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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tudo que Aprendemos Juntos



Em outubro deste ano, Sérgio Machado (Cidade Baixa) lançou o filme Aqui Deste Lugar (co-dirigido por Fernando Coimbra), sobre três famílias beneficiárias do Bolsa Família, programa de transferência de renda do Governo Federal. O novo longa-metragem de Machado, Tudo que aprendemos juntos, filmado antes do documentário mas que chega aos cinemas só agora em dezembro, guarda a mesma essência de seu trabalho com Coimbra: um tom esperançoso com a juventude mais pobre do Brasil, em uma tentativa de humanizá-la, para longe dos estereótipos. Estrelado por Lázaro Ramos, Tudo que aprendemos juntos alcança esse objetivo, em um filme bastante envolvente.



O longa-metragem se insere no contexto de filmes brasileiros que retratam o cotidiano das favelas, mas focando em questões além da violência urbana, como também visto em Antônia, de Tata Amaral, e Bróther, de Jeferson De. A semelhança com o primeiro é ainda maior, pois a obra de Tata também mostrava a música como uma das alternativas para um futuro longe do tráfico e do crime.

O próprio diretor, questionado pelo repórter sobre a relação do novo longa-metragem com o Aqui Deste Lugar, reforçou essa ideia de que o filme traz uma visão esperançosa da juventude. Em um primeiro encontro com os alunos, Machado ficou pasmo com o quanto todos aqueles garotos já tinham sofrido na vida e diz ter voltado para casa chorando. “No dia seguinte, chorei ao contrário”, afirma, pois pediu para cada um mostrar os seus talentos e ficou emocionando. “Foi aí que eu percebi que esses meninos não são o problema para o país, eles são a solução. Basta ter um pouquinho de combustível que o cara vira um foguete”, explica. No documentário, o incentivo era o Bolsa Família. Em Tudo que aprendemos juntos, o incentivo é a educação artística.

Baseado na peça Acorda Brasil, de Antonio Ermírio de Moraes, o longa-metragem retrata o nascimento da Orquestra Sinfônica de Heliópolis a partir do personagem Laerte (Lázaro Ramos), um músico focado e rigoroso. A primeira impressão que o público tem dele é ruim: irritado com os erros de uma colega de seu quarteto, ele parte para uma ofensiva machista, dizendo que ela tocava melhor antes de colocar silicone nos peitos. Mesmo assim, é fácil simpatizar pelo personagem, apesar de ele não ser, em um primeiro momento, nada simpático – é um homem com problemas, solitário, o que chega a dar pena, até porque, na cena inicial, o violista mal consegue começar a tocar o instrumento em uma importante audição na OSESP.

Imagine então a cara de Lázaro Ramos na cena em que ele vai para a sua primeira aula em uma escola na favela de Heliópolis (Zona Sul de São Paulo) e é recebido com música por seus novos alunos: os garotos são terríveis, e, apesar da poker face do protagonista nesse momento, qualquer pessoa sem o menor conhecimento em música pode perceber que Laerte terá muito trabalho pela frente. E, além da aparente falta de talento da turma, com exceção do garoto Samuel (Kaique de Jesus), o novo professor tem que lidar com um ambiente que não está familiarizado: uma sala de aula com jovens, em uma comunidade periférica. É um choque cultural de gerações, mas também classista – Heliópolis é um outro mundo.

Mostrando o amadurecimento tanto dos alunos quanto o do professor, o filme coloca a música e a educação como um impulso necessário para o crescimento individual e coletivo das pessoas. Entretanto, faz isso sem parecer panfletário e sem ignorar as contradições: os garotos que querem treinar e estudar, mas são impedidos pois tem que ajudar a família, a trabalhar ou a cuidar do pai alcoólatra. Os garotos que entram para crime organizado, no caso um esquema com máquinas de cartões de crédito. Ou o cotidiano violento da favela, por onde o professor caminha em noites escuras. Entretanto, um violino pode ser algo mais poderoso do que um revolver, como mostra uma bela cena do filme. Atenção também para como a música erudita e popular se encaixam em Tudo que aprendemos juntos, os dois com o mesmo sentido de empoderamento. Na trilha sonora, há uma música do rapper Sabotage, e no elenco, participações especiais de Criolo e Happin Hood.

