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segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Samba


Por Avana Salles


“O Samba”. O nome do filme, por si só, já é auto-explicativo, mas seu diferencial está no olhar do diretor sobre o assunto, o francês Georges Gachot. Elemento tão presente na nossa cultura popular, esse estilo musical ganha nova percepção sob olhar estrangeiro. Gachot consegue transformar um tema já saturado em algo novo, produzindo um documentário alegre e rico em história.


E talvez seja essa a essência do filme, o posicionamento do estrangeiro sobre algo genuinamente brasileiro, uma óptica além do corriqueiro. A visão de quem está de fora, de quem não está acostumado com as situações e, por isso mesmo, consegue converter em novidade o que já está fielmente inserido na nossa brasilidade. 

Para nortear o enredo, Martinho da Vila guia o espectador pelas vielas, bares e ensaios de bateria na Vila Isabel - tradicional bairro da zona norte carioca, conhecido por ser um dos berços do samba no Brasil. Ao destacar a comunidade, o diretor mostra que o samba, além de um gênero musical, também é um estilo de vida e faz parte do dia a dia de seus moradores. 

Nesse aspecto, Gachot transparece um posicionamento mais sensível, o diretor valoriza mais o envolvimento das pessoas com a escola do que o próprio carnaval. Cenas do desfile e a desenvoltura da Vila na avenida são descartadas, dando espaço para os personagens da comunidade que ganham voz para falar e demonstrar sua integração com a escola. As cenas iniciais fazem jus ao trecho da melodia Renascer das Cinzas, de Martinho da Vila, “mostrando pro povo que o berço do samba é em Vila Isabel”.

O que também chama a atenção no documentário é a preocupação da produção em não cair em um denominador comum. Além de demonstrar as origens do samba, a obra preocupa-se também com mais dois fatores igualmente importantes: as transformações históricas e culturais do estilo musical e a análise da fonte de inspirações para letras, enredos e melodias.

Para exemplificar as mudanças sociais, nas quais demonstram a aceitação do gênero, tradicionalmente popular, para as classes mais altas – o diretor escolhe cenas de consertos de Martinho pelo Brasil, acompanhado de orquestras. Além da passagem do compositor por Paris, onde o músico grava uma canção em conjunto com uma cantora francesa. Para complementar a análise desse processo sócio-cultural, o documentário conta com depoimentos de personalidades como Nana Mouskouri, Mart’nália, Ney Matogrosso, Leci Brandão, Zeca Baleiro e Beth Carvalho.

Uma belíssima sintonia de fotografia com trilha sonora. Impossível não batucar os pés no chão, involuntariamente, por alguns instantes.

domingo, 23 de março de 2014

Lars Von Trier: a “persona non grata” que todos querem conhecer



Por Juliana Varella

Está em cartaz um dos filmes mais polêmicos dos últimos anos. Provocativo do título ao relógio (são 4h02 na versão editada, somando os dois filmes), “Ninfomaníaca” é um daqueles “tapas na cara” de que o cinema precisa uma vez ou outra para se renovar.

Chacoalhar a mesmisse e tirar seus colegas da zona de conforto nunca foi novidade para Lars Von Trier. O dinamarquês que eliminou paredes em “Dogville”, matou um bebê em “Anticristo” e destruiu a Terra em “Melancolia” parece gostar de tudo aquilo que outros diretores evitam. Tudo o que é tabu lhe é inspiração.

Basta lembrar do episódio de 2011, quando, após declarar que consequia entender Hitler e até simpatizar com ele, foi banido do Festival de Cannes e considerado “Persona non Grata” – frase que depois estampou em sua camiseta no Festival de Berlim. Este ano, Von Trier volta ao evento francês para lançar sua versão estendida de “Ninfomaníaca”.

Mal entendidos à parte, a verdade é que o diretor não se esquiva da polêmica: sexo, religião e a maldade inerente ao homem (disfarçada pela hipocrisia) são seus temas favoritos desde que lançou “Elemento de um Crime” em 1984. Nele, um detetive se envolve tanto com a investigação de um serial killer que começa a se identificar com ele.


Ideias perigosas

O dinamarquês, nascido Lars Trier (o “Von” foi acrescentado depois), sempre soube de seu potencial explosivo: em 87, seu próximo longa mostraria um diretor (ele mesmo) criando um filme sobre um médico (também ele) que espalha uma doença e acaba contaminando o mundo real. Essa doença pode ser o mal-estar que causam os filmes de Lars, ou suas ideias perigosas.

Uma das “ideias perigosas” do cineasta foi o Manifesto Dogma 95, escrito com Thomas Vinterberg (“A Caça”) para guiar o novo cinema dinamarquês nos anos 90. Filmagens in loco, sem acessórios, disfarces, truques de cenografia. Câmera na mão.

As regras serviram mais para dar um novo sentido à arte do país (humanizando também a gastronomia e a arquitetura, como mostrou uma matéria do The Guardian em 2012) do que para petrificar o trabalho do cineasta, por isso logo foram caindo em desuso por seus idealizadores. O minimalismo, em diferentes níveis, pode ser visto em “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dogville”, “Manderlay” e “O Grande Chefe”.



Mentiras de uma sociedade hipócrita

Em “Dançando no Escuro” (2000), o tema da hipocrisia começaria a aparecer com força, desembocando depois no clássico “Dogville” e na comédia de baixíssimo orçamento “O Grande Chefe”, para então reaparecer apoteoticamente em “Ninfomaníaca”.

