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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Anomalisa



Desde o início de Anomalisa, animação dirigida por Charlie Kaufman (Roteirista de Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) e Duke Johnson (da série animada Mary Shelley's Frankenhole), há um certo mal estar em cena: com o avião aterrizando, um homem desconhecido segura na mão de Michael Stone, para o seu desconforto na viagem. O toque entre dois estranhos, inocente, sem conotações sexuais, incomoda. É uma fragilidade estranha, banal. Indicado ao Oscar de Melhor Animação, o longa-metragem é assim por toda a projeção: sublinha a banalidade e a melancolia do cotidiano.


Na trama, Michael (dublado por David Thewlis) é autor de um livro sobre atendimento ao cliente. Ele viaja para uma cidadezinha qualquer para ministrar uma palestra motivacional. No hotel em que se hospeda, ele reencontra uma pessoa do passado, um antigo relacionamento, e, por acidente, acaba conhecendo uma mulher diferente de todas as outras: Lisa (dublada por Jennifer Jason Leigh, indicada ao Oscar por Os Oito Odiados), que desperta a atenção dele por conta de sua voz: é a única voz feminina no filme, já que todas as outras são dubladas pelo ator Tom Noonan.

O longa-metragem é todo construído em um tom melancólico, mostrando que, embora Michael seja uma pessoa bem sucedida profissionalmente, ele se sente vazio. Tudo ao seu redor parece chato, entediante, um motivo para ficar deprimido. Até que Lisa aparece, mostrando que, por mais triste que Michael possa estar, alguém sempre pode estar pior. Não é a toa que Michael, portanto, tem dificuldades para ensaiar sua palestra para o dia seguinte: qual o sentido de mandar as pessoas sorrirem? Os dois juntos encontram um refúgio para essa tristeza constante, entretanto, ambos sabem que esse momento de breve felicidade, marcada pelas suas inseguranças, não pode durar. 

Anomalisa defende o adultério do personagem, ao invés de sua fidelidade com a família. Tem cenas de nudez, sexo, masturbação e palavrões, coisas pouco comuns no gênero da animação. E adota um visual "animado" para mostrar o seu oposto, um mundo desanimado. Em seu momento mais belo, o filme faz essa subversão: pega Girls Just Wanna Have Fun, hit de Cindy Lauper, e transforma essa música dançante em uma balada um tanto quanto depressiva - e, nessa tristeza, encontra beleza. Talvez esse seja o ponto forte de Anomalisa: encontrar a tristeza na beleza, e vice-versa. E digo "talvez", pois, em sua simplicidade, a animação não entrega uma interpretação fechadinha - e, assim, obriga o público a se conectar com os seus sentimentos do dia-a-dia, e a refletir sobre eles.  

| Gabriel Fabri


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Snoopy & Charlie Brown - Peanuts: O Filme



Um dos primeiros grandes desafios na vida de um garoto é aprender a falar com, é claro, as garotas. Pelo menos quando se trata de um personagem como Charlie Brown, tímido e inseguro, cujo melhor amigo é o seu cachorrinho - o icônico Snoopy. Para conseguir chamar a atenção da nova garota de sua classe, a "Menina Ruiva", Charlie vai tentar de tudo para vencer seus medos.

Esse é o ponto de partida de Snoopy & Charlie Brown - Peanuts: O Filme, longa-metragem que traz para as telonas pela primeira vez os personagens criados em 1950 pelo cartunista norte-americano Charles Schulz. A obra consegue, com graça, dar destaque para todos os célebres personagens das tirinhas Minduim, resultando em um filme engraçado e espirituoso. 

A primeira coisa que chama atenção no longa-metragem dirigido por Steve Martino (A Era do Gelo 4) é o visual. Das tirinhas do jornal para o cinema, o cuidado com a computação gráfica, reforçado pelo 3D, é impressionante. E é logo na primeira sequência que o filme, de maneira muito simples, mas eficaz, apresenta todos os personagens - a partir da milésima tentativa fracassada de Charlie Brown empinar uma pipa. Está aí posto também o principal conflito do filme, que é o de Charlie consigo mesmo - ele está, afinal, destinado a falhar em tudo? 

De maneira geral, o longa-metragem funciona muito bem quando foca no garoto e em seus amigos e colegas de classe. O cachorro Snoopy, nessas cenas, agrega charme e humor, na medida certa - e alguns momentos são realmente hilários. Entretanto, quando o filme abre espaço para o animal voar solo, ele perde em qualidade: as muitas cenas em que Snoopy imagina as suas aventuras para conquistar o coração de uma cadela são cansativas e sem graça - meras cenas de ação, sem propósito, e que dão a sensação de que os diretores estão "enchendo linguiça", popularmente falando. E estão. 

