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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O Homem Irracional


Por Gabriel Fabri

Dizem por aí que Woody Allen, nessa fase de fazer um filme por ano, faz um bom filme a cada dois anos. É claro que isso não passa de uma constatação curiosa, tão válida quanto a tal maldição do elenco de Friends, mas após o fraco Magia Ao Luar, é muito bom ver que chegou mesmo a vez de o cineasta entregar um divertido e intrigante longa-metragem. O Homem Irracional não vai figurar entre os grandes filmes de Woody Allen, como o recente Blue Jasmine, mas é uma deliciosa experiência cinematográfica.



O professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um reconhecido e controverso profissional. Sua chegada a uma nova universidade desperta a curiosidade de todos - é verdade que ele ficou mal porquê seu melhor amigo morreu no Iraque? Ou por que sua ex-mulher o traiu com esse melhor amigo? Verdade que ele tem um caso com uma estudante? Pessimista, Abe passa por uma crise existencial. Sua reputação controversa ou os boatos não parecem incomodá-lo e nem a proximidade com uma de suas alunas, Jill (Emma Stone), parece animá-lo. Até que um dia ele escuta uma conversa em uma lanchonete e resolve cometer o crime perfeito - assassinar um completo estranho.

Abe é o típico personagem de Allen, uma espécie de seu alter-ego, como visto em tantos filmes. Intelectual, questionador, meio de mal humor com a vida. Desde o início da trama, porém, o personagem cativa, com os diálogos afiados do roteiro e a boa atuação de Phoenix, cujo personagem muda completamente de postura após ter a sua "brilhante" (para ele, pelo menos) ideia. Emma Stone, porém, cativa ainda mais, com uma personagem graciosa e cheia de personalidade. A história da aluna que quer dormir com o professor é velha, mas aqui ela ganha contornos inesperados. Jill é uma personagem complexa, autêntica e bastante cativante.

Nesse longa-metragem, é interessante observar como, ao falar de filosofia, Allen retorna, mesmo que indiretamente, ao tema central do filme anterior, a magia. O personagem de Phoenix, afinal, descreve a filosofia como um besteirol, que não tem nada a ver com a realidade. Há também a questão das pessoas dramatizarem tudo, desde as fofocas sobre o passado de Abe até uma teoria maluca - que, o público sabe, não é tão maluca assim. Isso apenas para aguentar uma vida sem graça, que precisa de distrações (drama, fofocas, filosofia, religião ou um crime).  E Abe só descobre um sentido para a sua quando resolve, voilá, brincar de assassino, trocando o 'falar' pelo 'fazer', de uma maneira pouco racional. Há algo mais irracional que a mágica? A filosofia aqui, ao racionalizar a vida, acaba entrando no campo da abstração. É a filosofia como uma espécie de religião, tema que não aparece diretamente no filme, mas que está intimamente ligado a questão da mágica. Allen fala, portanto, sobre magia, sem tirar coelhos da cartola.

A dinâmica da dupla Abe e Jill funciona demais e o resultado é um filme que, após o final surpreendente, pode deixar o público com vontade de continuar sentado e rever toda a história de novo na próxima sessão. Afinal, se matar é um ato que exige criatividade, é preciso de muita para fazer um filme como O Homem Irracional, uma comédia sobre filosofia, romance e um assassinato, funcionar bem. Alguns podem ter a sensação de que é "mais do mesmo", de que não é um filme inovador na carreira de Woody Allen. Mas, poxa, há um inegável frescor aqui, desses raros de se encontrar ultimamente. E, para atingir isso, o diretor nem precisou explorar a beleza de uma nova cidade.     

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Magia Ao Luar


Por Gabriel Fabri

O ofício de um mágico de circo é o de impressionar o público com ilusões - colocando na frente dos espectadores a magia que apenas a imaginação deles, ou no caso um bom truque, poderia criar. Esse entretenimento funciona, assim, como uma maneira de trazer um pouco de distração para as pessoas, estimulando-as a sonhar. O mesmo se pode dizer sobre o cinema, que também trabalha com a ilusão. Por isso, nada mais correto que o alter-ego de Woody Allen, diretor de "Magia ao Luar", ser, nesse filme, o mágico interpretado por Colin Firth.


Firth é Stanley, um mágico bastante famoso do final da década de 1920. Ele se autointitula um especialista em desmascarar farsantes que se passam por videntes - cético e rabugento, ele não acredita em magia, religião e em mais nada que não possa ser cientificamente comprovado. Com ele, é ver para crer. Por isso, ele viaja para o sul da França com o objetivo de desmascarar a bela Sophie (Emma Stone), que dizem ser uma médium de verdade. Entretanto, provar que Sophie é uma charlatã se revela mais difícil do que parecia. 

