Mostrando postagens com marcador Kristen Dunst. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kristen Dunst. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de agosto de 2013

Bling Ring - A Gangue de Hollywood


Por Gabriel Fabri

O último filme de Sofia Coppola, Um Lugar Qualquer, apresentava de maneira um tanto peculiar a crise de um ator de meia idade, no auge do sucesso, que mantinha um relacionamento superficial com sua filha pequena (e com todas as mulheres de sua vida também). A obra mais autoral de Coppola até então, diretora que já havia tratado de temas semelhantes no indicado ao Oscar Encontros e Desencontros, trazia constatações inquietantes e críticas sutis ao universo da fama e ostentação. Em Bling Ring - A Gangue de Hollywood, o tema se faz presente mais uma vez, agora acompanhando a história real de jovens da elite de Los Angeles que queriam ter a vida de seus ídolos - ou, pelo menos, a parte mais atraente dela: o reconhecimento e o glamour.

Baseada na reportagem "The Suspects Wore Louboutins", de Nancy Jo Sales (Vanity Fair), a trama conta a história de dois amigos, cujos nomes reais são Nick Prugo e Rachel Lee, que iniciam uma série de roubos nas mansões de pessoas famosas. Não tarda a outros jovens entrarem nas aventuras, que incluiu roubos a casas de personalidades como Lindsay Lohan, Paris Hilton, Orlando Bloom e Rachel Bilson. Nesse grupo de adolescentes ricos está Alexis Neiers, a "Nicki" no longa, interpretada de maneira excelente por Emma Watson (da série Harry Potter), de longe a melhor atriz do filme.

Apesar de ter um enredo muito pop, digno de um blockbuster hollywoodiano, Sofia Coppola mantém as  marcas autorais que se tornaram mais evidentes em Um Lugar Qualquer. A câmera fica parada, proporcionando planos estáticos, que são muito pouco alternados. Esse tipo de plano, geralmente identificado com um cinema mais reflexivo, pode parecer uma combinação estranha. Todavia, funciona como um belo contraponto ao frenesi dos personagens, da fama, do crime, das festas, da juventude, da trilha sonora hip hop e da era do Facebook, onde tudo é muito rápido, efêmero e superficial, sempre exposto em público. 

Os dois filmes estão intimamente conectados. Basta pensar nas diferenças entre as cenas de pole dance: no primeiro, vimos a decadência de quem a assiste (o público, inclusive, pois se tratava de uma câmera subjetiva) e em Bling Ring, a ascensão (ou decadência?) de quem o dança. Opostos, mas intimamente ligados. A casa do ator de Um Lugar Qualquer poderia ser facilmente assaltada pela gangue, se ele já não fosse um ator de meia idade.

Se em Um Lugar Qualquer o que estava em jogo era se a fama vale mesmo a pena, considerando o que se abdica em nome dela, aqui a crítica é aos sintomas do culto à celebridade. O questionamento é claro: quais são os valores em voga na sociedade ocidental? A história desses jovens mostra que são a fama, a beleza, o dinheiro e o glamour. E o filme constrói ótimas sacadas para discutir isso. Por exemplo, a cena em que a mãe de Alexis segura um cartaz de Angelina Jolie para inspirar as filhas. 

Bling Ring também aborda questões muito atuais, como o uso do Facebook, onde todos agem como celebridades, e a questão do paparazzi, sutilmente colocada. Um recurso, aliás, interessante, é a pesquisa de vídeos e fotos de famosos que saíram na mídia projetada na tela. Uma forma de mostrar personalidades como Lindsay Lohan, sem que ela tenha que fazer uma aparição especial como as de Paris Hilton e Kristen Dunst. Essa última numa autorreferência a outros trabalhos de Coppola, em especial As Virgens Suicidas, que também aborda questões semelhantes e atuais, relacionadas aos problemas da adolescência: o bullying, a exclusão social e a ausência de pais. Que pai dos integrantes da Bling Ring desconfiava dos roubos, mesmo?

Sofia Coppola teve um feeling incrível de como essa história real tem um viés contestador de muitas nuances da sociedade. Toda essa crítica está estampada em Bling Ring - A Gangue de Hollywood, um filme que mostra o quanto a juventude de hoje é problemática, mas, ao mesmo tempo, fascinante. Coppola sabe aproveitar a chance de fazer um filme que seduz e repudia ao mesmo tempo. Ela mostra o quanto esse estilo de vida é sedutor e divertido, e ao mesmo tempo vai além dessa superficialidade. A cena final, fidedigna à personagem na vida real, é a síntese perfeita para um filme em sintonia com o mundo contemporâneo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Quatro Amigas e Um Casamento



O cenário é a despedida de solteiro. Os personagens, um noivo certinho e amigos que querem fazer da véspera do casamento uma noite inesquecível (ou não). O que move a trama, o objetivo de chegar no momento do casamento com tudo resolvido. Pense num filme. Pensou Se Beber, Não Case? Acertou também. A situação em Quatro Amigas e Um Casamento é semelhante, agora com mini-saia e salto alto.

Tudo na trama lembra o citado ganhador do Globo de Ouro de melhor comédia, em 2010. Trocaram o sumiço do noivo pelo vestido rasgado. A diferença é que o trio de amigas da noiva, composto por Regan (Kirsten Dunst), Katie (Isla Fisher) e Gena (Lizzy Caplan), não está de ressaca, e sim sob efeitos de drogas lícitas e ilícitas. As três amigas fazem o estereótipo de "garota popular do colégio", enquanto a noiva interpretada por Rebel Wilson, no papel estereotipado oposto, é a primeira do quarteto a se casar - e, pelo visto, a única aparentemente feliz.