Peanuts: O Filme é fofo, engraçado e passa uma boa mensagem para as crianças e para os adultos sobre autoestima e aceitação. E embora Charlie Brown e Snoopy sejam os personagens do título, vale a pena ressaltar que a presença feminina no filme é muito rica e forte: até Lucy, a personagem mais rabugenta, é simpatia pura. Difícil não gostar dessa turma. 

| Gabriel Fabri   

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Bom Dinossauro



Após demonstrar um novo vigor criativo com a animação Divertida Mente, que trazia como personagens os sentimentos na cabeça de uma garotinha, os estúdios da Disney-Pixar apresentam agora O Bom Dinossauro (estreia de Peter Sohn em um longa-metragem), uma aventura mais convencional do que o filme anterior, mas que impressiona pelo visual realista das paisagens. 


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  • Na trama, uma família de dinossauros vive de sua colheita e se prepara estocando comida para o inverno. Desajeitado desde o nascimento, Arlo não consegue cumprir suas tarefas direito, sentindo-se inferiorizado perto dos irmãos. Determinado a "deixar no mundo a sua marca" (literalmente), o jovem dinossauro aceita o desafio proposto pelo seu pai: deve capturar e matar a criatura que está roubando os alimentos estocados. A criatura, entretanto, é um garotinho, o que deixa Arlo bastante assustado - dá para imaginar como seria estranho para um dinossauro ver um humano pela primeira vez. Duas reviravoltas unem Arlo e o garoto em uma aventura pela selva desconhecida. 

    O longa-metragem se destaca ao inverter os papéis com os quais o público se identifica: o humano aqui é animalizado - em alguns momentos, parece um selvagem, em outros, um cachorrinho fofo. São os dinossauros com os quais se constrói realmente a identificação e é Arlo o protagonista dessa história, não o garoto. 

    É interessante notar como são nítidas as semelhanças que O Bom Dinossauro tem com Como Treinar o Seu Dragão - assim como na animação da Dreamworks, em que o protagonista precisa matar o dragão mas não consegue (e daí surge uma amizade improvável), aqui acontece a mesma coisa, com a inversão de que o humano é a presa dessa vez. Além disso, os temas são parecidos: as duas falam sobre amizade, a necessidade de se provar para a família, a coragem necessária para sair da zona de conforto e fazer algo grandioso e, por fim, a questão de que as aparências enganam (em Como Treinar, o dragão Banguela era considerado o mais perigoso de todos, sendo chamado de Fúria da Noite, quando na verdade era o mais fofo). 

    O Bom Dinossauro tem piada com cogumelos alucinógenos, boas cenas de aventura, uma dupla de personagens simpáticos, uma grande carga emocional - não é a animação mais emocionante dos últimos tempos, mas vale citar que na sessão para a imprensa um garotinho saiu completamente desolado do filme - e também tem essa interessante inversão entre humanos e animais. Não é um filme muito original, pelo contrário, mas tem os seus pontos positivos, o que a torna uma animação acima da média. 

    Vale ressaltar, porém: O Bom Dinossauro, apesar de seus momentos fofos ou engraçados, não é uma animação alto astral. Estão no filme a questão de deixar a sua marca no mundo, o peso que isso trás para as pessoas (o jovem, principalmente), a dificuldade de vencer (ou melhor, conviver com) os próprios medos e de lidar com os momentos difíceis que a vida pode trazer. Há também a perda de alguém querido e a distância deles, o que são temas que todos temos que lidar, e algumas pessoas lidam com isso desde muito pequenos. O filme suaviza essas temáticas, mas não a ponto de deixá-las completamente escondidas entre as piadinhas e as cenas de ação. 

    O final é melancólico, inclusive porque deixa na dúvida se "deixar a marca no mundo" era realmente algo importante. É mais provável, portanto, que o desfecho traga sorrisos tristes do que lágrimas de felicidade. Sendo essa ou não a intenção dos realizadores, pouco importa, pois é esse o grande ponto positivo do longa-metragem: por trás de um momento feliz, a tristeza foi responsável por essa construção também. E assim, o filme faz um breve diálogo com Divertida Mente, que mostrava a importância da tristeza em nossas vidas. De forma mais simples e menos eficaz, porém. 

