015

    Uma Nova Amiga




    Por Gabriel Fabri

    A primeira cena de Uma Nova Amiga, novo filme de François Ozon (Jovem e Bela, Potiche - Esposa Troféu), causa certo estranhamento. Laura (Isild Le Besco) parece preparar-se para o seu casamento. A maquiagem, o vestido e a marcha nupcial indicam isso. Entretando, o público logo percebe que ela está, na verdade, dentro de um caixão. E a cena da Igreja que vemos em seguida não é a cerimônia do matrimônio, mas sim, um velório.


    Lá, Claire (Anaïs Demoustier) faz um discurso emocionado em homenagem a falecida, sua melhor amiga desde a infância. Em flashbacks, o público rapidamente entende a relação das duas, com Claire sempre à sombra de Laura. Fica claro, a partir daí, que Uma Nova Amiga poderá ser um drama um pesado, uma vez que sua protagonista teria que superar um luto de uma amiga tão próxima, uma relação de amizade, adoração e até um pouco de submissão, quase como a sua segunda metade. 

    Errado. O filme de Ozon segue por um outro caminho - a superação do luto de Claire começa por uma nova amizade: uma aproximação com David (Romain Duris), o marido da falecida. Ao visitá-lo, Claire acidentalmente descobre um segredo do homem, que ele gosta de se vestir de mulher. Flagrado com as roupas de Laura, David acaba sendo incentivado a não mais reprimir o seu lado travesti, se tornando Virginia, a nova melhor amiga de Claire. 

    Homens travestis raramente são alçados a protagonistas nos cinemas. Aqui, Duris brilha no papel do pai de família que, ao perder a esposa, busca consolo liberando algo que sempre reprimiu. Mas ao falar de amizade, de luto e da identidade de gênero, Uma Nova Amiga não cai na comédia pastelão e nem em um drama hardocore - fica um filme leve e que vai, aos poucos, surpreendendo com o desenrolar da trama. E o grande exito se deve porque o filme não brinca só com a sexualidade de David/Virgina, e sim com a de Claire também. Afinal, o que Claire realmente sentia por Laura? Pode a amizade dela com Virginia chegar próxima da relação com a falecida?

    Ao brincar com a complexidade da sexualidade humana, Uma Nova Amiga levanta uma série de questões, mexe com tabus, e resulta em um longa-metragem delicado e bastante interessante. Vale a pena assistir.      


    quinta-feira, 2 de julho de 2015

    Os Olhos Amarelos dos Crocodilos


    Por Gabriel Fabri

    Até onde você iria pela sua irmã que sempre roubou os holofotes de você? No drama francês Os Olhos Amarelos dos Crocodilos, Josephine (Julie Depardieu) usou todo o conhecimento adquirido na sua especialização em história do século XII para escrever um livro best-seller - o problema é que a obra sairia assinada por Iris (Emmanuelle Béart), sua irmã, e não por ela. 



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  • Focado (bom, pelo menos, foi o que tentaram) no relacionamento conturbado entre as duas, o longa-metragem dirigido por Cécile Telerman (Algo Que Você Precisa Saber) possui uma série de subtramas paralelas. O relacionamento de Josephine com suas filhas, com o marido que a deixou para criar crocodilos na África do Sul com a amante, com o marido da irmã, com um moço que ela conheceu na biblioteca, com a sua mãe, que deixa claro que ela é a filha fracassada. Tem ainda o caso do marido da mãe com a secretária, o suposto caso do esposo de Iris, o problema do desemprego, da empresa da família, etc. 

    A trama de Os Olhos Amarelos dos Crocodilos poderia alimentar uma minissérie. Entretanto, falta habilidade na maneira de conduzir a história - o excesso de personagens,  histórias e subtramas pesa, tornando a obra arrastada demais. Na tentativa de dar conta do universo criado no livro de Katherine Pancol, o filme perde o ritmo e o resultado é bastante irregular. Ao tentar dizer muitas coisas, acaba acontecendo o contrário. 

    segunda-feira, 1 de junho de 2015

    Segunda Chance


    Por Gabriel Fabri

    Depois de uma decepcionante temporada em Hollywood, com os fracos "Serena" e "Amor é Tudo o Que Você Precisa", a dinamarquesa Susanne Bier retorna ao seu país com mais um drama forte, na linha de "Em Um Mundo Melhor", que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010. Trata-se de "Segunda Chance" (En chance til), longa-metragem que tem êxito em ser um grande soco no estômago do espectador.



