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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Lincoln


Ano passado uma obra de Steven Spielberg era indicada ao Oscar por envolver e emocionar o mundo com a jornada de um animal. Cavalo de Guerra é longo, mas nas mãos desse veterano do cinema, resultou num filme terno e de alta qualidade. Indicado em 2013 como Melhor Diretor, Spielberg desponta com Lincoln, favorito para ganhar o prêmio principal e também o recordista de indicações, em 12 categorias. Uma pena que o resultado não é nada além de um arrastado e monótono exemplar de patriotismo.

O Presidente Lincoln pode ser considerado o maior responsável por abolir a escravidão nos Estados Unidos. A trama do filme mostra os bastidores da campanha pela aprovação da 13ª emenda, que proibiu a prática que foi motim da sangrenta guerra civil que dividiu norte e sul de 1861 a 1865. Como já era de se esperar, a figura de Lincoln é exaltada, o que parece ser o único objetivo da obra. 

Enquanto outro forte concorrente da premiação esse ano, Django Livre, quebra paradigmas e ousa ao abordar o tema da escravidão, Spielberg se limita a fazer sua panfletagem disfarçada de filme de época. A política é um tema pertinente, principalmente por Lincoln ter aprovado a emenda por meio de corrupção, o que (ainda bem!) fica evidente para qualquer espectador. Entretanto, ao invés de provocar reflexões pertinentes, o longa se arrasta. Se quem assiste não nutre um sentimento forte pelo político, nem mesmo um interesse pela discussão da "realpolitik" salva.

O único momento realmente bom do filme é o seu clímax, durante a votação da emenda. É quando finalmente a história prende atenção. De resto, Sally Field (vencedora do Oscar por Norma Rae e protagonista do seriado Brothers & Sisters) salva nos momentos em que aparece e rouba a cena, sendo o maior destaque nas atuações, no papel de esposa do Lincoln. Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) também está bom em seu papel, mas seu favoritismo ao Oscar parece exagerado (assim como no caso do longa). Leonardo Di Caprio, por exemplo, no papel de escravocrata em Django Livre, merece muito mais (infelizmente, nem foi indicado).

Lincoln é um filme, na melhor das avaliações, mediano. Entretanto, ele possibilita algumas discussões interessantes, além da sobre corrupção. Por exemplo, é inevitável comparar a postura dos dois maiores partidos dos Estados Unidos na época e agora. Lincoln, com seu discurso abolicionista, era republicano - e os segregadores eram, em sua maioria, democratas. Hoje esse último partido tem um negro na presidência e o outro se identifica, ou, pelo menos, flerta, com o discurso preconceituoso do Tea Party. E não é que Lincoln era influenciado por Karl Marx? O mundo dá voltas.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

   
As relações de pessoas com animais são apenas um tema de Cavalo de Guerra (War Horse), novo filme de Steven Spielberg. O diretor responsável pelos quatro filmes do Indiana Jones, entre outros clássicos como E.T. e A Cor Púrpura, retorna a mais um filme de guerra. Depois da II em Resgate do Soldado Ryan, agora é a I Guerra que é abordada, com o maior perfeccionismo.

A trama é baseada no livro infantil de Michael Morpurgo, que chamou atenção de Spielberg quando foi encenado no teatro em Londres, com marionetes dos cavalos em tamanho natural, movimentadas por homens visíveis à platéia. Para ser mais realista, sem deixar de ser emocionante, foram usados cavalos de verdade (exceto em algumas cenas perigosas para eles). No filme, o cavalo Joey é criado por um menino cuja família encontra-se com preocupações financeiras, que são solucionadas com a venda do animal. Esse é enviado à guerra e tentará sobreviver em meio às desastrosas batalhas que marcaram o choque de imperialismos que deu fim à Belle Époque.

Acompanhamos o cavalo assumindo como personagem principal do filme. Suas emoções, seus desafios e suas relações são percorridas como se ele fosse um humano. De fato, salvo alguns coadjuvantes, torcemos pelo cavalo e não pela nossa própria espécie ao decorrer dos fatos. Isso porque Spielberg ambienta a trama na pior obra da humanidade (até então) e expõe o horror dos conflitos, desde um ataque surpresa trágico até os momentos mais tensos nas trincheiras. Em meio a tudo isso, vemos, pela maneira como o cavalo é tratado por alguns, um traço de humanidade que os homens parecem perder nas batalhas.

Anos de experiência dão ao diretor controle total sobre a longa trama e sob os espectadores. Mesmo no começo do filme, onde muitos diretores costumam se arrastar, o tempo passa rápido, até demais. É uma prova de que ele sabe fisgar o público. A segunda é o resultado final: belo, emocionante e terno. Assim, o cavalo é uma metáfora para o que há de melhor em nós e a guerra para o que há de pior. Mas os significados da obra não se limitam aí: o amor, a coragem, a perseverança, a família, tanto nos humanos quanto no animal são um feixe de esperança em meio ao caos, deixando uma bela mensagem.