    | Gabriel Fabri   


    *O Blogueiro assistiu ao filme a convite do site Mundo Blá

    quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

    Alvin e Os Esquilos: Na Estrada



    É fácil entender como a franquia Alvin e Os Esquilos chega ao seu quarto episódio com Na Estrada: que criança não ficaria encantada com esquilos fofos, atrapalhados e encrenqueiros? Ainda mais se tratando do trio formado por Alvin, Simon e Theodore, que cantam e dançam profissionalmente - não músicas infantis, mas canções mainstream. Nessa nova sequência, o pop perde espaço para músicas menos conhecidas (nenhum hit do tamanho de Single Ladies, da Beyoncé, ou Bad Romance, de Lady Gaga, por exemplo), mas há ainda achados como Baby's Got Back (I Like Big Butts), de Sir Mix-a Lott. Não reconhece a música de nome? É aquele rap que fala "I like big butts and I can not lie" (Eu gosto de bundas grandes e não posso negar, em tradução livre). 



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  • Se a breve inclusão do clássico Baby's Got Back pode assustar alguns pais puristas (como o filme não dubla as canções, com exceção da final, as crianças nem vão perceber), a verdade é que o novo Alvin e Os Esquilos é um filme bastante convencional: toda a força do quarto episódio repousa no trio de personagens principais, fofos e engraçados, e nas suas pequenas trapalhadas - que sempre resultam em algum divertido número musical. Quando os três agitam uma festa de rua em Nova Orleans, por exemplo, é difícil querer ficar parado na cadeira. A música é o Uptown Funk, hit do Mark Ronson com Bruno Mars. 

    Nesta nova aventura, o trio se vê ameaçado pela chegada de Samantha (Kimberly Williams-Paisley), a nova namorada de Dave (Jason lee), humano que eles consideram como pai. Ao descobrirem que, em uma viagem a Miami, o homem pretende pedir a companheira em casamento, os três bolam um plano para viajar e impedir a proposta de ser realizada - afinal, temem que, ao formar essa nova família, Dave os exclua dela. Para evitar que isso aconteça, os esquilos contarão com a ajuda de Simon, o filho de Samantha, que em um primeiro momento, parece um garoto cruel, o típico bully. Um acidente no vôo para Miami, porém, coloca os esquilos na lista de "proibidos de voar" e os obriga a fazer essa viagem de carro, fugindo de um vingativo policial aéreo (interpretado por Tony Hale). Nessa viagem, Simon e os esquilos vão se conhecer melhor.  

    Alvin E Os Esquilos: Na Estrada é um filme bastante divertido é alto astral, com boa mensagem para as crianças. Entretanto, tem os seus defeitos, e o principal dele é na construção do personagem de Tony Hale: caricatural ao extremo, sua presença irrita e a maior parte das piadas que o envolvem são absolutamente sem graça - um erro gigante do roteiro perder tanta energia com esse personagem, que tira o brilho do filme. Além disso, a franquia mostra sinais de esgotamento: a decisão de iniciar o filme com uma house party comandada por um dos vocalistas do LMFAO, mostra que, em seu quarto episódio, a franquia não tem potencial para chamar alguém relevante para uma participação especial - escolher um dos caras por trás de "Sexy and I Know It" seria brilhante lá em 2011. 

    Gabriel Fabri

    quinta-feira, 25 de junho de 2015

    Minions



    Por Gabriel Fabri

    O sucesso estrondoso de Meu Malvado Favorito e de sua divertida continuação podem ser creditados quase inteiramente aos coadjuvantes das histórias, os minions, que acabaram por, merecidamente, conquistar as mentes e os corações do público com as suas trapalhadas e - é claro - a fofura dos monstrengos amarelinhos. Como aconteceu com os pinguins de Madagascar, era inevitável que eles fossem promovidos a protagonistas em um filme derivado. Dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin, Minions vale apenas pela simpatia das criaturas.




    A narrativa conta a trajetória dos minions antes de encontrar o seu chefe ideal, o Gru. Eles tentaram servir dinossauros, homens das cavernas e até o conde Drácula - mas, com suas trapalhadas, mataram a todos. Depressivos e sem propósito na vida, ficaram isolados no gelo, até que um trio de corajosos minions - Kevin, Bob e Stuart - resolveu tomar a iniciativa de buscar um novo vilão para servir. É nesse contexto que eles descobrem a lendária Scarlett Overkill, que lhes incube da missão de roubar a coroa da rainha da Inglaterra. 