    Na trama, o policial Andreas (Nikolaj Coster-Waldau) invade a casa de um casal de viciados em drogas, que possuem um bebê pequeno, encontrado todo sujo dentro de um armário. A cena o sensibiliza, já que ele também tem um filho recém-nascido. Alguns dias depois, o bebê de Andreas morre de madrugada. Em choque e ao ver sua esposa Anne (Maria Bonnevie) ameaçando se matar, o policial retorna à casa do casal viciado e, sem que eles acordem, troca os bebês. 

    A música inicial, os tons de cores sóbrios e a ambientação na Dinamarca já iniciam o espectador numa atmosfera densa desde o início da projeção. Entretanto, após a morte de Alexander (o filho de Andreas), o longa-metragem se transforma em uma jornada bastante desconcertante, a medida que o público vai conhecendo as consequências do "crime perfeito" do personagem, e as reviravoltas (imprevisíveis e duras) que a trama reserva. Toda essa atmosfera pesada reflete nas excelentes atuações de Coster-Waldau e Bonnevie, que lidam agora mais do que com a dor de perder um filho, mas de também ter tirado o de outro casal. 

    "Segunda Chance", um filme que parte dessa premissa criativa da troca de bebês, consegue tirar dela toda uma carga dramática muito forte e trazer muitas questões sobre até onde podemos ir quando estamos diante de um trauma do tamanho da perda de um filho. É Susanne Bier em sua melhor forma, em um longa-metragem que deve mexer e muito com o espectador. 

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    quinta-feira, 21 de maio de 2015

    A Incrível História de Adaline


    Por Gabriel Fabri

    O sonho de muitas pessoas, quiçá de todas, é retardar os efeitos do envelhecimento. Que maravilha seria prolongar a aparência jovem para sempre, ainda mais enquanto todas as pessoas continuam ficando mais velhas dia após dia. Seria maravilhoso se fosse possível ter a aparência de uma jovem de 20 e ter, ao mesmo tempo, a sabedoria que vem da experiência acumulada ao longo dos anos, não? Em "A Incrível História de Adaline", a personagem que dá nome ao filme, dirigido por Lee Toland Krieger, possui a sorte (será?) de não envelhecer nunca.



    Adaline, interpretada por Blake Lively (da série "Gossip Girl"), nasceu em 1908. Após um misterioso acidente de carro, ela simplesmente para de envelhecer. Logo, descobre que ser jovem por toda a vida não é tão bom quanto parece, e é obrigada a ficar fugindo toda vez que se envolve com alguém. O longa-metragem foca o presente da personagem, quando ela, já com 107 anos, conhece Ellis (Michiel Huisman, da série "Game Of Thrones"), que insiste em tentar sair com ela. Com medo de se comprometer, Adaline vai cedendo muito aos poucos. Completa o elenco o ator Harrison Ford, no papel do pai de Ellis. 

    A direção de Krieger cria um ambiente quase de conto de fadas, com a narração em off muito presente. Entretanto, a escolha cai bem com a temática, uma vez que o filme tem um pouco de fantástico - Adaline não envelhece, por motivos inexplicáveis. Fora que, no fundo, "A Incrível História de Adaline" é uma história de amor.

    Apesar de ser um tanto previsível e trazer um romance perfeitinho demais, o filme conquista o espectador com um bom roteiro e com boas atuações. "A Incrível História de Adaline" é uma obra bastante triste - e essa melancolia está incomodamente presente, trazendo profundidade à história. A obra de Krieger pode não trazer nada muito de novo, mas cativa e emociona. Um grande êxito, em meio a tantos romances sem sal por aí.

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    segunda-feira, 18 de maio de 2015

    Miss Julie


    Por Gabriel Fabri

    Os fãs da série britânica "Downtown Abbey", exibida no Brasil pelos canais GNT e TV Cultura, devem se interessar por "Miss Julie", novo filme escrito e dirigido por Liv Ullmann, a eterna musa de Ingmar Bergman. Adaptação da peça de mesmo nome de August Strindberg, o longa-metragem também explora a relação da aristocracia inglesa com seus empregados.



