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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um Amor a Cada Esquina


Por Gabriel Fabri

Em um breve momento nonsense, Arnold (Owen Wilson) e sua esposa (Kathryn Hahn) discutem a sua relação em um táxi. O taxista, após rodar meio quarteirão, abandona sem mais nem menos o próprio carro no meio da rua e pega carona em um outro táxi, deixando o casal sozinho. Esse não é, entretanto, o momento mais inacreditável da comédia Um Amor a Cada Esquina (She's Funny That Way), de Peter Bogdanovich. O longa-metragem provoca humor a partir de um leque de personagens que se cruzam de maneira que, se fosse na vida real, ninguém acreditaria. Entretanto, essa é a graça do filme.


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  • O longa-metragem começa com uma entrevista de Izzy (Imogen Poots), ocasião em que ela iria contar a história de sua vida, a partir do dia em que conheceu Arnold, um diretor teatral. Na época, a garota trabalhava como acompanhante de luxo e, após realizar um programa com Arnold, este lhe dá trinta mil dólares para que ela siga os seus sonhos e abandone o mundo da prostituição. O problema é que ela aceita a proposta e, no dia seguinte, vai a uma audição para um papel na Broadway - de um espetáculo dirigido justamente pelo "homem que mudou a sua vida" e com a esposa dele no elenco. Como os outros personagens se encaixam nessa salada, como o de Jennifer Aniston (divertidíssima, por sinal), melhor deixar a surpresa para o espectador. 

    Na cena inicial, a personagem de Imogen já deixa claro que a história de Um Amor a Cada Esquina será um tanto fantasiosa, como um conto de fadas. Ela diz acreditar em finais felizes e nas histórias glamourosas dos anos de ouro de Hollywood, e até "aumenta um ponto" ao falar sobre as fofocas dos atores de cinema. O que a sua história teria de diferente é que o príncipe encantado era um homem comum, e não alguém em um cavalo. Mas se só por essa trama do homem com trinta mil dólares e o reencontro na audição já poderiam tornar a história do longa-metragem de Bogdanovich uma daquelas "que só acontecem em filmes", a obra vai muito além disso e exagera nas "coincidências", como colocar todos os personagens do longa-metragem indo sem querer no mesmo restaurante italiano, em uma cena hilária.

    Com uma sequência de situações absurdas, que garantem humor para a trama, Um Amor a Cada Esquina conquista o espectador. O interessante, porém, é pensar no que o filme nos diz sobre o cinema e sobre a vida: o mundo é um lugar pequeno, sim. Mas a nossa imaginação, não. E essa história, Izzy conduz tão despretensiosamente que não importa o quão inacreditável ela possa ser, ela fica crível. Por que, afinal, quem nunca viveu algo e pensou: "se isso fosse um filme, eu não iria acreditar"? 


    quinta-feira, 8 de outubro de 2015

    Horas de Desespero



    Por Gabriel Fabri

    Estrelado por Owen Wilson e Lake Bell, Horas de Desespero tem um começo nada promissor. Jack Dwyr chega com sua esposa e suas duas filhas para um país na Ásia, que tudo indica ser a Cambodia. Após uma tentativa de ser engraçado com um taxista que acredita ser parecido com o músico country norte-americano Kenny Rogers (Sahajak Boonthanakit), o filme apresenta a família chegando no hotel, onde nada funciona: celular, telefone, internet. Bem-vindo ao terceiro mundo? "Na verdade, aqui é o quarto mundo", responde preconceituosamente o personagem de Wilson, sem saber exatamente o que isso quer dizer.


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    • Famoso por seus papéis em comédias, Wilson aqui sai do seu lugar comum e se aventura em um suspense. Isso pois logo acabam as tentativas constrangedoras de Horas do Desespero ser engraçadinho e o longa-metragem decola com força. Ao sair para comprar um jornal de três dias atrás, Jack se vê no meio de um confronto entre polícia e uma milícia. Vitoriosa, a numerosa gangue segue em direção ao hotel onde a família do norte-americano está hospedada. Na porta do prédio, eles executam um outro estadunidense que estava hospedado. Começa então uma caçada aos estrangeiros, da qual Jack é um dos alvos principais - e diante desses rebeldes, nem as filhas do personagem serão poupadas, se ficarem na mira das espingardas. 

      Diretor do claustrofóbico Demônio e de Quarentena, refilmagem norte-americana do terror espanhol Rec, John Erick Dowdle trabalha bem o suspense do filme, diante de uma ameaça que não é sobrenatural, como nas suas obras anteriores. O ritmo é alucinante, a tensão é grande e a crueldade também. Misturando ação e terror, o filme surpreende positivamente e algumas cenas são chocantes. Como a sequência em que os quatro precisam pular de um prédio para outro para sobreviver - algo que vemos tanto em filmes de ação, aqui é tratado com o horror necessário: como um pai pode pedir para uma menina que não deve ter nem seis anos dar um salto desses? E essa nem é a cena mais tensa do filme. 

      No único momento em que o filme dá um descanso para o espectador, há ainda espaço para uma reflexão sobre toda a situação, impulsionada pelo personagem misterioso de Pierce Brosnan (ex-James Bond na série 007).  A crítica é ao imperialismo, a dominação econômica dos países ocidentais sob os subdesenvolvidos, que inclui a exploração de mão de obra barata e o controle de recursos naturais. Na trama do filme, o caso é a água, que passaria ao controle das empresas estrangeiras. Hammond, o personagem de Brosnan, diz que os rebeldes são como o personagem de Wilson: estão lutando pelos seus filhos. Apesar desse discurso clichê, que supostamente deveria humanizar os vilões do filme. o longa-metragem é tão bem construído que essa afirmação tola logo se perde - matar todo mundo a sangue frio não é luta. Além de descarregar muito adrenalina nos espectadores, Horas do Desespero impulsa essa reflexão sobre o uso da violência por questões políticas, e também sobre o uso dela para a sobrevivência.