O filme tem as suas imperfeições, porém, pelo menos em uma cena, em que uma das alunas desabafa em sala de aula. O discurso pesado e emocionado soa forçado demais, para o tamanho do debate que o causou. A menina em questão não é uma atriz e sim uma das alunas reais do Instituto Bacarelli, associação civil com sede em Heliópolis que fornece formação em música para jovens. Pelo o que o diretor explicou na coletiva, muito dos que os garotos dizem no filme é improvisado, e tem a ver com a própria realidade deles (a maior parte dos alunos no filme não são atores, e sim moradores da região e membros da Orquestra). Falta, porém, um cuidado a mais nessa sequência, e uma atuação mais contida, ensaiada, ficaria mais de acordo com a situação apresentada.

Com uma história simples, Tudo que aprendemos juntos sensibiliza e entretém o espectador, além de trazer muitas questões sobre a atualidade da periferia para serem debatidas. 

| Gabriel Fabri

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*O Blogueiro assistiu ao filme a convite do site Mundo Blá. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Entrando Numa Roubada



Por Gabriel Fabri

Um road movie de ação é algo raro no cinema nacional. Ainda mais com a premissa interessante de Entrando Numa Roubada, em que um grupo de artistas de cinema decadentes se reúne para fazer um novo filme, que pode ser a sua última chance de conseguir prestígio na área. Mas o diretor e um dos atores tem outros planos: sem que o resto do elenco saiba, os assaltos do filme, e todas as outras situações do roteiro, serão reais.



Apesar do começo ruim, com cenas pouco engraçadas, exageradas; uma introdução desnecessária dos personagens que imita quadrinhos; e uma narração em off que trabalha constantemente para deixar tudo mais desinteressante do que parece, o filme engrena em uma divertida comédia de ação. O primeiro assalto é hilário e a cena de perseguição na estrada, também.

Entretanto, o longa-metragem é cheio de problemas. Tocando no tema delicado das igrejas evangélicas, o filme exagera na caracterização do pastor que explora os seus fiéis, perdendo a naturalidade da situação. A crítica vira deboche. Para piorar, todos os personagens são assim, caricatos. Quem se dá melhor é a personagem de Ana Carolina Machado como a estagiária de produção. Entretanto, no ponto alto do filme, sua personagem dá uma reviravolta pouco crível. E o filme desemboca em um desfecho decepcionante, que trata da vingança sem a seriedade que o tema merece, como se fosse algo legal ou justificável. 

Longa-metragem de estreia de André Moraes, Entrando Numa Roubada perde a chance de ser uma boa comédia de ação. Tem ousadia para mexer com o tema do abuso econômico das igrejas, pauta importante da atualidade, tem uma boa história e bons momentos. Entretanto, tudo aqui é caricato, e o que poderia render boas discussões acaba ficando superficial e exagerado demais. 

Integram também o elenco Deborah Secco, Lucio Mauro Filho, Marcos Veras, Julio Andrade e Bruno Torres.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Divã a 2

Por Gabriel Fabri

Da safra mais recente do cinema nacional, poucos filmes grudaram tanto na imaginação do público quanto "Divã", dirigido por José Alvarenga Júnior e estrelado por Lília Cabral. Ao retratar as crises de uma mulher de 40 anos, com sensibilidade e com um humor muito diferente do pastelão das comédias globais, o longa-metragem conquistou uma boa audiência e rendeu até uma série de TV. Seis anos depois, tentando pegar carona no sucesso desse filme, eis que surge "Divã a 2", com direção de Paulo Fontenelle (de "Se puder... Dirija!"), um drama carente de atrativos.



Além do fato de retratar uma mulher em crise e que procura um psicanalista, não há qualquer ligação entre "Divã" e "Divã a 2". O filme de Fontenelle retrata agora uma moça mais jovem, Eduarda (Vanessa Giácomo), que está com o casamento com Marcos (Rafael Infante) desmoronando e um filho pequeno para cuidar. Com o divórcio, os dois tentam recuperar o tempo e a juventude perdidos em dez anos de casamento. Paralelamente, Marcos e Eduarda desabafam para os seus respectivos terapeutas.