    O ano é 1890. No dia do solstício, quando o Barão não está em casa e todos os funcionários estão de folga, a nobre residência de Miss Julie (Jessica Chastain) conta com apenas a cozinheira Kathryn (Samantha Morton) e o lacaio Jean (Colin Farrell) em suas dependências. A aristocrata, filha do Barão, aproveitará o feriado para dar em cima de Jean, mesmo sabendo que ele e Kathryn tem alguma espécie de ligação amorosa, apesar de não revelarem esse tipo de relacionamento às claras. O problema é que, além de Jean se ver seduzido pela moça, ela é, na verdade, a grande paixão platônica de sua infância. 

    Com apenas três atores em cena, o longa-metragem se sustenta ao longo de 129 minutos apenas com os diálogos longos e afiados de seus personagens, como na peça teatral. O texto funciona bem nas telas e consegue dar profundidade ao triângulo amoroso, ao mesmo tempo que levanta questões como a relação entre as classes sociais, a posição da mulher e a questão da honra em uma sociedade de valores tão atrasados como a inglesa do final do século XIX. 

    Apesar de se tornar um pouco cansativo e, em alguns momentos, a atuação muito teatral dos atores, como se estivessem representando no palco, incomodar, "Miss Julie" é um bom filme. Chastain e Farrell estão deslumbrantes em seus papéis e o texto é rico em detalhes da época, além de ser repleto de sentimentos profundos, mas nem por isso menos confusos e ambíguos, o que torna o filme uma obra muito rica na construção de seus personagens.

    sábado, 16 de maio de 2015

    A Gangue



    Por Gabriel Fabri

    O silêncio é mais que um tema, é o recurso narrativo central no ucraniano "A Gangue" (Plemya), premiado na semana da crítica no Festival de Cannes. Difícil ficar quieto após a sessão, pois o filme dirigido por Miroslav Slaboshpitsky levanta uma série de questões de maneira instigante. Todo falado em linguagem de libras, sem tradução, narração ou legendas, o longa-metragem coloca o espectador propositadamente no desconforto, para contar a história da violenta gangue de jovens ucranianos surdos.


    "A Gangue" acompanha o dia-a-dia de jovens de um internato a partir da chegada de um garoto novo, que é rapidamente integrado ao grupo de delinquentes. Sustentados por roubos violentos e pela prostituição de duas garotas, a gangue vive uma rotina de furtos, brigas e ócio.

    O fato dos personagens (e também os atores!) serem surdos funciona para manter o espectador ligado na história. É necessária atenção, pois não sabemos os nomes dos personagens, o que estão dizendo, o que estão tramando. Portanto, a experiência de assistir a "A Gangue" só é completa para quem não sabe a linguagem de sinais ucraniana (ou seja, é para todo mundo não saber o que se fala). Se as pessoas na tela não têm os ouvidos para ajudar a compreender o mundo, o público, por mais de duas horas de projeção, é quase privado deles. E essa privação é mais que um desafio ou um charme.

    Tal privação não é completa pois os barulhos ambientes são ouvidos pelo público. O filme tem som, o que não tem são as falas. Mas ela é crucial na narrativa, e esse sons que ouvimos também são. O fato de ninguém no filme falar ou escutar acentua a crueldade do seu duro desfecho e das pesadas cenas do clímax. A crueldade humana, tema principal da narrativa, ganha contornos fortes por causa da deficiência que os personagens possuem - e o fato de que o público consegue ouvir duas cenas em particular, mas os personagens não conseguem, acentua o desconforto do espectador, impotente em sua cadeira, assustado com o barulho e com o silêncio. "A Gangue" teria necessariamente outro final, se fosse um filme sobre jovens delinquentes que falam e escutam. 

    Com um roteiro repleto de diálogos que o público não entende, "A Gangue" é um filme até de fácil compreensão, o que é um mérito, trazendo temas da natureza humana e também políticos, como o desemprego e a importância desmedida que se dá ao dinheiro. O longa-metragem consegue provocar o espectador, que ficará marcado pela experiência. Menos pelas cenas de violência explícita, e mais por aquela violência que está velada na trama: a do silêncio.

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    Atualizado em 1/7/2015

    quarta-feira, 13 de maio de 2015

    Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência



    Por Gabriel Fabri

    Dois homens ganham a vida vendendo diversão para as pessoas. É isso o que afirmam, tristes e sérios, em seus discursos, enquanto vão a todos lugares vender objetos para tornar qualquer ambiente divertido - um saco de risadas, dentes de vampiro e uma máscara bizarra. Ninguém se diverte com esses objetos, que não conseguem quebrar a seriedade, a frieza e a indiferença das pessoas. Chega a ser engraçado o quanto esses produtos não são engraçados - e está aí a essência do humor desconcertante do sueco "Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência", de Roy Andersson, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, o prêmio máximo da cerimônia. Um filme com muito humor, mas tão desconcertante, que chega a ser impossível rir, como acontece com os patéticos brinquedos dos protagonistas.