    Se Meu Malvado Favorito se mostrou um filme criativo, não só pela criação dos minions, mas por colocar personagens malvados como bonzinhos, Minions, infelizmente, peca pela falta de criatividade. O novo longa-metragem não agrega nada muito de novo à franquia e diverte o público apenas com a repetição do que já estava consagrado - as trapalhadas e as fofuras dos monstrinhos, sem uma história consistente e envolvente por trás.  

    Com alguns momentos realmente engraçados, Minions é uma aventura divertida, sim, mas fica aquém dos filmes anteriores da série. Talvez se a vilã fosse um pouquinho menos caricatural (ou menos irritante), o resultado poderia ter sido mais interessante. Faltou história, embora, diante de Kevin, Bob e Stuart, é provável que pouca gente se preocupe com isso. 

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    terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

    Em DVD: Festa no Céu



    Por Gabriel Fabri

    No México, no dia 2 de novembro, acontece uma das celebrações mais vibrantes do mundo. Declarada patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO, a festividade do dia de muertos (dia dos mortos) vem desde antes da colonização espanhola e relembra aqueles que já se foram, celebrando a vida com música, fantasias, caveiras e pães especiais. Tudo isso é retratado de maneira vibrante e com muito bom humor na animação "Festa no Céu" (The Book of Life), dirigida pelo mexicano Jorge R. Gutierrez e produzida por Guillermo Del Toró (de "O Labirinto do Fauno").



    O filme mostra como a cultura mexicana encara a morte, onde o falecido, na pior das hipóteses, acaba no esquecimento. Por isso, existiriam dois reinos: o dos lembrados, que é o alegre, e o dos esquecidos, completamente cinza. Cada um deles é governado por uma espécie de anjo: o primeiro é guardado pela La Muerte, uma mulher doce como açúcar; o outro, por uma caveira chamada Xibalba (o nome vem da mitologia maia). 

    Na trama, a a Muerte e o Xibalba resolve fazer uma aposta: vendo dois melhores amigos, Manolo e Joaquim, apaixonados por uma mesma garota, Maria, cada um aposta em um menino para se casar com ela. A partir daí, o longa-metragem mostra como Manolo e Joaquim, cada um a sua maneira, tentará conquistar o coração - e a mão - da mulher.

    Para justificar o didatismo do filme - afinal, é preciso contextualizar alguns aspectos da cultura mexicana para o público -, a história é narrada a algumas crianças, brevemente apresentadas no filme, e que contribuem ao longo da projeção com intervenções, algumas bem engraçadas, como quando um garoto questiona: "que tipo de história é essa? Nós somos só crianças!". O recurso funciona, aproximando o público desse universo rico em detalhes e tão distante das produções para crianças convencionais.

    Misturando música, ação e humor, "Festa no Céu" tem potencial de cativar todo o tipo de público, pais e filhos. Divertido e ousado, o filme ganha muita força com a personalidade forte de Maria, uma heroína feminista e questionadora. Os dois homens, um forte e valente, o outro fofo e sensível, terão que batalhar muito pelo coração da moça. Nessa fábula sobre a vida e a morte, sobra espaço para discutir a relação com os pais, as escolhas para o futuro, as noções de amizade, amor e justiça. E sobra espaço também para discutir a coragem: o que é mesmo corajoso, matar ou não matar o touro? 

    As crianças certamente perderão alguns detalhes - como quando um toureiro afirma que gostaria de cantar ópera, e a trilha sonora evoca os acordes da "Canção de Toureiro" de "Carmen", de Bizet - entretanto, a diversão no mundo dos vivos, dos lembrados ou dos esquecidos está garantida.

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    terça-feira, 17 de junho de 2014

    Como Treinar o Seu Dragão 2


    Por Gabriel Fabri

    O Fúria da Noite era o dragão mais temido de um vilarejo vicking, cuja dinâmica social era organizada em torno da proteção à ameaça representada pelas criaturas voadoras. Soluço, o filho do líder da comunidade, não tem nenhuma das qualidades esperadas pelo seu pai, até que captura o tal dragão e decide cuidar dele, ao invés de matá-lo, causando uma verdadeira mudança de percepção entre os humanos. Essa é a história de "Como Treinar O Seu Dragão", uma animação sobre o medo do que é diferente e as maneiras de lidar com isso. A sequência, "Como Treinar o Seu Dragão 2", continua com a mesma mensagem, e resulta também em um filme de boa qualidade. 


    Cinco anos após o desfecho do primeiro longa-metragem, o vilarejo de Soluço vive em perfeita harmonia com os dragões, que foram acolhidos pela comunidade. A tranquilidade pode acabar devido à ameaça de Drago, que planeja extinguir os dragões controlando um exército dessas criaturas. Soluço terá a ajuda de sua namorada, Astrid, e também de uma personagem inesperada. Gerard Butler, Cate Blanchett e America Ferrera são alguns dos dubladores na versão em inglês. 