Bons filmes de terapia conseguem muitas vezes êxitos extraordinários, ao trabalhar bem as emoções e as contradições dos seus personagens, em um ambiente de confissão. Prova disso é a série "In Treatment", que teve a sua versão brasileira estrelado por Selton Mello. "Divã a 2" passa longe desse sucesso, embora as cenas das terapias representem alguns dos melhores momentos do filme. 

Com roteiro fraco, que une os maiores clichês de fim de relacionamento junto com coincidências absurdas na história, como a grande reviravolta na relação de Eduarda com Leo (Marcelo Serrado), "Divã a 2" chega a ser desgastante para o espectador. A trama nunca engata e fica a sensação de que já vimos essa história milhões de vezes, contadas de maneiras mais envolventes ou criativas. Com poucos momentos para humor, alguns deles desastrados como a cena da blitz da lei seca, o longa-metragem se torna uma entediante jornada, que culmina em um final previsível. Faltam conflitos mais intensos, falta sensibilidade, faltam piadas engraçadas e faltam elementos para provocar alguma emoção no espectador. Personagens interessantes, isso tem? Também não, e talvez ai more a raiz dos problemas de "Divã a 2" - tudo é sem sal demais.

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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Últimas Conversas


Por Gabriel Fabri

"A gente está fazendo um filme aqui que deve dar errado", afirma Eduardo Coutinho, com bom humor, à primeira jovem que senta diante de sua câmera em "Últimas Conversas". O longa-metragem, dirigido por Coutinho e finalizado por João Moreira Salles após a trágica morte do documentarista em 2014, retrata histórias de jovens de uma escola pública de ensino médio, no Rio de Janeiro. 


Em uma rápida introdução, o falecido cineasta de "Cabra Marcado Para Morrer" comenta o próprio filme, dizendo não estar mais afim de realizá-lo. Ele preferia entrevistar crianças. Mas, de fato, seguiu com a ideia de conversar com adolescentes, para que os jovens desabafassem sobre suas vidas. 

O resultado é um rico documentário, envolvente, emocionante e muito triste. De frente para as câmeras, os personagens se abrem, revelando as suas cicatrizes mais pesadas. O drama é quebrado, ou incentivado, pelas pequenas e marcantes intervenções de Coutinho, que estimula os jovens a falarem, com frases de efeito engraçadas ("você tinha razão que adolescente é debil mental"), ou provocações que pegam de surpresa os entrevistados. 

Com muita tristeza, os jovens revelam casos de abuso, racismo, bullying e de abandono dos pais - a maioria dos entrevistados não tem contato com o pai biológico, por exemplo. Também contam um pouco de seus sonhos, que muito dizem sobre eles. "Últimas Conversas" é um retrato contundente da juventude brasileira, ou pelo menos, de uma parcela dela, mais humilde. 

O contraste entre as personalidades dos personagens, tão diferentes em alguns pontos, tão semelhantes em outros, torna a obra bastante interessante, de modo que os depoimentos não cansem. Só mais ao final, quando os jovens começam a ficar menos tempo diante das câmeras, e as histórias parecem começar a se repetir, que o filme perde um pouco de força. Mas a "Últimas Conversas" é reservado um grande final, com a única personagem feliz do filme. E é claro que se trata de uma criança.  Para pensar: curiosamente, a única de classe média alta entre os entrevistados. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O Som Ao Redor


Por Gabriel Fabri


Ao assistir a “O Som Ao Redor”, primeiro longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, é impossível não lembrar dos editoriais de Mino Carta, diretor da revista CartaCapital. O jornalista vira e mexe escreve sobre o que chama da manutenção da Casa Grande e da Senzala, ou seja, as continuações das estruturas de poder que vigoravam na escravidão, e, em sua visão, continuam em pé até hoje, com sua ideologia alimentada pela chamada grande imprensa. 

No longa-metragem, escolhido para representar o Brasil no Oscar 2014 e eleito um dos melhores filmes de 2012 por A.O. Scott, crítico do The New York Times, é claro o paralelo de uma rua de classe média do Recife com uma estrutura escravocata. Estão presentes as figuras do senhor de engenho, no personagem do Seu Francisco, e as relações de poder com os empregados.

