Mostrando postagens com marcador Pierce Brosnan. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pierce Brosnan. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Horas de Desespero



Por Gabriel Fabri

Estrelado por Owen Wilson e Lake Bell, Horas de Desespero tem um começo nada promissor. Jack Dwyr chega com sua esposa e suas duas filhas para um país na Ásia, que tudo indica ser a Cambodia. Após uma tentativa de ser engraçado com um taxista que acredita ser parecido com o músico country norte-americano Kenny Rogers (Sahajak Boonthanakit), o filme apresenta a família chegando no hotel, onde nada funciona: celular, telefone, internet. Bem-vindo ao terceiro mundo? "Na verdade, aqui é o quarto mundo", responde preconceituosamente o personagem de Wilson, sem saber exatamente o que isso quer dizer.


  • Curta a página do blog no Facebook   



  • Famoso por seus papéis em comédias, Wilson aqui sai do seu lugar comum e se aventura em um suspense. Isso pois logo acabam as tentativas constrangedoras de Horas do Desespero ser engraçadinho e o longa-metragem decola com força. Ao sair para comprar um jornal de três dias atrás, Jack se vê no meio de um confronto entre polícia e uma milícia. Vitoriosa, a numerosa gangue segue em direção ao hotel onde a família do norte-americano está hospedada. Na porta do prédio, eles executam um outro estadunidense que estava hospedado. Começa então uma caçada aos estrangeiros, da qual Jack é um dos alvos principais - e diante desses rebeldes, nem as filhas do personagem serão poupadas, se ficarem na mira das espingardas. 

    Diretor do claustrofóbico Demônio e de Quarentena, refilmagem norte-americana do terror espanhol Rec, John Erick Dowdle trabalha bem o suspense do filme, diante de uma ameaça que não é sobrenatural, como nas suas obras anteriores. O ritmo é alucinante, a tensão é grande e a crueldade também. Misturando ação e terror, o filme surpreende positivamente e algumas cenas são chocantes. Como a sequência em que os quatro precisam pular de um prédio para outro para sobreviver - algo que vemos tanto em filmes de ação, aqui é tratado com o horror necessário: como um pai pode pedir para uma menina que não deve ter nem seis anos dar um salto desses? E essa nem é a cena mais tensa do filme. 

    No único momento em que o filme dá um descanso para o espectador, há ainda espaço para uma reflexão sobre toda a situação, impulsionada pelo personagem misterioso de Pierce Brosnan (ex-James Bond na série 007).  A crítica é ao imperialismo, a dominação econômica dos países ocidentais sob os subdesenvolvidos, que inclui a exploração de mão de obra barata e o controle de recursos naturais. Na trama do filme, o caso é a água, que passaria ao controle das empresas estrangeiras. Hammond, o personagem de Brosnan, diz que os rebeldes são como o personagem de Wilson: estão lutando pelos seus filhos. Apesar desse discurso clichê, que supostamente deveria humanizar os vilões do filme. o longa-metragem é tão bem construído que essa afirmação tola logo se perde - matar todo mundo a sangue frio não é luta. Além de descarregar muito adrenalina nos espectadores, Horas do Desespero impulsa essa reflexão sobre o uso da violência por questões políticas, e também sobre o uso dela para a sobrevivência. 

    quinta-feira, 22 de maio de 2014

    Uma Longa Queda


    Por Gabriel Fabri

    Martin Sharp era apresentador de um dos programas de maior audiência do Reino Unido e tinha uma vida familiar confortável e aparentemente estável. Até ele ser condenado à prisão por fazer sexo com uma menina de 15 anos, que teria afirmado ser maior de idade. A carreira, o casamento, o relacionamento com as filhas, a reputação: tudo o que ele construiu ao longo da vida foi arruinado. Sem perspectivas para o futuro, Sharp resolve se atirar de um prédio na noite de ano novo. O que ele não contava era que outras três pessoas também tivessem a mesma ideia. Esse é o mote da comédia "Uma Longa Queda" (A Long Way Down), adaptação homônima do romance do inglês Nick Hornby para os cinemas.


    Junta-se a Sharp (Pierce Brosnan) um grupo de pessoas que se consideram miseráveis, cada um à sua maneira. A adolescente Jess (Imogen Poots) está com o coração partido após ter transado com um garoto que a descartou logo em seguida; a cinquentona Maureen (Toni Collette) se sente sozinha, cuidando de seu filho, um jovem com deficiência; o entregador de pizzas JJ (Aaron Paul) alega estar morrendo de um câncer cerebral, mas esse não parece ser o real motivo de ele preferir a morte à vida. 

    Essa reunião de pessoas completamente diferentes, tendo em comum o fato de serem todos melancólicos e perdidos, poderia gerar vários tipos de conflitos e situações. Com isso em vista, o filme recria e desconstrói alguns acontecimentos do livro, como, por exemplo, o motivo de eles terem descido da torre - muito mais plausível no filme. Mudanças como essa são muitas (além de que praticamente a segunda metade inteira do livro é descartada), mas são, em sua maioria, positivas para a trama, que tem ritmo e é envolvente.

    A narração do livro de Hornby, feita por todos os quatros personagens, intercalando-os, é transposta para o filme, que dá voz para cada um deles narrar um pedaço da história, uma única vez. Assim, o diretor Pascal Chaumeil aproxima um pouco o público dos pensamentos de cada um dos integrantes da "gangue" suicida. Não chega a adquirir, porém, uma profundidade significativa aos personagens. E ai que está o problema: desprovidos de complexidade, todos parecem muito superficiais. E fica difícil entender o por quê deles quererem se matar no início do filme. Dos quatro, apenas Jess se destaca, trazendo um humor irreverente com seu papel de adolescente problemática. O personagem de Pierce Brosnan é o que mais sofre com a simplificação - o espectador pode até querer ser como ele, no fim das contas. E a solidão de Maureen, a mais tocante no livro, passa meio batido.

    "Uma Longa Queda" prefere trabalhar com apenas uma chave da história desses quase suicidas: a da superação. Nesse caminho, resulta em uma obra tão alto astral que quando tenta fazer um drama no clímax, não convence, e se desenrola em um final clichê e previsível. O grupo que poderia ser tão conflituoso se limita a dar uma lição de comunhão e positividade que realmente agrada a audiência, mas que logo será esquecida.