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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Wrong



Um bombeiro abaixa as calças no meio de uma rodovia, abrindo um jornal enquanto faz suas necessidades. Um grupo de homens musculosos e de óculos escuros assiste tranquilamente à cena, cada um na sua, encostado no caminhão de bombeiros. Na frente deles, uma van em chamas. É com esse clima estranho de anormalidade que Wrong, de Quentin Dupieux, se inicia, para dar o tom de que, nesse filme, situações "normais" serão exceção.

Na trama, Dolph Springer (Jack Plotnick) é um pacato morador do subúrbio. Um certo dia, ele desperta, como rotineiramente, às 7h60, entretanto, não encontra o seu cachorro Paul. Quando descobre que seu animal sumiu com um propósito, Dolph tentará entrar em contato com ele por telepatia.

O filme é bastante criativo em suas maluquices, ora sustentadas com elementos surrealistas, ora com diálogos absurdos (estranhos, mais plausíveis). Ao contrário do genial Holy Motors, esses recursos não são usados para provocar ou incomodar o espectador, e sim para criar o efeito de humor, onde a obra falha em algumas passagens, e a atmosfera de anormalidade, contrastada com a fotografia clean e o fato de toda a situação se passar em dias ensolarados.

Todavia o que está errado em Wrong não são as situações e diálogos bizarros. É o que está por traz de todos esses elementos, uma contestação um tanto inquietante: a solidão da vida suburbana, a derrocada da cultura do individualismo. Afinal, o que liga os quatro personagens de destaque no filme são o fato de que eles são sozinhos e vazios, tanto de sentido quanto de significado.

Se o cachorro era, na renascença, o símbolo da melancolia, aqui, ironicamente, ele simboliza todo o sentido da vida de seu dono. Sem o cão, o que sobra de Dolph? O emprego do qual ele foi demitido há três meses e continua indo trabalhar? Suas inquietações sobre o logo de uma pizzaria? O mistério da palmeira que virou pinheiro?

Dolph é a caricatura de um personagem que, por trás de aparente normalidade, é um excluído da sociedade, isolado em sua própria bolha, incapaz de criar vínculos sociais que não sejam passageiros. Entretanto, Dolph não é o único: Wrong é o relato de uma sociedade ocidental doente e perdida atrás de algum sentido. Quem não perceber isso vai tentar procurar, em vão, algum sentido para o filme, que pode parecer um tanto forçado demais para os mais desatentos. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A Espuma dos Dias


A obra mais famosa de Michel Gondry, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, traz uma envolvente história de amor que se constrói por meio de um embaralhado de sonhos e lembranças, decorrente da tentativa do personagem de Jim Carrey apagar da cabeça sua ex-namorada, interpretada por Kate Winslet. Ganhador do Oscar de Melhor Roteiro, o filme jogava o casal num caleidoscópio surreal de situações, a medida que nos contava toda a trajetória do casal, sem respeito à linearidade. Em A Espuma dos Dias (L'écume des jours), o diretor novamente apresenta uma história de amor com toques surrealistas, partindo agora de um romance de Boris Vian.

Colin (Romain Duris) é um homem que nunca trabalhou na vida, por ter herdado uma fortuna. Seu sucesso com as mulheres, entretanto, não é tão grande quanto o de seu cozinheiro, Nicolas. Mas a falta de habilidade do homem na hora da paquera acaba despertando o interesse de Chloë (Audrey Tautou), e eles não tardam a se encontrar novamente. Tudo vai como num conto de fadas até uma flor de Lotus se instalar nos pulmões da dama.

A primeira sensação que o longa causa é de estranheza. Gondry exagera ao criar seu mundo mágico, que beira o infantil, e faz questão de apresentar todas as engenhocas produzidas pela direção de arte, deixando os personagens em segundo plano. Até o momento em que a personagem de Tautou aparece, Gondry não apresenta nada que a Disney - ou qualquer outro estúdio em suas obras voltadas ao público infantil - não tenha feito.