    A frieza da maioria das pessoas do filme aparece também na direção. A câmera estática e distante, observando tudo de longe, sem qualquer reação (como o pombo no galho), junto com a fotografia sóbria, com cores apagadas e muitos tons de bege, reforçam essa sensação de uma existência sem brilho, sem vida e sem humor. O longa-metragem não tem uma história propriamente dita. Além das cenas dos dois vendedores, são intercaladas outras situações aleatórias, com uma comicidade que beira o absurdo. Por exemplo, uma das cenas iniciais, em que um homem morre em um restaurante e a única preocupação é quem vai comer a comida que ele acabou de comprar. Ou quando a menina vai recitar o poema que dá nome ao filme e é aplaudida e imediatamente dispensada sem sequer começar a recitar a poesia.

    A medida que o filme vai seguindo o seu curso, as situações vão ficando mais absurdas e mais desconcertantes, até atingir a banalidade de uma situação cotidiana, na cena final. "Um Pombo Pousou Num Galho Refletindo Sobre A Existência" é, sem dúvidas, um filme difícil, que permite diversas interpretações, para quem se esforçar um pouquinho. Sexo, solidão, homossexualidade, a mesmice das rotinas, a infelicidade do dia-a-dia e, principalmente, a indiferença com o outro são os temas em que o filme toca, sempre de uma maneira negativa. Reparem bem na frase "estou feliz que você está bem" e tente encontrar alguém feliz, ou bem, nesse filme. "Um Pombo..." é, em suma, uma obra para refletir sobre a existência mesmo.

    Vale ressaltar que o filme é o terceiro de uma trilogia, composta por "Songs from the second floor", exibido no Festival de Cannes em 2000, e "Vocês, os vivos", exibido em Cannes em 2007. 


    segunda-feira, 11 de maio de 2015

    Divã a 2

    Por Gabriel Fabri

    Da safra mais recente do cinema nacional, poucos filmes grudaram tanto na imaginação do público quanto "Divã", dirigido por José Alvarenga Júnior e estrelado por Lília Cabral. Ao retratar as crises de uma mulher de 40 anos, com sensibilidade e com um humor muito diferente do pastelão das comédias globais, o longa-metragem conquistou uma boa audiência e rendeu até uma série de TV. Seis anos depois, tentando pegar carona no sucesso desse filme, eis que surge "Divã a 2", com direção de Paulo Fontenelle (de "Se puder... Dirija!"), um drama carente de atrativos.



    Além do fato de retratar uma mulher em crise e que procura um psicanalista, não há qualquer ligação entre "Divã" e "Divã a 2". O filme de Fontenelle retrata agora uma moça mais jovem, Eduarda (Vanessa Giácomo), que está com o casamento com Marcos (Rafael Infante) desmoronando e um filho pequeno para cuidar. Com o divórcio, os dois tentam recuperar o tempo e a juventude perdidos em dez anos de casamento. Paralelamente, Marcos e Eduarda desabafam para os seus respectivos terapeutas.

    Bons filmes de terapia conseguem muitas vezes êxitos extraordinários, ao trabalhar bem as emoções e as contradições dos seus personagens, em um ambiente de confissão. Prova disso é a série "In Treatment", que teve a sua versão brasileira estrelado por Selton Mello. "Divã a 2" passa longe desse sucesso, embora as cenas das terapias representem alguns dos melhores momentos do filme. 

    Com roteiro fraco, que une os maiores clichês de fim de relacionamento junto com coincidências absurdas na história, como a grande reviravolta na relação de Eduarda com Leo (Marcelo Serrado), "Divã a 2" chega a ser desgastante para o espectador. A trama nunca engata e fica a sensação de que já vimos essa história milhões de vezes, contadas de maneiras mais envolventes ou criativas. Com poucos momentos para humor, alguns deles desastrados como a cena da blitz da lei seca, o longa-metragem se torna uma entediante jornada, que culmina em um final previsível. Faltam conflitos mais intensos, falta sensibilidade, faltam piadas engraçadas e faltam elementos para provocar alguma emoção no espectador. Personagens interessantes, isso tem? Também não, e talvez ai more a raiz dos problemas de "Divã a 2" - tudo é sem sal demais.