Em termos de enredo, o filme é previsível, como a maioria das comédias americanas. A "versão feminina de Se beber, não case" já tinha outro representante, a comédia Missão Madrinha de Casamento. Claramente tentando colar na fórmula desses dois blockbusters americanos, Quatro Amigas também usa e abusa de piadas de sexo e humor escatológico, se juntando a essa marola de longas de humor para adultos que vem agitando Hollywood.

O filme se salva por dois motivos: o primeiro são as atrizes, principalmente Lizzy Caplan, no papel que rouba a cena de Kirsten Dunst, premiada com a Palma de Ouro ano passado por Melancolia. Por último, e o mais importante: o roteiro e a direção costuram um filme envolvente e dinâmico, com alguns momentos absurdamente engraçados.

Sem nada de novo, Quatro Amigas e Um Casamento não é um filme ruim. Apenas um entretenimento que não tenta ser nada, além disso. 



sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Na Estrada

      
           O primeiro passo para Na Estrada (On The Road) se concretizar num longa metragem foi dado há 55 anos. Em 1957, Jack Kerouac, escritor beat que marcou uma geração e se tornou um dos grandes nomes da literatura norte-americana (cujo maior mérito é atribuído ao livro homônimo no qual o novo longa de Walter Salles se baseia), escreveu uma carta para Marlon Brando pedindo que o ator comprasse os direitos de seu recém-lançado romance. Kerouac estava entediado e queria interpretar o papel de seu alter ego Sal Paradise ao lado de Brando, que interpretaria o lendário Dean Moriarty. No tempo que separa o envio da carta e a estreia de Na Estrada no festival de Cannes em 2012, Francis Ford Coppola comprou os direitos e nomes como Gus Van Sant e Jean-Luc Godard foram desafiados para a adaptação. Sem sucesso, foi preciso um brasileiro para encontrar a direção certa para o filme ganhar vida nas telas.
          A trama conta a história de Sal Paradise (Sam Riley, Control), a partir do momento em que encontra Dean Moriarty (Garret Hedlund, de Tron - O Legado) e sua vida toma um rumo hedonista. Dean é uma figura peculiar, inconsequente, e os dois não tardam a se tornar melhores amigos, seduzidos por vida sem grandes preocupações além de consigo mesmo, onde vigora o princípio Carpe Diem de aproveitar os momentos ao máximo. Focado nas relações entre os dois, o filme mostra a jornada na estrada de Sal à medida que ele vai desmembrando os Estados Unidos como um jovem que não tem um rumo certo a seguir. Bebidas, drogas, bebop, sexo, roubos e prostituição marcam a rotina desses jovens que se tornaram ícones da geração beat. Entre as personagens secundárias, as mulheres de Dean, Marylou (Kristen Stewart, de Corações Perdidos e Branca de Neve e o Caçador) e Camille (Kristen Dunst, Melancolia), o jovem Carlo Marx (Tom Sturridge) e Old Bull Lee (Viggo Mortensen), alter ego do escritor William S. Burroughs, famoso por The Naked Lunch, obra adaptada para o cinema por David Cronenberg.
           O diretor Walter Salles, que já dirigiu consagrados road movies como Central do Brasil e Diários de Motocicleta, já merece aplausos por ter conseguido levar o livro às telas. A estratégia foi simples: organizar as narrativas importantes da obra (incluindo inclusive detalhes do manuscrito original, aquele escrito em três semanas e composto de um único e extenso parágrafo) de maneira que ficassem com menos voltas que no livro, como se a estrada fosse uma só. O resto, nem tanto: Salles percorreu todo o trajeto de Kerouac pelos Estados Unidos e, durante as filmagens, dirigiu seus atores para que trabalhassem de maneira espontânea. O papel feminino no filme também foi ampliado, dando mais importância a essas personagens.
          Na Estrada é uma ótima adaptação, ainda mais com esses pequenos detalhes acertados por Salles. Como visto nos últimos trabalhos do diretor, é evidente o seu talento por trás das câmeras, ainda mais quando elas estão na estrada. Nenhum detalhe importante do livro é deixado de lado, sendo o filme uma boa síntese, com uma fotografia incrível. Entretanto, é uma obra que peca pelo seguinte detalhe: Jack Kerouac escreve com ritmo, inspirado no bebop, uma vertente do jazz, e o filme de Salles parece que perdeu a essência - é uma jornada que chega a ficar chata de se acompanhar, em alguns momentos. Mas, de qualquer forma, não é algo muito diferente do que acontecia no livro, que apesar de muito mais apaixonado, não é uma obra fácil também.
          A cena em que Marylou e Dean dançam, muito animados, no meio do filme, é excelente para sintetizar o livro, e o filme também, cujo resultado é positivo. Ela, assim como outros momentos do longa, se encaixa perfeitamente com o espírito das páginas, onde Kerouac escreveu definições perfeitas para sua própria obra, como essa passagem, que salta aos olhos de qualquer um que ler as páginas: "pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam - como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'." O efeito desse trecho no filme não consegue ser tão explosivo, infelizmente - faltou aquilo que Kerouac chama de "it", um conceito tão forte que talvez seja a única coisa que Salles não conseguiu transpor. De qualquer maneira, não anula a grande quantidade de pontos positivos de Na Estrada, filme com força para concorrer aos grandes prêmios no final do ano.