O paralelo com as estruturas da escravidão são claros desde o início da obra. Em sua abertura, uma sequência de fotos em preto e branco de um Brasil rural, o olhar já é direcionado para essa questão, que fica mais clara na terceira parte da trama. Seu Francisco, logo quando é apresentado ao espectador, já evoca a figura de um coronel, com a frase “chegou na minha rua sem pedir licença”, lembrando de que é dono da maioria dos imóveis do bairro. Mas o seu negócio principal é o engenho, onde o público ainda pode ouvir os gritos agonizantes da escravidão, em uma determinada cena. O sangue da escravidão está ali, no banho da cachoeira, por apenas uns segundos, o que não deixa de ser marcante. Numa cena de amor, entre um segurança e uma empregada, o fantasma da escravidão aparece literalmente (visualmente?) como um fantasma. E a lei vale para todos, menos, é claro, para o protegido desse “coronel”, o jovem Dinho.

O filme acompanha a rotina de vários personagens, mostrando para o público um cotidiano muito próximo de sua realidade. Assistir a essa obra é quase um exercício de autocrítica, de nos fazer prestar atenção no que está ao redor, cientes de que algo não está muito certo. É o som incessante dos ambientes que lembra que algo está errado nesse cotidiano todo. Ou a paranóia com a segurança, que isola os indivíduos atrás de grades, portões de ferro, câmeras de segurança, em prédios “bem modernos”, como aquele que, na definição de uma personagem, “parece até uma fábrica”. O isolamento reflete em vários momentos, como um banho de mar na madrugada, ou uma masturbação com a máquina de lavar. 

O que pode ser visto como um diagnóstico das heranças da casa grande e da senzala, também é uma crítica aos comportamentos e idiossincrasias da classe média. Não à toa, a cena mais lembrada será a piada com a revista Veja, na reunião de condomínio, na qual a demissão de um porteiro é discutida de maneira bizarra, mas muito factível. Evocando as análises da filosofa Marilena Chauí, fica claro o retrato de uma classe média com ares de superioridade, como se fossem, sim, parte da burguesia. E não um meio termo entre a classe trabalhadora e a elite, a senzala e a casa grande.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um cinema de sensações - Entrevista com Philippe Barcinski




Por Alessandra Freitas, Gabriel Fabri, Gabriela Boccaccio e Thaís Varela

Quase sete anos após lançar “Não Por Acaso”, longa-metragem estrelado por Rodrigo Santoro e Leticia Sabatella, o diretor carioca Philippe Barcinski retorna ao cinema com “Entre Vales” (Imovision), filme que conta a história de um homem de classe média-alta que vai parar em um lixão. Já escrevendo o roteiro de sua terceira obra para as telonas, que dessa vez será um thriller, Philippe discute sua opção por um cinema mais sensorial e as motivações por trás de seus dois longas-metragens, obras que tratam de perdas e de homens fragilizados. 

Atualmente, Barcinski diversifica seus projetos entre cinema e televisão, já que “viver de cinema é muito difícil”. Um dos projetos recentes de Philippe é o seriado infantil “Que Monstro te Mordeu”, de Cao Hamburguer, que deve estrear em novembro na TV Cultura. Ele dirigiu 23 episódios do total de 50. 

"Entre Vales" já está disponível em DVD para locação. 

Confira a entrevista:

Como surgiu a ideia para o filme “Entre Vales”? 

Eu fiz uma pesquisa, no lixão Jardim Gramacho (Rio de Janeiro), para um documentário que não aconteceu. Na época, eu fiquei muito impressionado com a movimentação, com o espaço físico, com as sensações. Você vai lá e fica mexido, não sai ileso dessa visita. Conversando com as pessoas, ouvi muitas histórias de perda. Depois quando eu vim pra São Paulo, fiquei impressionado com a quantidade de carroceiros na rua e fui conhecer uma cooperativa. Ali, encontrei muitas histórias de recuperação.

É incrível que o lixo atraia para os lixões histórias de perda e, para as cooperativas, histórias de recuperação. E aí veio a ideia do “Entre Vales”: e se eu contar uma história de perda e recuperação nesses ambientes? 

Essa história de perda e recuperação, tem alguma ligação pessoal com você? 