    A sequência sabe aproveitar os personagens bem construídos do primeiro filme, criando simpatia no público e sempre dando alguma função para os coadjuvantes. A variedade não prejudica o ritmo da obra, pelo contrário, ajuda com momentos de humor. O mais interessante é que a maioria desses personagens não são mais crianças em treinamento, e sim adolescentes que querem mostrar o seu valor. Saem as brincadeiras com os dragões e entram os conflitos dessa faixa etária. O destaque é um "triângulo amoroso" que já estava presente no primeiro filme, mas que agora ganha mais espaço na trama. 

    A idealização do personagem principal parece um tanto exagerada. Soluço é romantizado demais. Entretanto, isso não chega a prejudicar a obra, que se mantém verossímil (levando em conta que se trata de uma fantasia com dragões, claro) e envolvente do começo ao fim. Se o primeiro longa-metragem teve a ousadia de terminar com Soluço mutilado, faltou explorar um pouco esse aspecto, que é bastante negligenciado. Entretanto, a dose de ousadia aqui existe, e está na arrebatadora reviravolta do clímax, que deve provocar algumas lágrimas na plateia.

    Incomoda um pouco que um filme sobre aceitação tenha que disfarçar a homossexualidade de um personagem de modo que apenas os adultos entendam. Mas isso é apenas um detalhe. "Como Treinar o Seu Dragão 2" é uma ótima animação, muito acima da média e que deve encantar a todos. Até por que é impossível resistir ao sorriso do Banguela, o dragão fofo de Soluço, aqui ainda mais encantador.

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    terça-feira, 25 de março de 2014

    Rio 2



    Por Gabriel Fabri

    A Amazônia é um dos mais importantes ecossistemas do mundo, se não o mais. E ele está sendo destruído pela exploração do homem. Iniciativa louvável mostrar para as crianças o quanto isso é ruim. Rio 2, dirigido por Carlos Saldanha, tem essa boa intenção, mas acaba não se sussentando sequer como um entretenimento passageiro.


    Na trama, o casal de araras-azuis Blu e Jade descobre que os pesquisadores que os reuniu no primeiro filme estão na Amazônia, seguindo a pista de que outros exemplos dessa espécie possam existir naquela região. Então, alguns dos personagens do primeiro longa se reunem para voar 3 mil e 200 quilómetros pelo Brasil para ajudar a encontrar as outras aves que possam existir. Chegando lá, Jade reencontra o seu pai e um velho conhecido: dois personagens que trarão muitos problemas para Blu, um animal da cidade grande que precisará se adaptar à selva e à sua nova "família".

    Animais falantes na floresta, conflitos com o sogro, uma pessoa do passado que vem para acertar as contas, a dificuldade de criar os filhos. São temas que já foram incansávelmente representados de maneiras muito diferentes e criativas. Em Rio 2, tudo soa muito superficial e tais tramas se tornam desinteressantes. Se o primeiro filme ganhava pontos por ambientar a ação também nas favelas do Rio de Janeiro, explorando uma gama de oportunidades para usar a criatividade e discutir temas relevantes, aqui tudo cai no clichê. E os personagens que ora foram engraçados e cativantes, perdem o seu brilho em meio a uma trama que nada apresenta de novo ou de substancioso.

    Mas e a questão do desmatamento? Fica para o segundo plano e perde força com a caricatura do empresário da madeireira. Pintá-lo como um gênio do mal parece reduzir essa figura a um caso específico de loucura ou insanidade de um personagem que, na verdade, existe aos montes do mundo todo e, creio, devem ser muito mais espertos do que sua representação nesse filme. Se ele ainda fosse bem desenvolvido, com alguma complexidade, poderia dar outro tom ao filme.

    De positivo, está o enorme leque de referências culturais da cultura norte-americana, importadas para o Brasil. Na melhor cena do filme, faz-se uma audição para escolher talentos (para um concurso que não leva a nada na trama, vale ressaltar), e há até referências a Miley Cyrus e sua Wrecking Ball. Quanto à cultura brasileira, há bons elementos, principalmente na música. Todavia, sobra a constentação de que Rio 2 é exatamente aquilo que o primeiro não é: um relato preguiçoso de um país limitado a festa, carnaval e florestas.