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    quarta-feira, 8 de abril de 2015

    Club Sandwich


    Por Natália Sena

    Do diretor Fernando Eimbcke, o mexicano “Club Sandwich” é uma imersão ao ócio das férias e um olhar sobre o relacionamento de mães e filhos no turbulento começo da adolescência. O filme se passa durante um recesso fora de temporada da mãe solteira Paloma (Maria Renee Prudencio) e seu filho Hector (Lucio Gimenez Cacho), em um hotel simples e praticamente vazio. Com planos longos e estáticos, o diretor explora o tempo e a sua percepção pelas personagens, visivelmente entediadas em grande parte do longa-metragem.



    A relação leve e fluida dos dois permite comentários furtivos, dúvidas íntimas; mas não se mostra à prova dos medos da adolescência. Hector conhece uma garota, Jazmin (Danae Reynaud Romero), que também está hospedada no hotel com sua peculiar família, constituída por um pai já idoso e sua madrasta, com quem ele se casou há apenas 6 meses. A aproximação de Hector e Jazmin explora a questão central do filme: o amadurecimento desengonçado do garoto.

    Ainda com trejeitos infantis, a puberdade do menino o impele à Jázmin, que aos 15 anos já demonstra maior desenvoltura afetiva, apesar de também carregar o fardo da insegurança inerente à essa etapa da vida. A descoberta do corpo e de novos tipos de relacionamento se dá na forma dos clássicos coming-of-age, recorrentes tanto na literatura quanto no cinema americanos: o bigode que ensaia aparecer, a curiosidade sexual e, concomitante, a negação de tudo isso.

    Enquanto Hector demonstra uma aparente indiferença a essas mudanças, sua mãe, jovem e descolada, lida com a dificuldade de aceitar o amadurecimento de seu filho. Em situações desconcertantes, ela tenta se aproximar da estranha e fechada família da garota, mas sem sucesso. O constrangimento é ainda maior quando Paloma tenta abordar com Hector a insurgente sexualidade.

    A pedida gastronômica oficial da viagem são os club sandwiches, dando origem ao nome do filme. Banalizando a narrativa, Eimbcke chama a atenção para as sutilezas dos momentos de intimidade entre Hector e sua mãe e Hector e Jázmin; imprimindo a complexa subjetividade das relações humanas nos detalhes.

    quarta-feira, 18 de março de 2015

    Dívida de Honra



    Por Gabriel Fabri

    “As pessoas falam sobre impostos e mortes. Quando se trata de loucura, elas ficam em silêncio”. Essa frase, dita a personagem Mary Bee Cuddy (Hilary Swank) pelo referendo de uma pequena cidade na região de Nebraska, nos EUA, faz referência a dois temas de “Dívida de Honra”, filme dirigido por Tommy Lee Jones e baseado no romance de Glendon Swarthout: a loucura de três mulheres casadas, transportadas pelo deserto feito animais para voltarem a casas de seus pais, e a atitude de Mary, transgressora numa sociedade machista e patriarcal, que data de 1854.



    Mary é uma mulher já na casa dos trinta anos. Está, portanto, no limite da idade para conseguir se casar. Mulheres solteiras não são bem vistas nessa sociedade do velho oeste, ainda mais uma com a personalidade forte de Mary, “mandona e sem atrativos”. Diante da necessidade de levar três esposas que enlouqueceram para uma cidade distante, de forma com que elas possam ser encaminhadas de volta para os pais, Mary se voluntaria para missão, escandalizando os moradores da região, já que, como o título original ("The Homesman") sugere, a tarefa era para o "homem da casa" – a personagem assume assim uma responsabilidade que nenhum homem da vila ousou encarar. Um dia antes de partir, Mary avista um velho mal cuidado pendurado em uma corda, aguardando o próprio enforcamento, e o salva em troca de companhia para a viagem. Trata-se de George Biggs, interpretado por Tommy Lee Jones. 

    “Dívida de Honra” trata com sensibilidade os seus personagens: a mulher independente e indesejada; o homem que chega ao fim da vida sem nada além de rancor; as jovens que enlouqueceram e passaram a ser vistas como uma escória. Com uma bela fotografia, trilha sonora delicada e boas atuações de Hilary Swank e Tommy Lee Johnson, o resultado é um agradável filme sobre uma viagem transformadora, mas, principalmente, sobre a posição inferior na qual os homens da época colocavam as mulheres – e uma mulher que resolveu desafiar o preconceito e esse status quo retratado no filme. Embora o protagonismo fique com Swank, vale prestar atenção no interessante personagem de Lee Johnson, que brilha em algumas das melhores cenas do filme.

