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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lovelace


Por Gabriel Fabri

Em tempos em que livros com descrições de sexo explícito figuram entre os mais vendidos, e o cinema adulto sobrevive amplamente difundido na internet ou marginalizado em salas nada glamourosas, surge um filme para lembrar de uma época não muito distante de hoje. Nos anos 1970, um pornô levou milhares de pessoas aos cinemas e se tornou um clássico: trata-se de Garganta Profunda, longa em que uma garota tinha o clítoris localizado na garganta, se tornando uma queridinha do sexo oral. Lovelace, dirigido por Jeffrey Friedman e Rob Epstein, conta a história de Linda Lovelace, que virou estrela do dia para a noite por esse papel.

Lovelace é uma adolescente que tem suas liberdades cerceadas diariamente pela austeriadade dos pais, em especial de sua mãe, Dorothy Boreman (Sharon Stone, irreconhecível). Ela começa a se relacionar com o dono de um bar de striptease, Chuck Traynor (Peter Sarsgaard), com quem rápidamente se casa. Envolvido em encrenca, Traynor convence Linda a estrelar no cinema pornô para pagar as dívidas do marido. Enquanto Linda alcança a fama mundial, seu marido vai mostrando sua verdadeira face.

O filme de Friedman e Epstein acerta, sobretudo, na reconstrução da adolescência e da relação de Linda com os pais. Apesar de não ser o conflito central da narrativa, são nesses momentos que o longa ganha maior força: é onde Amanda Seyfried, no papel principal, demonstra maior talento, e Sharon Stone rouba a cena como a mãe conservadora, que estapeia a filha quando ela chega tarde do cinema. A melhor cena do filme é justamente um momento de tensão entre as duas. E, por isso, fica a sensação de que a personagem de Stone poderia ter sido ainda mais explorada pela trama.

Estruturado de maneira a mostrar que toda moeda tem dois lados, a obra começa mostrando o sucesso de Linda. Depois, avança seis anos, quando Linda está escrevendo sua autobiografia, para voltar em flashback, mostrando que essa ascenção não era o sonho que parecia ser: a relação com Chuck foi tão caótica que o tal período era, na verdade, um pesadelo. Nada que o espectador já não imaginasse, porém.

O maior problema de Lovelace está evidente na cena em que a família de Linda assiste à sua entrevista na televisão, após ela virar a página do seu relacionamento com Chuck e lançar sua autobiografia. O entrevistador afirma que a obra foi um dos livros mais tristes que já leu. O espectador de Lovelace então se dá conta de que esteve muito longe de viver uma experiência assim com o filme, que deve apenas entreter quem não conhecia a história de Linda - por sinal, uma personagem bem construída, como, por exemplo, nas sutilezas de uma sessão de fotos espontâneas, onde ela afirma para o fotógrafo que ele a deixou "bonita".

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis



Em determinado momento de Os Miseráveis (Les Miserables), não muito depois do seu início, a câmera para e observa estática Fantine (Anne Hathaway), em seu canto direito. A atriz encara as lentes e começa a cantar a bela canção I Dreamed A Dream. O mais longo close-up do filme pode ser capaz de derreter corações de pedra e é, definitivamente, o melhor momento da atriz em toda sua carreira: cantando (e atuando) por mais de três minutos sem um único movimento de câmara, de frente a ela, Hathaway hipnotiza e emociona. Uma cena poderosa como essa, logo no começo de um longa com mais de duas horas e meia de duração, poderia tornar tudo em seguida parecer menos grandioso, mas isso definitivamente não acontece: o musical é arrebatador.

O diretor Tom Hooper, vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, sabe o que faz. Aliado à excelente direção de arte, que criou cenários vibrantes e caprichados, o filme, cuja fotografia também é impecável, dá uma nova vida ao clássico de Victor Hugo. A alternância de planos é muito usada, mas Hooper repete o uso de closes nos atores muitas vezes, permitindo um maior envolvimento com as emoções das personagens, todos muito bem construídos e interpretados.

Os atores, importante ressaltar, são de uma importância crucial. Os Miseráveis praticamente não tem diálogos - tem monólogos, e são todos cantados. O elenco mostra um talento incrível que, aliados à direção primorosa, ao roteiro bem amarrado e à trilha sonora, segura e emociona o espectador ao decorrer da jornada. Além de Hathaway, quem também se destaca é Hugh Jackman, no papel principal. Uma de suas músicas (Suddenly) está indicada ao Oscar de Melhor Canção e merece o prêmio - a cena também é excelente. Jackman também está indicado a Melhor Ator, enquanto Hathaway é a favorita para ganhar  como Melhor Atriz Coadjuvante.