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    domingo, 23 de fevereiro de 2014

    As Aventuras de Peabody e Sherman


    Por Gabriel Fabri

    Da Nova York do século XXI a Guerra de Tróia, Egito Antigo, Revolução Francesa... É o sonho de qualquer curioso, jornalista ou historiador poder viajar ao passado e apurar se o que aconteceu de fato corresponde aos escritos nos livros. Para Sherman, todavia, essa fantasia é realidade. Ao longo dos seus sete anos de vida, ele aprendeu história voltando no tempo, literalmente. Seu pai, Sr. Peabody, magnata e vencedor de um prêmio Nobel, constriu uma máquina capaz de teletransportá-los para o passado e a utiliza com fins educativos, somente. As viagens, porém, podem se tornar perigosas, e a dupla está prestes a embarcar na mais emocionante de todas, em As Aventuras de Peabody e Sherman, dirigido por Rob Minkoff.

    Como o próprio explica ao público no início da projeção, Peabody não é um pai comum: ele é, afinal, um cachorro, e dotado de muita inteligência. Quando filhote, não conseguiu ser o bichinho de estimação de nenhuma criança, pois sua retórica filosófica as assustavam. Depois de ter sua carreira consolidada, o cão adota Sherman, ainda bebê. Agora, o garoto, após percorrer grandes momentos da história, enfrentará, sem o pai, um grande desafio: o primeiro dia de aula. É quando conhece Penny, personagem que pareceria ter saído diretamente de "Meninas Malvadas", se não fosse bem mais jovem.

    Peabody, com medo de perder a custódia de seu filho após ele se envolver numa briga, chama os pais da garota para um jantar. Ai é que começam os verdadeiros problemas: Sherman revela a Penny como sabe tanto sobre história e, provocado, mostra a máquina para ela. Penny resolve ficar no Egito Antigo e logo pai e filho viajam no tempo para resgatá-la.

    Com a possibilidade de levar os personagens a qualquer acontecimento histórico imaginável, As Aventuras de Peabody e Sherman se destaca por colocá-los em confusão cada vez em uma época diferente. De maneira bastante didática, explica os contextos dos episódios, tornando o longa uma experiência para as crianças aprenderem não só as lições de moral presentes em todo filme infantil, mas também um pouco do passado, mesmo que esse esteja cercado de fantasia e situações improváveis. Os pais também têm sua cota de diversão: muitas piadas e citações passarão batidas pelas crianças e estão mais direcionadas aos adultos - o filme não se atreveu a explicar o que é o Complexo de Édipo, mas fez piadinha com isso, por exemplo. Ou mesmo o rápido plano de Bethoveen dançando sua sinfonia numa máquina de dançar.

    O filme ainda aborda questões sobre a maneira de educar os filhos - o garoto é superprotegido, fazendo tudo o que o pai manda, e a garota faz os pais fazerem tudo o que ela manda - e a aceitação de ter um pai "diferente". Desde o começo, fica muito claro que Peabody é um bom pai, e que ele tem todo o direito de ser pai, apesar de isso não ser bem aceito na sociedade. Do mesmo modo, a questão do bullying por ter um pai diferente e a aceitação do menino também é discutida - o que resulta na cena mais bela (e, talvez, a mais engraçada) do filme. Peabody representa um pai que foge do que é considerado pela sociedade o modelo de família "comum", mas e daí? E assim, ao discutir preconceitos e aceitação, o longa indiretamente toca em um ponto infelizmente ainda polêmico na atualidade, que é a questão de casais do mesmo sexo terem filhos. Diferente do padrão estabelecido há milhares de anos, mas o que isso importa, de verdade? Nada. 

    As Aventuras de Peabody e Sherman resulta em um divertido filme, engraçado e espirituoso, e que deve atiçar a imaginação e a curiosidade das crianças em relação ao passado e ao presente, sem entediar os pais.

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    terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

    Vidas ao Vento



    Por Gabriel Fabri

    Jiro Horikoshi é um homem que foi atrás de seu sonho. Desde criança, ele tinha um fascínio por aviões, e, impossibilitado de ser piloto, por causa da miopia, ele traça como objetivo se tornar um designer. Vidas ao Vento, novo filme de Hayao Miyazaki, constrói, nessa figura histórica do criador da aeronave que bombardeou Pearl Harbor na II Guerra, um retrato atual do homem: na busca da satisfação e do sucesso profissional, Jiro se aliena do mundo.

