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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dicas da 39ª Mostra


Por Gabriel Fabri

A 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo começou e, como já é habitual no Pop with Popcorn, separamos alguns destaques dessa edição. Por motivos de trabalho, a cobertura está menor neste ano. Mas o blog não podia deixar passar batido o maior evento cinematográfico do ano.

Confira:


  • Flocking 
Pouco têm-se falado sobre o drama sueco dirigido por Beata Gardeler. Uma pena, pois em um país onde cresce a intolerância política ou em que um vestibular que propõe o tema "violência contra a mulher" é taxado de esquerdista, Flocking (Flocken) é um filme necessário. 

Ambientado em uma pequena cidadezinha sueca, o filme retrata a discriminação sofrida por Jennifer, uma garota de 14 anos, após ela acusar um garoto de sua classe de abuso sexual. O estupro em si, que até certo ponto o filme deixa em aberto se realmente aconteceu ou não, é apenas o começo do sofrimento da garota, que vê todas as pessoas virando as costas para ela, inclusive as melhores amigas e o padre da cidade. 

O legal no longa-metragem é observar como a comunidade age diante da acusação de Jennifer: não bastasse o ceticismo e a total falta de apoio à garota, os habitantes destilam em cima dela todos os seus preconceitos machistas e promovem uma espécie de "casa às bruxas" velada (ou nem tanto). Agem em grupo, como o nome sugere ("flock", em inglês, significa 'rebanho', 'manada'), com total falta de autocrítica e bom senso.   

O clímax e o desfecho, em que se vai construindo expectativas para saber o que a protagonista vai fazer com a sua vida (e com a dos outros), é perfeitamente angustiante. 


  • Deephan - O Refúgio
O grande vencedor do Festival de Cannes em 2015, Deephan é dirigido pelo consagrado cineasta francês Jacques Audiard (Ferrugem e Osso, O Profeta). Apesar de tocar em um tema caro para a atualidade, a questão dos refugiados na Europa, o longa-metragem derrapa ao tentar falar sobre o drama do personagem principal, um combatente na guerra civil do Sri Lanka. Traumatizado com a violência do seu país de origem, Deephan trabalha como zelador em um perigoso bairro na França, e não tarda a implicar com as gangues juvenis que vivem no condomínio. 

Para imigrar para a França, Deephan se uniu a uma mulher e uma criança desconhecidas, usando passaportes de uma família que morreu nos conflitos. Se focasse no drama de sua família de mentirinha, tentando viver em um novo país desconhecido, vivendo com pessoas desconhecidas dentro de casa, o filme poderia ser melhor. Mas a opção de Audiard em discutir a violência enfraquece a trama, com um clímax exagerado e uma solução simplista para o final, muito aquém das expectativas criadas ao longo do filme.



  • Mistress America
Deliciosa comédia dirigida por Noah Baumbach (Frances Ha), Mistress América conta a história de Tracy (Greta Gerwig), uma garota tímida que acaba de se mudar para Nova Iorque para ingressar em uma universidade. Sem conseguir fazer muitos amigos, ela se aproxima de Brooke (Lola Kirke), que está para se tornar a sua meia-irmã. A personagem de Kirke cativa e surpreende pelo seu estilo despojado e autoconfiante, de modo que o público também sinta o mesmo misto de pena e admiração que sente Tracy, que resolve escrever um conto inspirado em Brooke. O roteiro garante boas risadas.

 

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domingo, 23 de março de 2014

Lars Von Trier: a “persona non grata” que todos querem conhecer



Por Juliana Varella

Está em cartaz um dos filmes mais polêmicos dos últimos anos. Provocativo do título ao relógio (são 4h02 na versão editada, somando os dois filmes), “Ninfomaníaca” é um daqueles “tapas na cara” de que o cinema precisa uma vez ou outra para se renovar.

Chacoalhar a mesmisse e tirar seus colegas da zona de conforto nunca foi novidade para Lars Von Trier. O dinamarquês que eliminou paredes em “Dogville”, matou um bebê em “Anticristo” e destruiu a Terra em “Melancolia” parece gostar de tudo aquilo que outros diretores evitam. Tudo o que é tabu lhe é inspiração.

Basta lembrar do episódio de 2011, quando, após declarar que consequia entender Hitler e até simpatizar com ele, foi banido do Festival de Cannes e considerado “Persona non Grata” – frase que depois estampou em sua camiseta no Festival de Berlim. Este ano, Von Trier volta ao evento francês para lançar sua versão estendida de “Ninfomaníaca”.

