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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Deus da Carnificina

   
       Roman Polanski é uma daquelas pessoas que tem muito o que contar, muitos sentimentos para extravazar. Sua história é famosa: por um lado, o diretor de clássicos como Chinatown e O Bebê de Rosemary e o ganhador do Oscar pelo longa O Pianista (2002); por outro, o judeu que passou parte da infância na Polônia massacrada pelos nazistas, atormentado devido ao assassinato de sua mulher grávida, condenado por estupro de uma menor e exilado desde 1978. Sem dúvida uma personalidade com trajetória das mais peculiares, Polanski já deixou sua marca no cinema, mas continua a produzir filmes de qualidade. O último é Deus da Carnificina (Carnage), adaptação de uma peça de Yasmina Reza, que coassina o roteiro.
        No longa, o filho de Penelope (Jodie Foster, de Um Novo Despertar) e Michael (John C. Reilly, de Precisamos Falar sobre Kevin) apanha do filho do casal composto por Nancy (Kate Winslet, de O Leitor) e Alan (Christopher Waltz, de Bastardos Inglórios). Os quatro se reúnem no apartamento da primeira dupla para um diálogo de reconciliação, algo muito simples, uma mera formalidade para reforçar os papéis sociais de cada casal. Eles parecem se entender sobre a situação das crianças, entretanto, algumas frases ditas pelos personagens acabam desencadeando discussões que irão além da rixa entre os filhos.
      Polanski apresenta direção e roteiro ágeis, mostrando que num único ambiente, com um pequeno número de personagens, pode-se contar grandes histórias. Os diálogos são afiadíssimos, as cutucadas dos personagens, sutis, entretanto mais que eficazes para o resultado final: quatro personagens comuns desnudados, expostos com seus preconceitos e convicções também muito fáceis de serem encontradas na sociedade.
      Um filme que se constitui à base de diálogos necessita de atores excepcionais. Não é à toa que dois nomes ganhadores do Oscar constituem o time feminino: Jodie Foster e Kate Winslet conduzem o longa e convencem (e muito) em seus papéis - não é à toa que disputaram o Globo de Ouro de Melhor Atriz esse ano. Os homens também não fazem feio, mas não impressionam da mesma maneira que Foster, o maior destaque entre o elenco, impressiona.
         Por fim, vale a pena uma comparação com Cenas de um Casamento (1973), do mestre Ingmar Bergman. As nuances de um casal reveladas por meio de diálogos também já foi um filme - a diferença da obra de Polanski para essa é que ao invés entre uma dupla, a "guerra" agora é entre quatro pessoas, dois casais que acabam de se conhecer - fora que em Deus da Carnificina a instituição do casamento é o menor alvo da sátira do diretor: do workaholic esnobe até o simples americano alienado, da mulher trabalhadora até a mãe dedicada e engajada com questões sociais, passando por vários temas que são mainstream nas sociedades ocidentais hoje - tudo é alvo da crítica de Polanski. Por mais perfeito que alguém pode parecer (ou considerar-se), os defeitos sempre existem e é isso que Deus da Carnificina mostra com êxito.        
         
         
   

domingo, 5 de junho de 2011

Um Novo Despertar

            A sociedade sofre atualmente com os mais diversos tipos de problemas, sejam eles sociais, profissionais, familiares, públicos ou íntimos. Entre tantos, um que sempre se destaca é a depressão, sendo muito comum, pois afinal, quem nunca esteve depressivo? Mas quando ela deixa de ser momentânea e se arrasta por muito tempo, aí está o maior perigo. É nessa situação que se encontra Walter Black (Mel Gibson) no novo filme da premiada Jodie Foster como atriz e diretora, Um Novo Despertar (The Beaver).
           O nível da doença que Walter sofre já é esclarecido nas primeiras cenas, ao observarmos a rotina de sua família: ele chega ao ponto em que não consegue fazer mais nada com a sua vida e tudo o que tenta parece não ajudar, seja ler livros de auto ajuda, tomar remédios ou consultar-se com especialistas. Mesmo com o apoio de sua mulher Meredith, interpretada por Jodie, sua vida que já foi de muito sucesso está no fundo do poço e o homem tenta cometer suicídio, mas é tão fracassado que nem isso conseguiu direito.
           A graça do filme está em como Walter tenta se reerguer após tantas tentativas fracassadas: ele encontra no lixo um velho fantoche de um castor e, num ápice de insanidade, personifica-o como uma outra pessoa, com forte sotaque por sinal, que se torna aparentemente a única que pode ajudá-lo a superar seu estado e seguir com a vida, feliz. Assim, Gibson faz o papel do homem insano que se comunica com um fantoche, pra vergonha de seu filho mais velho (que o despreza) e esperança de sua esposa, que finalmente vê uma chance de seu amado "voltar a viver".
           Além do tema super atual, o filme parece ser a oportunidade perfeita para o ator retomar sua carreira, assim como o castor faz com o personagem de Gibson no filme. Afundado em escândalos, Mel encaixa-se perfeitamente com seu papel, servindo como uma espécie de superação, proporcionada pela amiga que o dirige. Então, tendo uma história que torcemos que ajude o ator a resolver sua vida pessoal e profissional, o filme mostra todo o talento do homem nesse trabalho que exige que ele interprete praticamente dois personagens (o depressivo e o maluco com o castor), e isso ele faz muito bem. Nem a (sempre) ótima interpretação de Foster desvia as atenções do principal por nenhum segundo sequer.
            Um Novo Despertar é um daqueles filmes para pensar na vida, enquanto se acompanha uma história que oscila entre o drama e a comédia, e se emocionar conforme as situações vão se desenvolvendo. A mensagem que esse filme passa é daquelas para se levar pra sempre e faz com que este seja, com certeza, um daqueles filmes para ver e rever sempre que a vida dá algumas recaídas.