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    quarta-feira, 11 de março de 2015

    Para Sempre Alice



    Por Gabriel Fabri

    Na cena mais emocionante de "Para Sempre Alice" (Still Alice), a personagem que dá nome ao filme, interpretada por Julianne Moore, cita o poema "Uma Arte", de Elizabeth Bishop. O texto da poeta norte-americana afirma que "perder não é nada sério". Afinal, perdemos um pouquinho todos os dias. Entretanto, fica difícil acreditar nas palavras de Bishop ao sair da sessão do filme dirigido por Richard Glatzer e Wash Westmoreland. 
    O longa-metragem conta a história de Alice, uma renomada professora de linguística da Universidade de Columbia, nos EUA. Aos 50 anos, ela é diagnosticada com um tipo raro de Alzheimer, precoce e genético. Com o apoio do marido, interpretado por Alec Baldwin, e dos filhos, com destaque para Lydia (Kristen Stewart), a caçula, Alice precisa viver cada dia aprendendo, como diz o poema de Bishop, a "arte de perder". No caso, perdendo as suas memórias numa velocidade avassaladora.

    "Para Sempre Alice" vai mostrando a progressão da doença aos poucos, mostrando pequenos momentos cotidianos em que a perda de memória de Alice se manifesta. Isso vai acumulando uma certa angústia no espectador, que deve conseguir facilmente se identificar com os problemas da família tentando lidar com a situação da personagem, e também com o medo de perder algo tão essencial quanto ter consciência de quem você é e o que você viveu.

    Essa construção do filme soa tão natural, é tão envolvente e sincera, que a obra se sustenta sem ter um clímax bem definido. O que dá mais força ainda para a bela cena final, que encontra na simplicidade a sua potência, um desfecho perfeito e pouco previsível. 

    Entretanto, não tem como falar de "Para Sempre Alice" sem comentar a atuação soberba de Julianne Moore, em um dos melhores momentos da sua carreira. Nada soa forçado em seu trabalho, que surpreende transmitindo as dores, as dificuldades e as alegrias da personagem. Não é a toa, portanto, que a atriz tenha sido premiada com Oscar pelo papel. Sua atuação contribui, e muito, para que o filme provoque muitas lágrimas na plateia.  

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    terça-feira, 3 de março de 2015

    Blind


    Por Gabriel Fabri

    O que você faria se você perdesse a visão? Ingrid se confronta com o tédio e a solidão decorrentes dessa situação diariamente em "Blind", do roteirista Eskil Vogt, estreante na direção. O longa-metragem norueguês foi premiado no Festival de Berlim, como Melhor Filme Europeu na Mostra Panorama, e no Festival de Sundance, onde foi considerado o melhor filme estrangeiro de drama pelo juri.



    Após ficar completamente cega, a personagem interpretada por Ellen Dorrit Petersen isola-se em seu apartamento, abandona a sua carreira como professora e fica aos cuidados do marido, Morten (Henrik Rafaelsen) que nunca está presente. Sozinha em seu mundo, ela luta para não perder a sua memória visual. No vazio dessa rotina, ela imagina os encontros e desencontros de Einar (Marius Kolbenstvedt), um homem cuja vida sexual se resume a assistir a pornôs na internet, e Elin (Vera Vitali), a mulher que mora no apartamento em frente ao dele. 

    "Blind" chama a atenção pela montagem e roteiro ousados, propositadamente confusos, que costuram o presente de Ingrid com a sua imaginação, seus medos, lembranças e fantasias. Sem deixar claro o que é real ou não, o longa-metragem desperta - e exige - a atenção do espectador, uma vez que há muita informação no paralelo Elin e Ingrid e as suas respectivas histórias. 

    Nesse contexto, o principal aspecto que o filme explora é o sexual. Como a cegueira afeta o sexo? As fantasias envolvendo a deficiência, o sexo no casamento, a masturbação, o voyeurismo, o exibicionismo, o sexo online e a pornografia são itens que permeiam a história, aprofundando a sensação de vazio e solidão dos personagens e trazendo alguns dos momentos mais interessantes desse longa-metragem, que cativa pela sua marcante estranheza.

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