Acho que sim, os outros filmes também têm. Primeiro a ideia de fazer um cinema que passe sensações, que seja mais que só a história narrada. São histórias em que um personagem vive uma jornada muito intensa e o longa-metragem se presta a passar isso pela construção das cenas, mais do que por sequências comuns de diálogo e dramaturgia. Tem essa coisa de querer construir visualmente e sonoramente sensações que passam por essas pessoas. Mas sim, isso da perda, eu tenho interesse nesse tema.

Que reflexão você pretendia provocar no público? 

É um filme bastante aberto, cada um vê um pouquinho, mas, além da temática do lixo e da perda, para mim é a coisa do personagem. Você pega um ser estruturado e vai esvaziando, esvaziando ele, até que ele não tenha nada e comece a se recompor. Eu achei que isso era uma matéria que eu queria trabalhar. 

Essa questão do ser estruturado e se recompondo tem a ver com a maneira alinear de contar a história? 

Desde o início eu achei que tinha que ser com os tempos entrecortados para ficar nessa questão mais sensorial, é muito mais instigante pra mim. Desde os curtas, nunca senti uma história que eu queria contar em tempo presente. Sempre fui atraído por filmes que propõem associações e vão se montando na sua cabeça, mais do que uma narrativa linear. 

Isso é uma inspiração específica de algum longa metragem, de algum diretor? 

Não, mas eu gosto muito do tempo do filme, ele tem um tempo diferente de todos os outros que eu fiz. O ator respira em cena, você deixa ela acontecer com calma, então acho que ele segue uma escola de cinema contemporâneo próximo a Dardenne, por exemplo. Quando eu estava filmando o fotógrafo falou do Béla Tarr, um diretor que constrói climas com a câmera, mais do que narrar. Então estava com um pouco disso na cabeça, mas nada chega a ser uma inspiração direta. 

E você vê alguma influência da tradição do cinema brasileiro no seu filme ou na sua carreira em geral?

Eu vi, quando estava na faculdade, obras do Glauber Rocha e filmes como “O Bandido da Luz Vermelha”. São longas que não são simplesmente uma história narrada, eles procuram sensações, isso eu acho que me atrai muito. O cinema mais contemporâneo brasileiro tem filmes que me atraem por isso também, como “O Céu de Suelly” e “Lavoura Arcaica”. Mas não me sinto filiado a uma escola, não.

O que você acha do atual momento do cinema brasileiro?

O momento atual é de um volume de produção grande e segmentado. Há um grupo de filmes que fazem parte de um cinema comercial industrial e que conseguem atingir um público – são as comédias populares, os filmes policiais e biografias de personalidade da cultura brasileira cujo comportamento ecoa em questões contemporâneas; há uma fatia de filmes de arte bastante irregulares que visam principalmente o mercado externo, mas cuja a maioria não está conseguindo penetrar nos principais festivais; e há uma série de filmes médios que acabam ficando em um limbo entre esses dois extremos.

Meus anseios são que haja mais obras de sucesso que não sejam com esses perfis, ampliando nosso repertório e que haja mais filmes de arte de qualidade que consigam entrar nos principais festivais internacionais, conquistando distribuição mundial. Há muito o que o governo fazer, mas a bola, na minha opinião, está no pé dos diretores e produtores.

No “Não Por Acaso” você faz uma analogia entre as relações humanas, o fluxo de trânsito e um jogo de sinuca. Você acha que essas coisas não são por acaso? Acredita em destino?

Para mim, o que fica é que os dois filmes buscam metáforas visuais a partir de elementos que eu achei que tinham potencial. Então, o trânsito e sinuca tão lá sendo trânsito e sinuca, mas significando outras coisas. Significando dois caras tentando controlar dentro de um sistema físico. No “Entre Vales”, o lixo também significa mais do que o lixo.

A curva dramática do “Não Por Acaso” são pessoas que querem controlar tudo e descobrem que a vida não pode ser controlada. Isso me move mais do que um pensamento sobre o destino.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Tropicalismo Digital

Cena de "Futuro do Pretério: Tropicalismo Now!"

Existe algo de tropicalista no cinema brasileiro hoje? 
Conversamos com Marco Vale,  Fábio Camarneiro e Ninho de Moraes para saber.