Allen, diretor com um currículo dos mais impressionantes, continua surpreendendo com seus diálogos afiadíssimos e a ótima direção de atores. Firth e Stone aqui brilham em seus papéis. O cômico cinismo do personagem de Firth e sua personalidade egocêntrica garantem boas piadas, enquanto a interessantíssima personagem de Stone contrabalanceia o ceticismo e a tristeza do outro e conquista rapidamente a simpatia do público com os gestos que faz para ter as suas visões.

O problema de "Magia ao Luar" é que, mesmo com todo o humor característico dos filmes do Woody Allen e as boas atuações, a trama acaba se estendendo demais, e, assim, o personagem principal perde um pouco de seu (des)encanto. A sensação é que o trabalho para lapidar os diálogos foi inversamente proporcional ao trabalho de construção da trama, cuja grande revelação soa forçada e o final fofo e irreverente não foge da sua previsibilidade. No fim das contas, "Magia ao Luar" parece um filme "mais do mesmo" na carreira de Woody Allen, sem agregar nada de substancioso. 

Apesar de ser fraco comparado com muitos outros filmes recentes do diretor, como "Blue Jasmine", "Meia Noite em Paris" ou "Tudo Pode Dar Certo", os fãs do Woody Allen irão se deliciar com os pontos fortes do longa e toda a discussão sobre o quanto o ceticismo e a crença no místico podem ser benéficos ou prejudiciais para as pessoas. Não acreditar em magia nenhuma não é sinônimo de sanidade. E Allen deixa claro que, apesar de toda a descrença do seu personagem principal, ninguém pode viver sem algum tipo de mágica. Escolha a sua, mesmo que ela seja o próprio cinema.

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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Meia-Noite Em Paris

            A geração do século XXI não conhece muito Woody Allen. Para alguns, é apenas algum diretor velho que fez muito sucesso, enquanto para outros esse é apenas um dos muitos nomes que se ouve de adultos sem o menor interesse de saber quem é. Limitado nos EUA com lançamentos de pequenas circulações, o que muita gente está perdendo é talvez um dos melhores e mais marcantes diretores do cinema e, que desde que iniciou sua carreira em 1965, vêm trazendo obras memoráveis que são cultuadas até hoje.
            Se Allen não atrai mais uma grande massa de espectadores, ele pelo menos continua a ativa trazendo filmes ora interessantes, ora malucos, ou ambos. Aproveitando a liberdade criativa total que possui para realizar seus filmes, o diretor ultimamente vem abandonando um pouco Nova York e percorrendo o mundo, ambientando suas tramas nos lugares mais tradicionais, opostos as histórias criativas que cria. E um belo exemplo disso é o novo longa 'Meia-Noite Em Paris' (Midnight In Paris), um dos destaques do 64º Festival De Cannes.
            O filme acompanha a história de Gil (Owen Wilson) que vai à Paris com sua noiva Inez (Rachael McAdams). Ele é um roteirista de Hollywood que escreveu um livro e está confiante de que fará sucesso, mas tem vergonha de mostrá-lo até para sua futura esposa. Sua maior ambição é morar em Paris e viver naquela cidade maravilhosa e sonha acordado com a Paris dos anos 20, desejando ter vivido lá naquela época. Porém, um dia a meia-noite sua vida muda quando misteriosamente entra numa carruagem e parte numa noite cheia de classe, onde conhece alguns de seus ídolos como Hemingway. Seria perfeito, se não fosse por um detalhe: eles não estavam mortos?
             Assim, o que parecia ser uma história sobre amor por uma cidade idealizada desde a Belle Epoqué acaba se tornando uma divertida fantasia que transgride entre o presente e o passado na Cidade Das Luzes. Somos então mergulhados a uma interessante mistura de duas épocas numa Paris retratada com muita delicadeza, que transmite toda a beleza da cidade da maneira que o personagem a idealiza. O fascínio pelo lugar fica evidente logo antes do título do filme aparecer e se mantém independente de qual época o protagonista está. E mesmo que o romantismo, o idealismo e o subjetivismo do filme possam parecer antiquados para os filmes de agora, Allen ainda vai mais fundo ao recordar grandes mestres do século XX, sem perder noção da realidade atual e seu bom humor de sempre.
             Criativo, subjetivo e divertido. São as três palavras que melhor descrevem essa obra que vai fazer qualquer pessoa que conheceu ou quer conhecer Paris feliz. Se o passado é o que parece ser mais idealizado aqui, Allen mostra que o presente também tem seu valor. O sucesso de antes pode ter sido bom, mas Allen prova que continua aguçado e talentoso, entregando mais um filme memorável.