    A história se desenvolve linearmente, contando a infância de Horikoshi e mostrando o início de sua paixão. Em seguida, vemos o personagem na juventude, em uma situação bastante delicada: durante uma viagem de trem, um terremoto abala o Japão. Jiro socorre uma mulher, que estava acompanhada de sua filha, Nanoko. Anos mais tarde, o destino da menina e o de Horikoshi se cruzam novamente.

    O filme de Miyazaki tem alguns problemas evidentes: para começar, o ritmo. A narrativa se desenvolve muito lentamente, principalmente quando Horikoshi atinge a idade adulta. Na tentativa de deixar claro que o personagem principal é uma pessoa dedicada, o longa se perde e se torna insosso demais, e acaba relatando direitinho como a rotina de um engenheiro de aviões pode ser monótona. Depois, o romance com Nanoko não chega perto de convencer o espectador: se desenvolve tão rápido como uma brisa. Fica difícil de acreditar nas emoções de todo o drama do clímax, por isso. Não se decide se é amor ou uma mera convenção social, e, assim, envolve tanto quanto os testes de aviões ao longo do filme - nada, ou quase isso.

    Vidas ao Vento é um filme bem menor do que o encantador A Viagem de Chiriro, o mais conhecido filme de Miyazaki por aqui, mas não é um desastre, pois tem muito o que dizer para o espectador. E fala justamente na jornada desse antiherói, que, em busca de seu sonho, perde-se. É uma odisséia egocêntrica que transforma o jovem, que salvou desconhecidos em um terremoto, no homem que se limita a, apenas, fabricar aviões de guerra - o melhor da categoria, claro. O ditado "o sucesso subiu à cabeça" cabe perfeitamente aqui: o que vemos é o retrato de um homem fechado às pessoas ao seu redor. E o melhor é que Miyazaki consegue criticá-lo sem demonizá-lo, tornando Jiro um personagem humano, com muitos defeitos e qualidades, provocando as mais contraditórias reações na plateia.

    O final do filme, cruel, mas com uma sensibilidade e sutileza que lembram muito trabalhos anteriores do diretor, encerra a obra com firmeza, de modo a provocar uma reflexão maior sobre o protagonista e sua jornada. Temos uma crítica mordaz a duas figuras comuns também nos dias de hoje: a do workaholic e a do cidadão alienado. As duas se combinam no personagem de Horikoshi, que se revela o oposto da meninha Chiriro, do longa de 2001: ele vive desconexo do mundo real, que é mostrado nas telas. Chiriro viajou em um mundo que não é o nosso, mas nunca deixou de se preocupar com os outros. E Vidas ao Vento constrói sua crítica principal nesse personagem, que segue atrás do que quer inconsequentemente, para onde quer que a brisa do sucesso assopre. Miyazaki se sai melhor na fantasia, sem dúvidas, mas não perdeu aqui a oportunidade de fazer de sua última obra um filme bastante relevante.
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    quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

    Frozen - Uma Aventura Congelante


    Por Gabriel Fabri

    Pouco tempo antes de ser preso, o rapper americano T.I. lançou, em parceria com a cantora Christina Aguilera, a canção Castle Walls, cuja letra discutia a questão do isolamento. "Todos pensam que eu tenho tudo, mas é tão vazio vivendo atrás dessas paredes de castelo", cantava Aguilera, no refrão. Em tempos em que a ostentação continua forte, e a tecnologia parece distanciar e "esfriar" as pessoas, a nova animação da Disney, Frozen - Uma Aventura Congelante, dirigida por Chris Buck e Jennifer Lee, traz novamente uma história de princesas, mas também uma aventura cujo estopim é justamente esse vazio.

    Na trama, inspirada na fábula "A Rainha do Gelo", de Hans Christian Andersen, Anna e Elsa são irmãs e princesas. Elsa possui o poder de congelar as coisas com as suas mãos, uma espécie de Rei Midas, personagem da mitologia grega, mais controlável. Um dia, brincando com a irmã mais nova, ela acaba a ferindo. Os pais, para proteger as garotas, separam-as, isolando Elsa em um quarto. Até o dia em que Elsa é coreada como Rainha e, acidentalmente, acaba revelando seus poderes para o reino e foge, deixando o local em um inverno eterno.

    Frozen tem um enredo empolgante, cheio de reviravoltas, e usa recursos consagrados no gênero para agradar pais e filhos: o mascote engraçado (o boneco de neve que lembra o burro do Shrek), os números musicais, o final feliz, o uso do humor e as mensagens de amor. Cumpre o script das animações de sucesso sem se tornar muito infantil ou tampouco massante, embora caia em situações previsíveis uma vez ou outra.