Por Ana Cristina Silva, Débora Fiorini e Gabriel Fabri



Cena de "Terra em Transe"


Desencadeado na música pelos cantores Gilberto Gil e Caetano Veloso, o movimento tropicalista não ficou restrito ao campo musical. Embora não tenha repercutido no cinema com a mesma força que na música ou no teatro, o tropicalismo influenciou a sétima arte. “O exemplo mais óbvio para perceber essa influência é o Macunaíma”, explica o professor de cinema da Faculdade Cásper Líbero, Marco Vale, a respeito do filme de Joaquim Pedro de Andrade. “O diretor faz um filme sintonizado com esse grande carnaval cultural que o tropicalismo propunha”. Mas será que a influência do tropicalismo ficou restrita ao Cinema Novo?

A relação entre cinema e tropicalismo é profunda, pois o filme Terra Em Transe, de Glauber Rocha, durante o movimento do Cinema Novo, serviu como grande inspiração para o Tropicalismo. “A influência age em uma certa representação alegórica de mitos da nossa cultura, de influências estéticas da cultura brasileira, só que numa representação carnavalizada”, explica o professor Marco Vale. Ele exemplifica essa carnavalização com a mistura de carnaval e política e o sincretismo das músicas no filme, que iam do erudito de Villa-Lobos à música de candomblé. “Essa mistura, a estética barroca do Glauber, vai fazer a cabeça dos tropicalistas”.

O tropicalismo, entretanto, não compactua da solenidade e seriedade do filme de Glauber. “O movimento pega essa coisa carnavalesca e se permite a ser alegre”, explica Vale. Essa atitude já está presente, por outro lado, em Macunaíma. Marco relembra uma cena do filme, “engraçadíssima”, em que o anti-herói apanha de sua mulher guerrilheira, enquanto toca uma canção de Roberto Carlos, É Papo Firme. “Isso é muito tropicalista, até porque o tropicalismo propõe um resgate, uma valorização de uma cultura pop”.

Cena de "Macunaíma"

Mas mesmo Macunaíma não foi tão influenciado pelo tropicalismo como os filmes do Cinema Marginal, que reuniu obras de baixo-orçamento que surgiram na região central de São Paulo, conhecida como “boca do lixo”. O principal exemplo é O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, no qual o diretor se apropria de um grande leque de influências culturais: filmes de diretores consagrados, como Orson Welles (Cidadão Kane) e Fritz Lang (Metrópolis), até os filmes de quinta categoria que o personagem vê no cinema, comendo uma espiga. “É uma provocação, ao invés de comer a pipoca, ele come a espiga. É um antropofágico, né?”, comenta Vale. O diálogo com a cultura popular é o que torna o filme totalmente tropicalista. “O tropicalismo também fazia esses resgates, pegar o que era visto como lixo cultural e trazer de volta para uma leitura sem preconceitos”.

Atualmente, Marco não enxerga uma continuidade desse diálogo no cinema brasileiro. “A gente não tem um Pedro Almodóvar”, comenta em referência ao cineasta espanhol de Fale Com Ela, que faz sua arte se inspirando nos melodramas mexicanos e norte-americanos mais bregas.

Cena de "O Bandido da Luz Vermelha"

Já o crítico de cinema Fábio Camarneiro acredita que a influência do tropicalismo no cinema brasileiro é grande, mas está diluída. “Ela precisa ser repensada, porque o momento histórico é totalmente outro”, comenta. Ele afirma que ser “tropicalista” hoje e naquela época são duas coisas “completamente distintas e talvez até incompatíveis”.

Entretanto, com algum esforço, Camarneiro consegue aproximar da estética tropicalista alguns filmes como Árido Movie, de Lírio Ferreira, Billi Pig, de José Eduardo Belmonte, e Amarelo Manga, de Cláudio Assis, devido a uma mistura de elementos tradicionais e uma linguagem pop. “Porém poderíamos pensar nesses filmes a partir de elementos do Mangue Beat (no caso dos filmes pernambucanos) ou de uma estética kitsch (no caso de Billi Pig), e acho que os resultados seriam mais interessantes”, afirma.