Dividida em duas partes, a história começa quando o personagem de Jackman é libertado da prisão, depois de cumprir pena de 19 anos por roubar um pão - e, na cadeia, ter tentado escapar. Anos depois, sua vida mudou, e ele tem a chance de ajudar Fantine e sua filha, que mais tarde será interpretada por Amanda Seyfried (12 Horas). A vida dos pobres na França é retratada sob a ótica - e a voz - deles. É a hora da revolução?

Completam o elenco Russell Crowe, Helena Bonham Carter e Sasha Baron Cohen, como os vilões da trama. Além deles, a bela Samantha Barks estreia no papel de Éponine e impressiona - uma de suas cenas musicais também está entre as mais emocionantes do filme.

Com oito indicações ao Oscar de 2013 e dois Globos de Ouro conquistados (Melhor Filme Comédia/Musical e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway, favorita ao Oscar), Os Miseráveis fez por merecer - poderia ser indicado até em mais categorias, como Melhor Diretor, por exemplo. São raros os filmes hoollywoodianos que conseguem envolver tanto o espectador, não com ação, mas explorando bastante os sentimentos dos personagens, por meio das músicas e dos seus closes. Algumas pessoas sairão das salas antes do final, porque, apesar de envolvente, está longe de ser uma obra fácil de ser digerida. Quem assiste à ela está desarmado diante de tantas cenas levemente tocantes e precisa estar disposto a permitir essa vulnerabilidade, essencial para sentir que, em suma, Os Miseráveis é arrasador.

sábado, 5 de novembro de 2011

O Preço do Amanhã

     
        Tempo é uma coisa muita valorizada hoje em dia, mesmo com as distâncias reduzidas e o dia a dia agitados do século XXI. Tempo é dinheiro, já diz o senso comum. E isso é posto literalmente em prática em O Preço do Amanhã ("In Time"), ficção científica escrita, produzida e dirigida por Andrew Niccol (diretor em "Gattaca - Experiência Genética" e "O Senhor das Armas").
       No mundo mostrado pela obra, tempo virou a moeda oficial. As pessoas tem o direito de viver apenas 25 anos e, a partir dai, tem apenas mais um, a menos que consigam umas horas extras, seja de maneira honesta ou não. Elas podem viver quanto tempo conseguirem com a aparência jovial, que não muda a partir da idade determinada. A sociedade em que Will Salas (Justin Timberlake, de "A Rede Social" e "Amizade Colorida"), sua mãe Rachel Salas (Olivia Wilde, da série "House") e Sylvia Weis (Amanda Seyfried, de "Mamma Mia!" e "O Preço da Traição") estão inseridos, entretanto, pouco difere da nossa, trazendo questões atuais para as telas.
       A trama mostra Salas vivendo num "fuso horário" pobre dos Estados Unidos, a periferia, e seu corrido cotidiano. Numa noite, entretanto, ele salva um homem rico, com milhares de anos de vida, das mãos de bandidos. Este, entretanto, num ato suicída, entrega seu tempo de vida para Will e ainda conta a verdade sobre o sistema, que fará com que ele vá ao fuso mais nobre em busca de justiça. Lá, encontra com Sylvia, filha do presidente do sistema, e os dois se vêem envolvidos numa aventura alucinante.
      Temos aqui um exemplo do melhor filme de ação que Hollywood pode fazer: casal com química certeira, cenas de ação e perseguição de tirar o fôlego, reviravoltas no roteiro e este por sua vez engajado nos problemas atuais do mundo urbano, mesmo se tratando de uma película futurista. Em meio a tudo, está a crítica a concentração de capital, a desigualdade social, a elite que governa com base nos seus interesses próprios (ficarem mais ricos e poderosos, ou nesse caso, mais tempo vivos). E a questão principal: até que ponto o dinheiro (ou a imortalidade, nesse referencial) traz felicidade?
      Sendo uma espécie de "Admirável Mundo Novo" misturado com um Robin Wood moderno ou quase uma nova versão de Bonnie e Clyde, o filme traz diversão com conteúdo. Não é o melhor personagem (nem a melhor atuação) de Amanda, mas o casal principal cativa o público e brilha no meio da metáfora de Niccol. Tudo isso sem perder o frenético timing, já que... tempo é dinheiro. E assistir esse filme, com certeza, não é desperdício.