Naquele primeiro filme, Bjork vivera uma mulher a caminho da cegueira, que juntava dinheiro para salvar o filho da mesma doença enquanto enfrentava traições e injustiças das pessoas à sua volta. Sem medo de encaminhar suas protagonistas (quase sempre mulheres) à tragédia, Von Trier mais uma vez chocava o mundo.

Já em “O Grande Chefe”, sua provocação foi ao universo empresarial, com a história de um CEO fictício, criado (e depois interpretado por um ator exagerado) apenas para vender uma empresa e que, na teoria, não deveria interferir no dia-a-dia dos funcionários nem tomar decisões que os beneficiassem.


Sexo e religião, combinação proibida

A sexualidade feminina, discutida em “Ninfomaníaca” com uma naturalidade poucas vezes vista no cinema, já tinha sido tema de “Ondas do Destino” e “Anticristo”, de formas praticamente opostas (que, talvez, se expliquem numa passagem de “Ninfomaníaca” que fala sobre as Igrejas Ocidental e Oriental).

Em “Ondas”, uma mulher extremamente religiosa se casa com um homem bruto e, quando ele sofre um acidente paralisante, ela passa a procurar outros homens para satisfazer aos desejos do marido e de Deus, sofrendo como tentativa desesperada de salvação do amado.

Já em “Anticristo”, Charlotte Gainsbourg vive uma mãe que perde o filho durante um ato sexual e transforma seu luto, progressivamente, em loucura e violência contra o marido. É também de uma situação impensável que trata “Melancolia”, drama que estuda as reações de diferentes pessoas diante do fim do mundo.



O espelho distorcido

Se Lars Von Trier elege justamente os temas mais espinhosos para trabalhar sua cinematografia, talvez as razões não sejam tão negativas quanto pensam alguns de seus críticos vorazes. Seus filmes são apenas um espelho levemente distorcido da realidade, que evidencia o mal tanto quanto o questiona.

Como afirmou certa vez, o cineasta tem gosto por personagens idealistas, que causam estragos apesar de suas boas intenções. Em “Ninfomaníaca”, a heroína causa a discórdia à sua volta, mas sua verdadeira intenção é combater o preconceito, o machismo e preencher o vazio deixado pela ausência do pai - um modelo imaculado de educação e, provavelmente, seu único amigo.

Há, aí, uma esperança velada de que o espectador repense suas relações pessoais, aceite a si mesmo como é e, surpreendentemente, que acolha e ajude o outro. Mesmo se esse outro lhe causar repulsa.

* Juliana Varella é jornalista formada pela ECA-USP e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP. Atualmente, escreve sobre cinema no Guia da Semana e no site Blogueiras S.A.

Leia as críticas de "Ninfomaníaca": Volume I, Volume II

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Tatuagem




Corpo, Liberdade e Tatuagem

Por Heloisa Aun


Vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Gramado 2013, Tatuagem mostra um verdadeiro panorama artístico brasileiro atrelado a questões políticas. A nova obra do diretor pernambucano, Hilton Lacerda (roteirista de Febre do Rato e Amarelo Manga), reúne questões como liberdade, sexualidade e amor, unindo uma série de metáforas e análises acerca da sociedade da década de 70.

A história se passa em 1978, em Recife, tendo como pano de fundo a ditadura militar. A questão central é a relação de amor entre Clécio (Irandhir Santos, O Som ao Redor), líder de um grupo de teatro, e o soldado Arlindo Araújo (Jesuíta Barbosa), apelidado de Fininha, de apenas 18 anos. A homossexualidade é retratada de maneira poética e real, sem qualquer restrição, quebrando tabus do cinema brasileiro, como a nudez e o sexo entre dois homens.

A trupe “Chão de Estrelas” realiza peças em seu teatro anárquico e libertário, o qual é composto pelos amantes Clécio e Paulete, além de outros integrantes. Fininha acaba se aproximando do grupo ao se envolver com o líder, vivendo uma história de amor que modifica a vida de ambos os personagens. O soldado vivencia humilhações no ambiente militar, sofrendo transformações que o amadurecem cada vez mais. As relações de afeto, sobretudo, são mostradas detalhadamente, como a de Clécio com seu filho e sua ex-mulher, além dos vínculos dentro da própria companhia teatral.

A questão da arte é representada em combate à repressão exercida pela ditadura militar. As performances chocantes, o uso do corpo como protesto, as músicas com humor (como a “Tem Cu”, que não sai da cabeça de quem assiste ao filme), a crítica política implícita, as encenações e o figurino. Tudo isso provoca uma sensação de liberdade, pouco presente e representada atualmente. A ênfase na cultura e na ironia equilibra o clima de censura e tensão, realizando provocações ao poder, a partir de diálogos e canções.

A atuação dos personagens principais, como a de Irandhir Santos e Rodrigo Garcia, além do iniciante Jesuíta Barbosa, traz ao filme uma sensibilidade e veracidade ainda maior. Outro destaque da trama é a exposição e exploração da cultura pernambucana daquele período. As questões evidenciadas em Tatuagem podem ser trazidas para atualmente, em relação à violência social e a busca constante pela liberdade.

Tatuagem mostra um cinema brasileiro irreverente e ousado, que mistura tendências artísticas, além de exibir uma belíssima composição de cenas e da trilha musical. É um cinema que tem sabor, cor e amor, que faz com que o espectador sinta as mensagens implícitas e as ironias até nos mínimos detalhes.