Cena de"Amarelo Manga"

Recentemente, o tropicalismo foi tema de dois documentários. Entre eles, O Futuro do Pretérito – Tropicalismo Now, dirigido por Ninho de Moraes e Francisco Cesar Filho. Segundo Ninho, o seu filme tenta ser tropicalista na montagem. “É engraçado que muita gente falou isso: não é um filme sobre tropicalismo, é um filme tropicalista”, comenta o cineasta. “Eu queria muito escapar de fazer um filme histórico, de lembranças”, revela. O motivo? “Aquelas ideias lançadas pelos tropicalistas em 67 só são possíveis de realizar nos anos 2000, com a chegada do digital e da internet”. Para Ninho, o tropicalismo é quase um movimento digital: “o tropicalismo prenunciava a unificação de todas as culturas”. O movimento incorporou para si manifestações do cinema, das artes plásticas, da música, do teatro, sem existir a internet. “Hoje tudo isso é mais possível ainda”. A herança está mais presente nas brincadeiras e provocações que circulam na web.

Ninho acredita que hoje se pode achar alguns filmes que façam essa união de manifestações culturais diferentes. O novo longa-metragem de Juliana Rojas, Sinfonia da Necrópole, talvez seja um deles: “ainda não estreou, mas acho que pode ser um filme tropicalista, pois é um musical e um terror feito no Brasil”. Assim como Camarneiro, ele também destaca as obras de Cláudio Assis e Lírio Ferreira: “Todos os filmes do Recife têm uma forte influência tropicalista. E lá no nordeste, o Mangue Beat tem muita influência também”.

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Samba


Por Avana Salles


“O Samba”. O nome do filme, por si só, já é auto-explicativo, mas seu diferencial está no olhar do diretor sobre o assunto, o francês Georges Gachot. Elemento tão presente na nossa cultura popular, esse estilo musical ganha nova percepção sob olhar estrangeiro. Gachot consegue transformar um tema já saturado em algo novo, produzindo um documentário alegre e rico em história.


E talvez seja essa a essência do filme, o posicionamento do estrangeiro sobre algo genuinamente brasileiro, uma óptica além do corriqueiro. A visão de quem está de fora, de quem não está acostumado com as situações e, por isso mesmo, consegue converter em novidade o que já está fielmente inserido na nossa brasilidade. 

Para nortear o enredo, Martinho da Vila guia o espectador pelas vielas, bares e ensaios de bateria na Vila Isabel - tradicional bairro da zona norte carioca, conhecido por ser um dos berços do samba no Brasil. Ao destacar a comunidade, o diretor mostra que o samba, além de um gênero musical, também é um estilo de vida e faz parte do dia a dia de seus moradores. 

Nesse aspecto, Gachot transparece um posicionamento mais sensível, o diretor valoriza mais o envolvimento das pessoas com a escola do que o próprio carnaval. Cenas do desfile e a desenvoltura da Vila na avenida são descartadas, dando espaço para os personagens da comunidade que ganham voz para falar e demonstrar sua integração com a escola. As cenas iniciais fazem jus ao trecho da melodia Renascer das Cinzas, de Martinho da Vila, “mostrando pro povo que o berço do samba é em Vila Isabel”.

O que também chama a atenção no documentário é a preocupação da produção em não cair em um denominador comum. Além de demonstrar as origens do samba, a obra preocupa-se também com mais dois fatores igualmente importantes: as transformações históricas e culturais do estilo musical e a análise da fonte de inspirações para letras, enredos e melodias.

Para exemplificar as mudanças sociais, nas quais demonstram a aceitação do gênero, tradicionalmente popular, para as classes mais altas – o diretor escolhe cenas de consertos de Martinho pelo Brasil, acompanhado de orquestras. Além da passagem do compositor por Paris, onde o músico grava uma canção em conjunto com uma cantora francesa. Para complementar a análise desse processo sócio-cultural, o documentário conta com depoimentos de personalidades como Nana Mouskouri, Mart’nália, Ney Matogrosso, Leci Brandão, Zeca Baleiro e Beth Carvalho.

Uma belíssima sintonia de fotografia com trilha sonora. Impossível não batucar os pés no chão, involuntariamente, por alguns instantes.