Mal entendidos à parte, a verdade é que o diretor não se esquiva da polêmica: sexo, religião e a maldade inerente ao homem (disfarçada pela hipocrisia) são seus temas favoritos desde que lançou “Elemento de um Crime” em 1984. Nele, um detetive se envolve tanto com a investigação de um serial killer que começa a se identificar com ele.


Ideias perigosas

O dinamarquês, nascido Lars Trier (o “Von” foi acrescentado depois), sempre soube de seu potencial explosivo: em 87, seu próximo longa mostraria um diretor (ele mesmo) criando um filme sobre um médico (também ele) que espalha uma doença e acaba contaminando o mundo real. Essa doença pode ser o mal-estar que causam os filmes de Lars, ou suas ideias perigosas.

Uma das “ideias perigosas” do cineasta foi o Manifesto Dogma 95, escrito com Thomas Vinterberg (“A Caça”) para guiar o novo cinema dinamarquês nos anos 90. Filmagens in loco, sem acessórios, disfarces, truques de cenografia. Câmera na mão.

As regras serviram mais para dar um novo sentido à arte do país (humanizando também a gastronomia e a arquitetura, como mostrou uma matéria do The Guardian em 2012) do que para petrificar o trabalho do cineasta, por isso logo foram caindo em desuso por seus idealizadores. O minimalismo, em diferentes níveis, pode ser visto em “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dogville”, “Manderlay” e “O Grande Chefe”.



Mentiras de uma sociedade hipócrita

Em “Dançando no Escuro” (2000), o tema da hipocrisia começaria a aparecer com força, desembocando depois no clássico “Dogville” e na comédia de baixíssimo orçamento “O Grande Chefe”, para então reaparecer apoteoticamente em “Ninfomaníaca”.

Naquele primeiro filme, Bjork vivera uma mulher a caminho da cegueira, que juntava dinheiro para salvar o filho da mesma doença enquanto enfrentava traições e injustiças das pessoas à sua volta. Sem medo de encaminhar suas protagonistas (quase sempre mulheres) à tragédia, Von Trier mais uma vez chocava o mundo.

Já em “O Grande Chefe”, sua provocação foi ao universo empresarial, com a história de um CEO fictício, criado (e depois interpretado por um ator exagerado) apenas para vender uma empresa e que, na teoria, não deveria interferir no dia-a-dia dos funcionários nem tomar decisões que os beneficiassem.


Sexo e religião, combinação proibida

A sexualidade feminina, discutida em “Ninfomaníaca” com uma naturalidade poucas vezes vista no cinema, já tinha sido tema de “Ondas do Destino” e “Anticristo”, de formas praticamente opostas (que, talvez, se expliquem numa passagem de “Ninfomaníaca” que fala sobre as Igrejas Ocidental e Oriental).

Em “Ondas”, uma mulher extremamente religiosa se casa com um homem bruto e, quando ele sofre um acidente paralisante, ela passa a procurar outros homens para satisfazer aos desejos do marido e de Deus, sofrendo como tentativa desesperada de salvação do amado.

Já em “Anticristo”, Charlotte Gainsbourg vive uma mãe que perde o filho durante um ato sexual e transforma seu luto, progressivamente, em loucura e violência contra o marido. É também de uma situação impensável que trata “Melancolia”, drama que estuda as reações de diferentes pessoas diante do fim do mundo.



O espelho distorcido

Se Lars Von Trier elege justamente os temas mais espinhosos para trabalhar sua cinematografia, talvez as razões não sejam tão negativas quanto pensam alguns de seus críticos vorazes. Seus filmes são apenas um espelho levemente distorcido da realidade, que evidencia o mal tanto quanto o questiona.

Como afirmou certa vez, o cineasta tem gosto por personagens idealistas, que causam estragos apesar de suas boas intenções. Em “Ninfomaníaca”, a heroína causa a discórdia à sua volta, mas sua verdadeira intenção é combater o preconceito, o machismo e preencher o vazio deixado pela ausência do pai - um modelo imaculado de educação e, provavelmente, seu único amigo.

Há, aí, uma esperança velada de que o espectador repense suas relações pessoais, aceite a si mesmo como é e, surpreendentemente, que acolha e ajude o outro. Mesmo se esse outro lhe causar repulsa.

* Juliana Varella é jornalista formada pela ECA-USP e pós-graduada em Jornalismo Cultural pela FAAP. Atualmente, escreve sobre cinema no Guia da Semana e no site Blogueiras S.A.

Leia as críticas de "Ninfomaníaca": Volume I, Volume II