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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sétimo



Por Gabriel Fabri

Após estrelar o suspense "Tese Sobre Um Homicídio", que chegou aos cinemas brasileiros em 2013, Ricardo Darín retorna ao gênero em "Sétimo", dirigido por Patxi Amézcua. Nem a presença do astro do cinema argentino, porém, salva o filme de seu roteiro fraco, que não aproveita a história promissora do longa-metragem.



A trama se concentra no prédio em que mora Délia (Belén Rueda), esposa de Sebástian (Darín) à espera dos papéis de divorcio. A mulher deve se mudar com os dois filhos para Madrid, apesar das resistências do seu futuro ex-marido, um advogado que está envolvido em um caso de ampla repercussão midiática. Em um dia em que Sebástian vai levar as crianças para a escola, os meninos desaparecem, ao descerem as escadas do condomínio. Sob a suspeita de que os garotos ainda estariam no prédio, Sebástian inicia uma busca para descobrir quem os sequestrou.

"Sétimo" ganha o público com facilidade, devido às circunstâncias misteriosas do desaparecimento. Entretanto, o roteiro do filme não aproveita as possibilidades narrativas que um sequestro em um condomínio poderia gerar. Nenhum dos moradores parece minimamente suspeito, não atiçando a curiosidade do público e pouco agregando à trama; o personagem de Darín demora mais do que o plausível para suspeitar da mensagem com ameaça que recebeu justo na hora do sequestro; e o envolvimento de Sebástian com o caso polêmico, envolvendo aparentemente pessoas poderosas, fica em segundo plano. 

Assim como em "Tese Sobre Um Homicídio", aqui há também uma tentativa de reviravolta no final, para surpreender o público. Não funciona, e a "solução do caso" é tão absurda que chega a frustar, ao invés de chocar. Esta aí o maior ponto fora da curva de "Sétimo", que mostra que o cinema argentino ainda tem muito o que amadurecer em filmes de gênero, tão sofisticados na indústria norte-americana de filmes e séries. 

Se a relação entre Délia e Sebástian ainda rendesse alguma grande reflexão, "Sétimo" até poderia se salvar, mesmo com todas esses problemas. Mas, diante do resultado apresentado, melhor procurar um episódio de "Without A Trace".   

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

À Procura



Por Gabriel Fabri

Uma trama simples e sem grandes reviravoltas pode se tornar um bom suspense nas mãos de um diretor de cinema competente. É o que acontece em À Procura, de Atom Egoyan (O Preço da Traição), filme exibido no Festival de Cannes em 2014 e que, na ocasião, teve uma péssima, e um tanto exagerada,  recepção.


O longa-metragem conta a história do desaparecimento de Cassandra, uma menina de nove anos de idade, filha de Matthew (Ryan Reynolds). De maneira alienar, o público acompanha os fatos que antecederam e sucederam o sequestro. Agora, oito anos após o crime, a polícia parece chegar perto de desmascarar os criminosos, durante a investigação de uma rede de pedofilia online.

Se montado linearmente, À Procura poderia ser mais um filme policial sem grandes atrativos, desses que as séries de televisão norte-americanas superam com facilidade. Entretanto, a montagem disfarça a simplicidade da trama, deixando o espectador curioso e ligado desde o começo. Embaralhando os tempos da ação, no início do filme, a obra desperta a atenção necessária para que, quando a trama é finalmente apresentada, a entrega do público ao filme já seja total. 

Apesar do começo promissor, a trama perde um pouco a sua força e tudo se resolve de maneira simplista demais. O resultado é bom, mas deixa a desejar, principalmente tendo em vista que  À Procura toca em um tema delicado como a pedofilia, que poderia ter sido melhor aproveitado. 

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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tese Sobre Um Homicídio



Por Gabriel Fabri

A televisão americana, de uns anos para cá, vem conquistando elevado prestígio entre os cinéfilos e cineastas. Com séries inovadoras como Lost e 24 Horas, ou  refinadas como Damages e Mad Men, é difícil ignorar a relevância que esse modelo adquiriu. Entre os vários programas que tentam vingar e sobreviver à dura prova da audiência, os de investigação criminal são um dos mais bem sucedidos. CSI, Criminal Minds, NCIS, The Closer, Cold Case, Without a Trace - são apenas alguns exemplos de tantos que, semanalmente, tratam de resolver um crime diferente, sempre com o objetivo maior de trazer novamente o espectador sete dias depois. Na mesma onda de investigação criminal, chega ao cinema o argentino Tese Sobre Um Homicídio, do estreante Hernán Goldfrid.

Ricardo Darín é Roberto Bermúdez, um professor de direito criminal. Em sua nova turma de pós-graduação, ele terá como aluno Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), filho de um casal amigo. À princípio, os dois se dão bem, mas Roberto começa a suspeitar do outro quando um corpo de uma garota assassinada é descoberto no estacionamento da faculdade.

Logo no início do filme, o personagem de Darín explica que, numa investigação criminal, o juiz deve prestar atenção nos detalhes. O diretor seguirá essa premissa à risca ao marcar, repetidamente, uma série de objetos, com muitos closes. Além dessa marcação um tanto exagerada, Goldfrid aproveita para colocar os atores sob uma lupa, pois não são raros os planos detalhe, em que apenas uma parte do corpo aparece. O recurso é quase didático, escancarando os elementos que serão usados novamente no filme e, no caso dos atores, permite um maior envolvimento com a história. Uma boa sequência é a que se passa no Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires), onde o diretor aproveita as obras para fazer planos interessantes, criando ilusões de ótica com as obras.

Longe de ser um O Segredo dos Seus Olhos, filme de investigação com Darín que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Tese tem uma trama bem simples e um ritmo de blockbuster hollywoodiano. A técnica hitchcockiana de antecipação do suspense, crucial numa cena lá pela metade da projeção, e a trilha sonora para acentuar esse clima são apenas alguns exemplos do que torna o longa ágil. Num crime onde a polícia não consegue encontrar suspeitos, acompanhamos a jornada de Roberto para provar que o seu aluno é culpado. O roteiro funciona muito bem para tornar a obsessão do personagem plausível e interessante, enquanto o uso dos closes colabora para que o espectador fique do lado de Darín e encaixe as peças do quebra-cabeça da mesma maneira que o personagem.

Darín e Ammann estão impecáveis em seus papéis. O primeiro conduz todo o filme e não titubeia quando a câmera chega perto, para pegar um olhar ou alguma expressão. O outro mantém a dubiedade de parecer ser o assassino e uma pessoa inocente ao mesmo tempo, quase indecifrável. Calu Riveiro, que faz a irmã da vítima, também se destaca.

Mas o clímax do filme é problemático. Pouco empolgante, é o momento em que o espectador começa a questionar toda a investigação feita até então, mais por uma sutil incongruência à respeito de um objeto do que por mérito do roteiro ou da direção. Na tentativa de criar uma reviravolta, o diretor perde um pouco a mão, embora o desfecho seja crucial para que Tese não caia na vala comum dos filmes de investigação.

Tese Sobre Um Homicídio revela uma faceta mais comercial do cinema argentino. Ele não provoca o espectador ao longo da projeção, apenas o vai guiando conforme as teorias e descobertas do protagonista. Só no seu final, em aberto, que o longa lembra que não saiu de uma série de TV e, assim, questiona sutilmente tudo o que foi mostrado anteriormente. Questionamentos que já estavam lá antes, mas o diretor não pois a câmera bem em cima deles para esclarecer.  

Leia sobre cinema argentina na reportagem escrita por Gabriel Fabri, diretamente de Buenos Aires, clicando aqui.