À medida que o romance se desenvolve, a obra de Gondry fica mais interessante e o mundo fantasioso criado começa a fazer sentido na trama, dando o tom de encantamento procurado para o relacionamento do casal. Mas o que até o momento era apenas um filme água com açúcar com umas bizarrices vira algo muito melhor a partir da reviravolta gradual causada pela descoberta da flor. É desconstruindo o mundo com o qual Gondry tentava encantar o espectador que A Espuma dos Dias acerta a mão. O tom de fantasia e as engenhocas surreais se encaixam perfeitamente com a parte "mais real" do enredo, chegando, em alguns detalhes, até a surpreender o espectador. 

Ao contrário de Brilho Eterno, que tinha em seu roteiro genial um quebra cabeça que transformava uma história de amor simplória numa emocionante jornada, aqui Gondry parece mais preocupado em recriar o ambiente surrealista do livro em que se baseia. Ele torna esses objetos (e as pernas que se alongam) o diferencial da obra. Embora o resultado final seja bastante positivo, fica a sensação de que, se o mundo criado não fosse tão mágico (ou aquele ratinho irritante aparecesse menos), o filme pudesse mexer mais com as emoções dos personagens, e, consequentemente, com as do espectador. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Holy Motors


O Surrealismo começou na França e se tornou uma vanguarda importante do cinema por meio, principalmente, do cineasta Luis Buñel (O Cão Andaluz), inspirado pelo Manifesto Surrealista de André Breton. A ideia era a arte menos como representação e mais como algo indefinido, abstrato, psicológico, liberto da lógica e da razão. Na atualidade, David Lynch (Cidade dos Sonhos) é conhecido por usar recursos surrealistas em suas últimas obras, donde se destaca o enigmático Império dos Sonhos. Holy Motors, do francês Leos Carax, não parece ser um filme dessa corrente de início, mas essa não tarda a se mostrar a característica mais marcante da obra, que integrou a competição de Cannes em 2012.

Na trama, Oscar (Denis Lavant) vai trabalhar numa limusine branca, onde descobre que tem nove encontros agendados. Ele aparenta ser um executivo comum até quando começa, dentro do veículo, a se transformar em outra pessoa. Para cada um de seus noves compromissos, Oscar reserva surpresas para os espectadores. No elenco, Eva Mendes e Kylie Minogue fazem pontas.

Por que ele faz o que faz ou quem o pagaria para fazer esses "trabalhos" são apenas algumas das milhares de perguntas que poderão passar pela cabeça de quem assiste ao filme, que, propositadamente, nem cogita entregar as respostas. Pelo contrário, a medida que o espectador vá formulando suas ideias sobre o sentido do que vê, novas informações são dadas e, novamente, mais perguntas serão formuladas. Esse recurso pode deixar perdido o espectador mais preguiçoso, entretanto, é o ponto alto do filme, pois o deixa muito intrigado e permite que ele participe muito na construção do significado da obra.

Sobre o que se trata o filme? Tudo, menos sobre um maluco dentro de uma limusine. É sobre cinema, com um ator desempenhando vários papéis, numa espécie de metalinguagem nonsense? É sobre a vida, nossas escolhas e suas consequências, o desejo de voltar e fazer tudo diferente? É sobre nós mesmos e nossas várias faces que compõe nosso caráter, o castigo de sermos quem somos em nossas próprias imperfeições? É sobre a sociedade capitalista, em que homens enlouquecem, banqueiros precisam morrer, o sexo é virtual, a ambição é o motor da vida, propagandas são postas até em lápides, é possível ter intimidade com alguém que não se sabe nem o nome, tudo algum dia fica obsoleto? É sobre religião ou a falta de?

Em suma, Holy Motors é um daqueles filmes que ou você ama, ou, odeia. É necessário atenção e criatividade para ligar os elementos e compor uma versão própria. O espectador decidirá sobre o que é o longa (se conseguir). A única coisa indiscutível: é um filme ousado e intrigante como poucos, onde o importante não é entendê-lo, o que é difícil em grande parte dos filmes surrealistas, e sim tentar. Lynch aplaudiria de pé.