    O drama do início do filme, com a questão das irmãs isoladas, toca o espectador logo no começo da projeção, e já dá uma sustentação para as personagens que vai além dos laços de família, dando uma complexidade maior para a jornada da heroína. Além disso, Frozen escapa do maniqueísmo bem versus mal, heroi e vilão: apesar da antipatia contra - reflitam - o capitalista, que teme por seus negócios, o filme não cria um vilão propriamente dito, que ocupe o centro da narrativa. O final até revela um, mas essa questão fica em segundo plano. O longa todo se sustenta na relação entre as irmãs. Vale ressaltar a negação de alguns clichês, em especial o do amor à primeira vista e o de que a princesa precise ser salva por um príncipe encantado. Talvez por ser a primeira vez que uma mulher, Jennifer Lee, assuma a co-direção de uma animação da Disney. 

    Frozen - Uma Aventura Congelante não é uma animação inovadora, mas é uma excelente aventura. Pensando o castelo como metáfora do ser humano, o filme critica, em vários detalhes, a frieza das pessoas, as portas fechadas para o mundo exterior. O frio não é desculpa para a falta de alteridade. Então, quem sabe, o longa não derreta alguns corações de gelo?

    Não deixe de ouvir 'Let It Go', a música de Demi Lovato para o filme, indicada ao Globo de Ouro de 'Melhor Canção': 


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    quinta-feira, 25 de julho de 2013

    Zarafa


    Por Gabriel Fabri

    Há um bom tempo que as animações deixaram, em sua maioria, de ser meros entretenimentos para as crianças. As melhores se tornaram filmes também para adultos, provocando os pais a pensarem junto com os filhos. Mesmo assim, obras como Up - Altas Aventuras ainda são um raro exemplo de produtos extremamente criativos, tocantes e encantadores, mas que também podem suscitar discussões intermináveis sobre a vida e as relações entre as pessoas, sendo alvo até das instigantes e introspectivas colunas de Eliane Brum. Impossível não pensar nessa animação da Pixar quando se vê uma girafa viajando de balão no longa de Rémi Bezançon, Zarafa. Um longa que também tem um quê de provocação, embora muito mais política do que intrapessoal.

    Zarafa é inspirada na chegada da primeira girafa à França, em 1827, poucos anos antes da invasão da Argélia pelo país. O ponto de partida da história é a fuga do menino Maki, recém-capturado por um traficante de escravos. Ele encontra um grupo de girafas e passa a andar com ele, mas logo uma delas é assassinada pelo seu sequestrador, que diante de um impasse com um homem misterioso, não captura Maki de novo. O garoto começa então a seguir seu salvador, que capturou o filhote do grupo à pedido do rei do Egito.

    Longe de ter uma estrutura muito criativa, Zarafa acompanha o menino na busca de cumprir sua promessa (trazer a girafa de volta para casa), nem que para isso seja preciso desafiar um rei. Um recurso interessante é o velho que conta a história de Maki para as crianças de sua aldeia, ilustrando os personagens com bonequinhos e tornando mais didático ao espectador jovem algumas passagens "difíceis" da história, como, por exemplo, o significado de uma "miragem".

    Zarafa aborda temas comuns ao universo infantil, como a amizade, a ausência de pais e o amor pelos bichinhos. Entretanto, traz questões mais complexas. Além do evidente repúdio aos escravocratas, o preconceito é a principal crítica social do filme. Maki, em determinada cena, é chamado de "macaco" pelo rei da França (provável alusão a Carlos X). Esse personagem é caracterizado de maneira boçal, numa clara crítica a sua postura imperialista e conservadora. 

    Corajoso, Maki grita que o verdadeiro animal não é a girafa, mas o rei. De maneira inocente, o protagonista é ousado, não apenas por lutar pelo o que quer, mas por falar o que pensa. Ele é uma criança negra, africana, desafiando o país mais elegante da Europa, numa época em que a monarquia ainda estava em voga. E é com esse personagem inusitado que as crianças de hoje irão se identificar e torcer. Identificação que será ainda maior com todas as passagens de dor exaltadas, por meio de lágrimas nos olhos de Maki e dos animais ou cenas como a envolvendo um tiro à queima roupa, no clímax do filme, incomum e improvável no cinema infantil. 

    Por trás de um filme sem os recursos sofisticados das animações em 3D e de aparente simplicidade, que pode tornar a sessão um tanto enfadonha para os adultos, Zarafa é uma obra que transpira questões políticas e sociais. Pode não ser uma obra muito atrativa, mas a importância dos assuntos abordados por ela é nítida.