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quinta-feira, 8 de março de 2012

Tão Forte e Tão Perto

     
       O 11 de setembro, mais de dez anos após os atentados às torres gêmeas em Nova York, ainda é um tema pouco explorado pelo cinema. As Torres Gêmeas tentou cutucar a ferida, sem muito êxito, e Voo United 93 ousou mais e realizou uma obra alucinante. O assunto voltou a tona num excelente drama, indicado ao Oscar de Melhor Filme (talvez a única indicação realmente imprevisível de 2012), que surpreendentemente supera expectativas e muitos outros filmes da lista desse ano.
       O estreante Thomas Horn (VI) é Oskar Shell, um garotinho com dificuldades de comunicação cujo pai, interpretado por Tom Hanks (num papel importante, mas que não exigiu nada do ator), morreu no ataque às torres. Um ano após a data, ele finalmente tem coragem para mexer nas coisas de seu pai, e encontra uma chave. Começa então uma jornada para procurar a fechadura que se abrirá coma chave, numa última tentativa de mantê-lo conectado com seu pai. Pode ser uma jornada louca em vão, mas para Oskar, ele não tem muito a perder, entretanto tem muitos motivos para estender o tempo em que o personagem de Hanks ainda brilha pra ele, como a luz do sol depois de explodir. Nessa jornada, cruzaram em seu caminho diversas pessoas (por exemplo, Abbey Black, interpretada por Viola Davis, de Histórias Cruzadas), com diversas outras histórias.Um velhinho mudo, que rendeu a Max von Sydow uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, será parte importante nessa missão.
      Quem comanda essa história peculiar é Stephen Daltry, indicado ao Oscar por O Leitor e As Horas. Com essas duas obras primas no currículo, Daltry faz juz ao nome e recorta a história em flashbacks soberbamente costurados. No começo da projeção, as coisas andam meio devagar, mas é apenas o roteiro afiado e as mãos desse diretor trabalhando para preparar o público para se emocionar e muito. A fotografia, a trilha sonora, os atores, a estrutura alinear - tudo colabora para a harmonia da obra, que não guarda emoções só para o final.
    As melhores cenas, pelo menos até Sydow aparecer, são as que envolvem a mãe do menino, interpretada por Sandra Bullock (vencedora do Oscar por Um Sonho Possível). A atriz começa o filme bem apagada, mas nos momentos em que sua personagem está no centro do conflito, o longa se prova muito profundo, e arrasta o espectador para os dramas dessa família complicada. Bullock é coadjuvante, mas tem mérito nas primeiras cenas mais dramáticas e nas outras que se sucedem, à medida que o desfecho se aproxima. Quando Max von Sydow aparece, um novo gás e acrescentado à trama, que se torna deliciosa de acompanhar, o que torna as cenas mais dramáticas ainda mais emocionantes.
      Se a direção desses atores é perfeita, o que falar então de Horn? Ele lembra muito o menino Hugo Cabret, que tinha a fechadura mas não a chave, só que com muito mais maturidade. Ele tem seus traumas e medos numa dimensão bem maior que a de Hugo, de maneira que sua busca pelo segredo do pai se torna muito mais carregada de emoção, pois Oskar parece ter perdido a infância (ou retomado-a com sua busca?). A semelhança entre os dois concorrentes ao principal prêmio do ano pode ser gritante, mas as diferenças são maiores. Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close) passa longe de ser um filme infantil ou uma ode ao passado: é uma obra sobre superação e o resultado deve entediar as crianças e fazer os adultos chorarem como se fossem uma.
        Incrivelmente terno e extremamente emocionante. É a melhor maneira de definir o trabalho comandado por Stephen Daltry, que surpreende com reviravoltas por não cansar de emocionar. Melhor levar lenços no lugar da pipoca, porque esse é um dos filmes mais lindos que o cinema exibiu recentemente. Por fim, nada menos que justa a indicação ao prêmio mais cobiçado do audiovisual: algum dia uma obra desse diretor ainda ganha o Oscar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas

   
       Como você se sentiria cuidando do filho de uma pessoa enquanto o seu próprio é criado por outra? Essa é uma das perguntas que Aibileen, interpretada pela duas vezes indicada ao Oscar Viola Davis (Dúvida), deve responder no início de Histórias Cruzadas (The Help). Tal ponto é apenas um dos desafios da dura rotina dessa empregada doméstica, que será peça importante nesse longa que explora de maneira envolvente os preconceitos da sociedade americana em meados do século XX.
        Na trama, Eugenia (ou "Skeeter"), interpretada por Emma Stone (Amor a toda prova), é uma aspirante a jornalista que, sendo grande admiradora da empregada que a criou e observando o modo como elas são tratadas na sua cidade natal, em Mississipi (o Estado americano mais segregacionista da época), resolve escrever um livro contando o dia-a-dia das empregadas domésticas, pelo ponto de vista delas. Tal livro é A Resposta, de Kathryn Stockett, no qual esse filme foi baseado.
        O longa mostra todo o racismo e a segregação da sociedade americana em relação aos negros e reconstrói um cenário onde foi preciso muita coragem para as domésticas resolverem se expressar e colaborar para a realização do livro. A relação patroa e empregada é friamente retratada e chega, algumas vezes, a chocar o espectador de hoje. Mas em meio a todo esse preconceito, essas mulheres podem ter a vez de finalmente terem uma voz.
        Os personagens são muito bem construídos, o que justifica a longa duração da obra. O filme cumpre o que promete, e o grande mérito é das atrizes, principalmente Octavia Spencer, no papel da doméstica Minny. Entre as patroas, Bryce Dallas Howard (A Dama na Água, Manderlay) e Jessica Chastain (A Árvore da Vida) também merecem destaque, e Emma Stone vira mera coadjuvante em meio a tanto talento, mas faz bonito no que talvez seja o papel mais importante de sua carreira até agora. Das quatro indicações ao Oscar que o filme recebeu, uma é a de melhor filme e as outras três são para as atrizes: Davis, Spencer e Chastain. Seria uma grande injustiça nenhuma delas sair premiada esse ano, sendo Spencer a melhor, que concorre como coadjuvante com Chastain.
         Uma bela história com roteiro afiado e atrizes excelentes, Histórias Cruzadas não tem a força e a emoção de outro filme sobre o tema, o clássico A Cor Púrpura, de Steven Spielberg. Entretanto, é um belo filme, que deve agradar a todos e mereceu todas as indicações a que concorre e o grande sucesso de bilheteria que foi nos EUA.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Globo de Ouro 2012

     
      Foi ontem a 69ª edição do Golden Globe Awards, prêmio dado por jornalistas da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood anualmente ao melhor do cinema e da televisão. Os principais prêmios da noite não foram nenhuma surpresa, mas os cem votantes surpreenderam ao consagrar grandes nomes em detrimento de novos.
      The Artist, filme mudo e em preto e branco, se saiu melhor com o prêmio de melhor filme comédia/musical, melhor trilha sonora e melhor ator para Jean Dujardin. O melhor drama ficou para Os Descendentes, que não levou melhor diretor como esperado. Apesar do favoritismo do filme de Alexander Payne, achei possível que Histórias Cruzadas levasse a melhor. Não aconteceu.
      O destaque foi o reconhecimento de alguns dos melhores de Hollywood. Martin Scorsese surpreendeu ganhando melhor diretor; Meryl Streep ganhou melhor atriz por interpretar Margaret Tatcher em A Dama de Ferro, numa categoria disputada por dois nomes novos, mas de peso: Viola Davis (Histórias Cruzadas), que já foi indicada ao Oscar anteriormente, e Rooney Mara (Millenium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres). Outro grande ator premiado foi George Clooney, por seu papel no filme vencedor na categoria drama. Kate Winslet e Jodie Foster sairam de mãos abanando com Carnage, mas a primeira ganhou seu terceiro Globo de Ouro por um papel na série Mildred Pierce.
      E, mais uma vez, o pop ganhou destaque na categoria de Melhor Canção: depois de Cher ano passado, com a canção do filme Burlesque, Madonna saiu vitoriosa com seu segundo Globo de Ouro (o primeiro foi em 1997, de melhor atriz por Evita), por Masterpiece, que faz parte da trilha sonora do seu primeiro filme relevante como diretora, W.E. - O Romance do Século. A vitória, que ninguém esperava, causou barulho na internet por causa de declarações do cantor Elton John no tapete vermelho de que seria impossível a Rainha ganhar esse prêmio. A cara dele agora circula em .gif pelos sites de música pop da Internet. Madonna ainda arrancou risadas ao brincar com Ricky Gervais, o apresentador da cerimônia, durante o anuncio do prêmio de melhor filme estrangeiro. Ricky, ao anunciar a "rainha do pop", brincou com Elton falando que não era ele, e apresentou a diva como "ainda uma virgem", que serviu de pretexto para ela mostrar que tem língua afiada.
     Meryl Streep, Madonna, George Clooney, Martin Scorsese, Kate Winslet. Grandes nomes que saíram premiados na noite do dia 15 de janeiro, não dando chances para atores como Ryan Gosling ou Rooney Mara faturarem seus primeiros prêmios. Mas o importante da noite foi mesmo beber champagne e agora nos resta torcer para que The Artist estréie logo por aqui (o filme ainda não foi comprado pelos distribuidores brasileiros).